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  • Castanha-da-amazônia: indígenas são remunerados por cuidar da floresta

    Castanha-da-amazônia: indígenas são remunerados por cuidar da floresta

    A castanha-da-amazônia produzida por povos indígenas da Terra Indígena Rio Branco, em Rondônia, ganhou um diferencial inédito na safra 2025/2026: pela primeira vez, a produção recebeu pagamento por serviços ambientais (PSA). A remuneração adicional reconhece o papel das comunidades na conservação da floresta, na proteção da biodiversidade e na manutenção dos ecossistemas locais.

    Castanha da amazonia
    Foto: Joze Medeiros/Embrapa

    A iniciativa nasceu de uma parceria entre a empresa Castanhas Ouro Verde Importação e Exportação Ltda. e a Cooperativa dos Povos Indígenas do Rio Branco (Coopirb). O acordo se desenvolveu dentro do projeto “Novas soluções tecnológicas e ferramentas para agregação de valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia” (NewCast), coordenado pela Embrapa.

    A pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do NewCast, Patrícia da Costa, explica que o projeto desenvolve e articula soluções tecnológicas para agregar valor à cadeia produtiva da castanha. Segundo ela, a experiência mostra que a integração entre tecnologia, organização social e mecanismos de valorização econômica fortalece as organizações locais e reconhece os serviços ambientais prestados pelas comunidades que conservam a floresta.

    A União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes) também apoiou as negociações com a empresa compradora. O que fortaleceu o diálogo comercial e a representação da cooperativa indígena no processo.

    Boas práticas elevam a qualidade e reduzem perdas na produção

    A adoção da tecnologia de Boas Práticas para produção de castanha-da-amazônia, desenvolvida pela Embrapa, contribuiu diretamente para a qualidade do produto comercializado. As orientações abrangem desde a coleta até o transporte, a lavagem, a seleção, a pré-secagem e o armazenamento das castanhas, o que reduz perdas e evita contaminações.

    O extrativista indígena Dalton Tupari destaca que essas práticas foram decisivas para a valorização da produção e para a negociação com a empresa compradora. Segundo ele, as recomendações orientam todo o processo, da coleta até a entrega. E agregam qualidade a um produto que já carrega a vantagem de estar associado à conservação da floresta.

    Na safra atual, a Coopirb comercializou cerca de sete toneladas de castanha-da-amazônia com pagamento adicional vinculado ao PSA. Para Tupari, o retorno econômico reforça a importância do trabalho das comunidades indígenas, que coletam e preservam a natureza e agora recebem valor diferenciado por isso. Uma prova de que conservar a floresta também gera renda para as famílias.

    Pesquisa, mercado e conhecimento tradicional se encontram na Amazônia

    A pesquisadora da Embrapa Rondônia Lúcia Wadt avalia que o resultado evidencia a importância de unir pesquisa, conhecimento tradicional, organização social e mercado. Ela lembra que a Embrapa apoia os povos Tupari e Aruá da Terra Indígena Rio Branco desde 2015 com a tecnologia de Boas Práticas, primeiro por meio do Pacto das Águas e, mais recentemente, do NewCast. Na safra 2025/2026, essas ações resultaram na valorização do produto pela qualidade e pelo serviço ambiental prestado pelas comunidades.

    Produtores são orientados quanto a cuidados desde a coleta até o transporte, lavagem, seleção, pré-secagem e armazenamento das castanhas. Foto: Lucia Wadt/Embrapa

    O contrato entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb abrange comunidades indígenas de diferentes etnias em uma área de aproximadamente 236 mil hectares. Além do valor comercial da castanha, o acordo prevê pagamento adicional de 20% destinado à organização indígena, como reconhecimento pelos serviços ambientais prestados.

    A cooperativa gerencia os recursos de forma coletiva, com aplicação em ações comunitárias como infraestrutura, saúde, educação, fortalecimento cultural e melhoria das condições de produção. Esse modelo mantém parte do valor gerado pela cadeia produtiva dentro dos territórios indígenas, beneficiando diretamente as famílias extrativistas.

    Cooperativismo amplia o acesso das comunidades ao mercado

    A experiência reforça o papel estratégico das cooperativas na organização da produção e na ampliação do acesso a mercados. A atuação coletiva da Coopirb permite reunir a produção das comunidades, padronizar procedimentos, fortalecer a gestão comercial e ampliar a capacidade de negociação.

    Os resultados demonstram a importância da integração entre pesquisa, conhecimento tradicional, organização social e mercado. Foto: Joze Medeiros/Embrapa

    A iniciativa também demonstra a relevância de compradores comprometidos com práticas sustentáveis e com a valorização da origem dos produtos florestais. Ao reconhecer a qualidade da castanha produzida com boas práticas e remunerar os serviços ambientais ligados à conservação, a Castanhas Ouro Verde ajuda a consolidar um modelo de comercialização que une atividade econômica, inclusão produtiva e conservação ambiental.

    NewCast projeta um novo horizonte para a cadeia da castanha

    O projeto NewCast articula soluções tecnológicas, organizacionais e comerciais para agregar valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia. A experiência na Terra Indígena Rio Branco mostra que a combinação entre tecnologia, organização social, cooperativismo, mercado estruturado e pagamento por serviços ambientais pode ampliar a renda das comunidades. Além de reduzir perdas, melhorar a qualidade do produto e valorizar os territórios indígenas da Amazônia.

    Válido para a safra 2025/2026, o acordo entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb representa um avanço concreto na construção de modelos de negócios sustentáveis para produtos da sociobiodiversidade. Mais do que comercializar castanha, a iniciativa reconhece o papel dos povos indígenas na conservação da floresta. E mostra que produzir com qualidade e preservar a Amazônia podem caminhar juntos.

  • Farinha de castanha supera proteína do trigo em 60%

    Farinha de castanha supera proteína do trigo em 60%

    A farinha de castanha-do-brasil tem teor de proteína 60% maior que o da farinha de trigo. Pesquisas da Embrapa comprovam o potencial desse ingrediente para o mercado de proteínas vegetais no Brasil. Além disso, a Embrapa desenvolveu farinha parcialmente desengordurada e concentrado proteico da castanha-do-brasil.

    Os pesquisadores aplicaram os ingredientes em hambúrguer, quibe e proteína vegetal texturizada. Como resultado, os produtos tiveram boa avaliação de sabor, textura e aparência. Agora, a Embrapa destaca que a tecnologia está pronta para testes em escala comercial.

    Segundo a pesquisadora Ana Vânia Carvalho, o Brasil precisa diversificar fontes nacionais de proteína vegetal.
    Por isso, os estudos focam no uso sustentável da biodiversidade brasileira. Além disso, as pesquisas incentivam geração de renda e novos ingredientes para a indústria alimentícia. O trabalho integra o Programa Biomas do The Good Food Institute Brasil. O projeto recebeu financiamento do Fundo JBS pela Amazônia.

    Castanha revela alto valor nutricional

    Os pesquisadores conduziram os estudos no Laboratório de Agroindústria da Embrapa Amazônia Oriental, no Pará. Primeiramente, a equipe analisou profundamente a composição da castanha-do-brasil. O alimento possui cerca de 15% de proteína e alto valor energético. Além disso, contém 67% de gorduras e sete por cento de carboidratos. Assim, os especialistas consideram a castanha promissora para proteínas alternativas.

    Para Carvalho, a castanha simboliza a sociobiodiversidade amazônica. Além disso, a oleaginosa pode fortalecer cadeias produtivas regionais. Consequentemente, a inovação valoriza pequenos produtores e indústrias locais.

    Subproduto industrial vira ingrediente proteico

    A indústria cosmética utiliza o óleo da castanha-do-brasil como principal matéria-prima. No entanto, a extração do óleo gera torta rica em nutrientes. Essa torta serviu como base para os novos ingredientes desenvolvidos pela Embrapa.

    Além disso, os pesquisadores aproveitaram castanhas quebradas ou fora do padrão comercial. Assim, o processo reduziu desperdícios e ampliou o aproveitamento da matéria-prima. Após a retirada do óleo, a farinha atingiu 32,4% de proteína. Isso representa aumento de 116% em relação ao teor original.

    Enquanto a farinha de trigo tem cerca de 13 gramas por 100 gramas. Já a farinha de castanha reúne quase 33 gramas de proteína. Portanto, a versão amazônica supera o trigo em cerca de 60%. A partir da farinha, a Embrapa produziu concentrado proteico com até 56% de proteína. Em seguida, os cientistas formularam produtos para o consumidor final. Eles testaram hambúrguer e quibe com farinha e concentrado proteico. Também produziram proteína texturizada com concentrado e proteína de soja.

    Embrapa desenvolve quibe e hambúrguer vegetais

    Foto: divulgação – Embrapa/Kadijah Suleiman

    A Embrapa Agroindústria de Alimentos, no Rio de Janeiro, desenvolveu os dois produtos vegetais. Segundo os pesquisadores, sabor, textura e aparência se assemelham aos produtos de origem animal. A instituição publicou o estudo e disponibilizou o material para download. A equipe utilizou farinha e concentrado proteico nas receitas. Segundo Janice Lima, o projeto transforma coproduto em alimento direto ao consumidor.

    Além disso, a proposta atende públicos vegetarianos, veganos e flexitarianos. No quibe, a farinha contém seis por cento de óleo e 32% de proteína. Também apresenta dez por cento de fibras. Os demais ingredientes são facilmente encontrados no comércio. O produto pode ser consumido logo após o preparo. Na indústria, a fabricação inclui embalagem e congelamento.

    O fabricante pode comercializar em versão crua, pré-assada ou congelada. No hambúrguer vegetal, os pesquisadores indicam o concentrado proteico. O ingrediente apresenta sete por cento de óleo e 56% de proteína. Além disso, oferece 13% de fibras. Após moldagem, o produto deve ser embalado e congelado.

    Produtos recebem classificação nutricional da Anvisa

    A Anvisa classifica o quibe como alimento de alto teor de fibras. Cada 80 gramas oferecem 6,8 gramas de fibras.
    Já o hambúrguer é fonte de fibras, com 4,5 gramas por porção. A avaliação considera a Instrução Normativa número 75, de 2020.

    Texturizado se assemelha à proteína de soja

    Foto: divulgação – Embrapa/Kadijah Suleiman

    Além dos alimentos, a Embrapa desenvolveu proteína texturizada vegetal de castanha e soja. O ingrediente contém cerca de 56% de proteína. O uso é semelhante ao da proteína texturizada de soja tradicional. Segundo Melicia Galdeano, o produto amplia fontes proteicas nacionais. Além disso, a inovação fortalece o mercado plant-based brasileiro. Atualmente, soja e ervilha dominam o setor de proteínas vegetais. No entanto, a castanha surge como alternativa sustentável. Portanto, a pesquisa incentiva plantio e beneficia comunidades locais.

    Consumidores aprovam novos produtos

    Os pesquisadores realizaram testes sensoriais com consumidores. Os participantes avaliaram quibe, hambúrguer e proteína texturizada vegetal. O público aprovou aparência, sabor e textura dos produtos. Segundo Daniela Freitas de Sá, os alimentos reproduzem padrões tradicionais. Assim, os coprodutos da castanha mostram alto potencial industrial. Consequentemente, o setor plant-based ganha nova alternativa nacional.

  • Exporta Mais Amazônia conecta empresas a compradores de cinco continentes

    Exporta Mais Amazônia conecta empresas a compradores de cinco continentes

    Rio Branco recebe de 28 de setembro a 2 de outubro a terceira edição do Exporta Mais Amazônia. O programa da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) conecta empresas brasileiras a compradores internacionais em rodadas de negócios focadas em produtos sustentáveis.

    A edição 2025 marca a maior expansão do programa desde 2023. Mais de 60 empresas da região Norte encontram 22 compradores estrangeiros de cinco continentes. Os importadores chegam ao Brasil interessados em produtos amazônicos sustentáveis.

    Programa já movimentou R$ 85 milhões em negócios

    Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, destaca o papel estratégico da iniciativa. “Criamos esse programa para reforçar o protagonismo da região amazônica na promoção de negócios sustentáveis”, afirma. “Demonstramos que é possível gerar oportunidades de exportação que impulsionam cadeias produtivas compatíveis com a floresta.”

    O Exporta Mais Amazônia comprova seu impacto significativo. Duas edições anteriores movimentaram mais de R$ 85 milhões em negócios. A primeira edição (2023) reuniu 35 empresas nortistas e importadores de 15 países no Acre. A segunda (2024) aconteceu em Belém com 33 empresas participantes e 15 compradores de 12 países, totalizando 231 reuniões de negócios.

    Empresas oferecem produtos florestais autênticos

    As empresas participantes apresentam açaí e frutas processadas, castanha-do-brasil, café robusta, artesanato, carnes suína e bovina, além de farinha de mandioca. Todos os produtos seguem práticas compatíveis com a floresta e beneficiam centenas de famílias extrativistas, agricultores e artesãos regionais.

    Os 22 compradores representam China, Bulgária, Indonésia, Irlanda, Holanda, Reino Unido, Rússia, Suíça, Colômbia, África do Sul, Peru, Chile, Japão, Índia e Moçambique. Os escritórios internacionais da ApexBrasil selecionaram e convidaram esses importadores.

    Experiência imersiva aproxima compradores da realidade amazônica

    Pedro Netto, representante do Escritório Regional Norte da ApexBrasil, explica a estratégia diferenciada. “Aproximamos compradores internacionais da realidade amazônica”, afirma. “Mostramos que os produtos da região carregam muito mais do que qualidade: eles representam modos de vida compatíveis com a floresta.”

    Os compradores participam de visitas a indústrias alimentícias locais e comunidades extrativistas. A experiência imersiva reforça o caráter sustentável e cultural da iniciativa.

    Rodadas de negócios acontecem no Sebrae Acre

    Igor Celeste, gerente Regional da ApexBrasil, destaca o momento principal do evento. “As rodadas de negócios representam uma grande oportunidade para que empresas brasileiras apresentem seus produtos, negociem preços e contem suas histórias”, explica. O contato direto facilita a concretização de negócios e fortalece relações de confiança.

    As rodadas acontecem nos dias 30 de setembro e 1º de outubro no auditório do Sebrae Acre. No dia 29 de setembro, o evento Diálogos reúne autoridades e especialistas para discutir oportunidades e desafios do comércio internacional.

    Empresas locais se preparam para exportar

    A Fruit Life, empresa de Rio Branco especializada em polpas de açaí, exemplifica o sucesso do programa. Fundada em 2020, a empresa participou do Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX) entre 2024 e 2025.

    “Nos sentimos prontos para a exportação após a qualificação oferecida pela Apex”, afirma Patrícia Coelho Galdino, sócia da empresa. “Nossa expectativa é apresentar os produtos, formalizar propostas e caminhar para efetivar as exportações com foco inicial no mercado latino-americano.”

    Biojoias amazônicas conquistam mercado italiano

    A Seiva Amazon Design, de Ananindeua (PA), transforma borracha amazônica nativa em biojoias sustentáveis. Lídia Abrahim, artesã e empreendedora, lidera a empresa em parceria com 40 mulheres de comunidades ribeirinhas.

    Lídia Abrahim e artesãs da Seiva Amazon Design. Foto: João Albuquerque

    “Nosso primeiro cliente de exportação foi conquistado através da rodada de negócios de artesanato em Mato Grosso do Sul”, conta Lídia. A empresa atualmente produz pedidos para um cliente italiano com envio previsto para outubro.

    A participação no programa elevou o padrão de produção e fortaleceu a rede de artesãs envolvidas. Para esta edição, Lídia prevê boas oportunidades no mercado europeu. “Essa clientela entende bem nosso produto e a questão sustentável, além de se identificar com o design das peças”, ressalta.

  • Cajueiro-anão revoluciona agricultura do nordeste

    Cajueiro-anão revoluciona agricultura do nordeste

    A tecnologia desenvolvida pela Embrapa Agroindústria Tropical está transformando a realidade da agricultura familiar no Semiárido nordestino. O cajueiro-anão, resistente à escassez hídrica e ao ataque de pragas como a mosca-branca, provou sua eficiência durante a devastadora seca que atingiu o Nordeste entre 2012 e 2017, quando outras culturas foram completamente destruídas.

    Com produtividade superior a 1.000 quilos de castanha por hectare – mais que o dobro da média nacional de 358 kg/ha – essa inovação não apenas garante renda aos produtores, mas também contribui decisivamente para a permanência das famílias no campo.

    Segredo da resistência está na fisiologia única

    O diferencial do cajueiro-anão reside em seus mecanismos fisiológicos únicos. Enquanto a maioria das plantas perde folhas para economizar água durante períodos secos, o cajueiro mantém sua folhagem verde, reduzindo a transpiração sem interromper a fotossíntese – processo vital para sua sobrevivência.

    “Poucas espécies frutíferas conseguem produzir em pleno período seco. O auge da produção do caju acontece no segundo semestre, justamente quando a maioria das plantas da Caatinga está em baixa atividade metabólica”, explica Marlos Bezerra, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical.

    A planta desenvolveu ainda a capacidade de otimizar a absorção de água do solo e aproveitar a umidade da madrugada, característica das noites mais amenas do sertão nordestino.

    13 clones desenvolvidos para máxima produtividade

    O Programa de Melhoramento Genético da Embrapa já lançou 13 clones no mercado, sendo 11 de cajueiro-anão especificamente recomendados para a produção de castanha e pedúnculo. Estes materiais são mais produtivos, resistentes a doenças e perfeitamente adaptados às condições climáticas e de solo do Semiárido.

    O clone CCP 76, mais plantado no Nordeste, é recomendado para cultivo no Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e regiões com características similares. Devido ao sabor excepcional do pedúnculo, tornou-se preferido para produção de caju de mesa, alcançando impressionantes 9.600 quilos de pedúnculo por hectare e 1.200 quilos de castanha.

    Foto: Acervo Embrapa

    Outros destaques incluem o BRS 226, com produtividade de 1.200 kg de castanhas por hectare, e o Embrapa 51, que pode atingir até 1.650 kg/ha em condições ideais de manejo – quase cinco vezes a média nacional.

    Rio Grande do Norte: recomeço após a devastação

    A produtora Najara Melo, que administra 1.400 hectares dedicados à cajucultura, vivenciou na pele os benefícios da tecnologia. A seca do início da década passada e o ataque da mosca-branca destruíram 95% dos cajueiros gigantes de sua propriedade.

    Produtora Najara Melo, do Rio Grande do Norte. Foto: Embrapa

    Em 2016, a família apostou no replantio com clones de cajueiro-anão, adotando práticas adequadas de manejo: podas sistemáticas, nutrição balanceada, controle preventivo de pragas e mecanização. Os resultados surpreenderam: “Conseguimos alcançar 2 mil quilos de castanha por hectare em anos bons”, celebra Najara.

    Piauí: transformação de 165 famílias

    Na região de Picos, 165 famílias de cinco municípios elevaram significativamente sua produtividade graças aos clones da Embrapa. Segundo Jocibel Belchior Bezerra, presidente da Cooperativa Central de Cajucultores do Piauí (Cocajupi), a revolução foi total.

    Jocibel Belchior Bezerra, presidente da Cooperativa Central de Cajucultores do Piauí (Cocajupi) – Foto: Divulgação Cocajupi

    “Antes, com cajueiros gigantes, esperávamos cinco anos para a primeira colheita. Hoje, com dois anos, o pomar já começa a se pagar”, destaca Bezerra. A produção média atual de 500 quilos de castanha por hectare, mesmo considerada pequena para o potencial da cultura, garante rentabilidade pelo aproveitamento integral do pedúnculo.

    Sustentabilidade e mudanças climáticas

    No contexto das mudanças climáticas globais, o cajueiro-anão emerge como solução estratégica. Enquanto outras frutíferas demandam grandes volumes de água, o cajueiro produz satisfatoriamente com precipitação anual entre 600 e 800 milímetros.

    “No Nordeste, desenvolvemos clones para produção em sistema de sequeiro, com alta performance produtiva que pode superar os parâmetros definidos pela pesquisa”, afirma Gustavo Saavedra, chefe-geral da Embrapa Agroindústria Tropical.

    A cultura também contribui para a sustentabilidade ambiental. As árvores reflorestam áreas degradadas, convivem harmoniosamente em consórcio com abelhas (prática adotada em 80% dos pomares), melhoram a polinização e reduzem o uso de defensivos.

    Aproveitamento integral maximiza lucros

    O conceito de uso integral revolucionou a cajucultura brasileira. Diferente do cajueiro comum, que atinge até 20 metros e dificulta o aproveitamento do pedúnculo, o cajueiro-anão permite colheita manual completa.

    Foto: Acervo Embrapa

    Hoje, produtores comercializam:

    • Castanha (produto principal)
    • Pedúnculo como caju de mesa
    • Suco industrial
    • Cajuína e derivados
    • Bagaço do pedúnculo
    • Líquido da Castanha de Caju (LCC)
    • Biomassa das podas

    Pesquisas avançam para produtos de maior valor agregado, incluindo corantes naturais e fibras para a indústria alimentícia.

    Patrimônio genético de mais de 50 anos

    O Banco Ativo de Germoplasma de Cajueiro (BAG Caju), mantido em Pacajus (CE) há mais de cinco décadas, concentra a maior coleção de variabilidade genética da espécie mundial, com mais de 700 acessos.

    “É um seguro para o futuro. Conserva subsídios genéticos que permitem ao Brasil enfrentar pragas, doenças e mudanças ambientais”, explica Ana Cecília de Castro, curadora do BAG.

    A capacidade de adaptação do cajueiro a climas áridos e sua vasta variabilidade genética são aspectos fundamentais para aumentar a resiliência do bioma Caatinga frente às mudanças climáticas.

    Com investimentos em tecnologia e gestão adequada, a cajucultura posiciona-se como alternativa estratégica para a agricultura do Semiárido, unindo sustentabilidade, geração de renda e expansão de mercados para as próximas gerações.

    Sobre a tecnologia:
    • Desenvolvedor: Embrapa Agroindústria Tropical (CE)
    • Produtividade: até 1.650 kg de castanha/hectare (média nacional: 358 kg/hectare)
    • Resistência: seca, pragas e doenças
    • Tempo para produção: 2 anos (cajueiro comum: 5 anos)
    • Aproveitamento: integral (castanha + pedúnculo + subprodutos)
  • Castanha de baru: o superalimento do cerrado

    Castanha de baru: o superalimento do cerrado

    A castanha de baru é um tesouro nutricional nativo do Cerrado brasileiro. Esta semente comestível vem do baruzeiro (Dipteryx alata), árvore que também recebe nomes populares como barujo, cambaru e cumari. A castanha de baru é uma semente comestível proveniente do baru (barujo, cambaru, cumari, feijão-coco, entre outros nomes), encontrada principalmente em estados como Goiás, Mato Grosso, Maranhão e norte de Minas Gerais.

    A castanha do Baru tem mais de 20% de proteína em sua composição nutricional, desta maneira é mais proteica do que a castanha de caju e que a castanha do Pará. Este superalimento concentra uma impressionante variedade de nutrientes essenciais.

    A castanha apresenta ferro, ômega 3 e 6, e fibras em sua composição. Rica em proteínas, fibras e antioxidantes, a Castanha de Barú é uma excelente fonte de nutrientes essenciais, como zinco, magnésio, potássio e vitaminas.

    Benefícios comprovados para a saúde

    • Controle do colesterol e saúde cardiovascular: é rica em ferro, ômega 3 e 6, e fibras, nutrientes que fornecem muitos benefícios para a saúde como diminuir o colesterol ruim. Sua gordura saudável ajuda a promover um coração mais saudável.
    • Fortalecimento do sistema imunológico: os antioxidantes presentes no fruto também ajudam no fortalecimento do sistema imunológico, ajudando a combater as ações dos radicais livres. A castanha de baru aumenta a imunidade através de seus compostos bioativos.
    • Energia e disposição: a castanha de baru gera mais energia, aumenta a disposição e é indicado em casos de fadiga e cansaço. Sua alta concentração proteica a torna ideal para atletas e pessoas ativas.
    • Saúde óssea e muscular: fonte de proteína, a castanha é excelente para a saúde dos ossos, bem como dos músculos, cabelo e das unhas. Cálcio, fósforo e manganês: importantes para a manutenção da estrutura óssea.
    • Propriedades anti-inflamatórias: possui propriedades cicatrizantes e anti-inflamatórias, sendo assim, também beneficia a saúde da pele.
    • Auxílio no controle de peso: é rica em proteínas e fibras, o que pode ajudar na sensação de saciedade, sendo uma ótima opção para lanches entre as principais refeições. A castanha de baru ajuda no emagrecimento devido ao seu poder saciante.

    Época de colheita e produção

    O período de colheita do fruto costuma acontecer de julho a outubro, período de estiagem. As épocas de desenvolvimento começam a surgir entre março e junho, amadurecendo nos meses de julho a outubro.

    Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    O baru é um fruto marrom, de casca fina, com cerca de 5 cm de comprimento, produzido pelo baruzeiro nos meses de setembro a outubro. Colheita: de julho a setembro. Rendimento: de 3 a 4 sacos (45 kg cada) por homem/dia (safra).

    Sustentabilidade e preservação do cerrado

    O comércio do baru é uma atividade sustentável, já que não é necessário cortar a árvore para a obtenção do produto. Esta característica torna o baru uma alternativa econômica que preserva o bioma Cerrado.

    A coleta do baru representa uma fonte de renda para comunidades tradicionais do Cerrado. Na seca em que é a época da colheita do fruto o gado roe a polpa do fruto no pasto, suplementando a sua alimentação, demonstrando a integração da espécie com a pecuária local.

    Os frutos podem ser consumidos inteiros, em geleias e licores, enquanto a castanha pode ser utilizada em pratos típicos como pé-de-moleque, paçoquinha e até em pães e bolos. A castanha torrada é muito energética e nutritiva. O sabor lembra o do amendoim.

    Mercado internacional e potencial econômico

    Seu alto teor de proteínas a torna ideal para dietas vegetarianas e veganas, atendendo a uma demanda crescente por alimentos funcionais e sustentáveis.

    O governo brasileiro informou essa semana a decisão da União Europeia de liberar a importação de castanha de baru torrada, fortalecendo a presença dos produtos do cerrado brasileiro no mercado internacional. A medida, anunciada por autoridades europeias, representa um avanço significativo para a bioeconomia nacional e para o setor de alimentos funcionais e naturais.

    Com uma população superior a 447 milhões de habitantes, a União Europeia figura como o segundo maior destino das exportações agropecuárias do Brasil. Em 2024, o bloco importou mais de US$ 23 bilhões em produtos brasileiros, com destaque para soja, café e itens florestais.

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  • AgroTagMFE: ferramenta digital fortalece rastreabilidade da castanha-da-amazônia

    AgroTagMFE: ferramenta digital fortalece rastreabilidade da castanha-da-amazônia

    A Embrapa Meio Ambiente lançou o AgroTagMFE, um aplicativo gratuito e de código aberto que permite mapear, registrar e monitorar em tempo real práticas sustentáveis de manejo florestal, com foco na castanha-da-amazônia e outros produtos da sociobiodiversidade amazônica. A tecnologia integra o sistema AgroTag e oferece transparência para mercados nacionais e internacionais. Além de agregar valor à cadeia produtiva da castanha, um dos principais pilares da bioeconomia na região.

    Desenvolvido a partir do módulo MFE (Manejo Florestal e Extrativismo), o AgroTagMFE atende projetos como “Manejo Florestal Extrativismo: criando referências para o desenvolvimento territorial na Amazônia” e “NewCast – Novas Soluções Tecnológicas para a Cadeia da Castanha-da-Amazônia”. O aplicativo conta com formulários específicos para espécies como açaí, andiroba, babaçu, bacuri, pau-mulato, pracaxi e, especialmente, a castanha-da-amazônia. Assim, possibilitando a coleta detalhada de dados espaciais e temporais das áreas manejadas.

    Segundo a pesquisadora Luciana Spinelli, o sistema registra informações com fotos, desenhos, coordenadas geográficas e dados sobre as etapas de pré-coleta, coleta e pós-coleta. Esses dados são sincronizados em uma plataforma online com mapas interativos (WebGIS). Isso permite gerar relatórios, cruzar informações com imagens de satélite e realizar análises robustas sobre a sustentabilidade das áreas extrativistas e as boas práticas adotadas.

    A rastreabilidade da castanha-da-amazônia é fundamental para garantir acesso a mercados internacionais cada vez mais exigentes. Especialmente após o Brasil perder espaço para a Bolívia na exportação do produto, devido a normas da União Europeia sobre aflatoxinas. Enquanto a Bolívia se adaptou rapidamente, o Brasil viu sua produção com casca ser exportada e processada no país vizinho.

    Cadeia produtiva

    Patricia Costa, também da Embrapa, destaca que cerca de 60 mil famílias amazônicas, entre indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, dependem da castanha para sua subsistência. A cadeia produtiva envolve mais de 100 organizações comunitárias e 60 empresas. Sendo, portanto, uma importante alternativa de renda e um vetor de conservação ambiental, ao valorizar a floresta em pé, evitar o desmatamento e contribuir para a regulação climática e o sequestro de carbono.

    Além de organizar dados, o AgroTagMFE oferece provas consistentes sobre a origem e qualidade do produto, promovendo ética, sustentabilidade e comércio justo. O sistema digital evita perdas de informações durante a coleta, enviando os dados diretamente a um servidor online. Outra inovação é a incorporação da espectroscopia de reflectância para análise físico-química das amostras de castanha. Essa técnica reduz custos e resíduos laboratoriais e fortalece a comprovação da origem e sanidade do produto, essencial para recuperar mercados externos.

    O sistema está em constante aprimoramento, com previsão de novas funcionalidades, como áreas de trabalho independentes para grupos parceiros e ampliação da rede de usuários, fortalecendo a colaboração entre instituições, comunidades locais e pesquisadores. A rastreabilidade é um caminho irreversível para os produtos da sociobiodiversidade. E gera confiança no mercado e mais renda para as comunidades extrativistas.

    O AgroTagMFE insere-se no contexto do fortalecimento da bioeconomia na Amazônia, modelo de desenvolvimento que aposta no uso sustentável da biodiversidade como motor econômico e social. Com a castanha-da-amazônia como símbolo desse movimento, o Brasil busca recuperar seu protagonismo e transformar a floresta em uma aliada do progresso sustentável.

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  • Crise climática afeta produção de castanha-da-amazônia

    Crise climática afeta produção de castanha-da-amazônia

    A produção de castanha-da-amazônia — também conhecida como castanha-do-brasil ou castanha-do-pará — enfrenta uma das maiores quedas das últimas décadas na safra 2024/2025. O fenômeno está diretamente ligado aos efeitos da seca severa na região amazônica e ao aumento das temperaturas, intensificados pela atuação do El Niño. A perspectiva de recuperação para a próxima safra é considerada promissora, mas especialistas alertam: é urgente a adoção de medidas de adaptação para garantir a sustentabilidade da cadeia produtiva.

    A Amazônia registrou, entre agosto de 2023 e maio de 2024, uma das secas mais intensas dos últimos 40 anos. O prolongamento do fenômeno El Niño, associado à baixa nebulosidade, alta radiação solar e queimadas recorrentes, provocou uma queda drástica na umidade do solo e impactou diretamente o ciclo reprodutivo das castanheiras.

    “A floração da castanheira-da-amazônia ocorre no fim da estação seca e início da chuvosa, podendo durar até seis meses. Já a maturação dos frutos leva entre nove e treze meses. Todo esse processo é sensível às variações climáticas extremas”, explica Carolina Volkmer de Castilho, pesquisadora da Embrapa Roraima.

    A situação remete à crise de 2017, quando o El Niño de 2015/2016 também comprometeu fortemente a produção. “A seca intensa reduziu a atividade de polinizadores, como as abelhas, e prejudicou a floração, resultando em forte queda na produção de castanhas”, relembra Lucieta Guerreiro Martorano, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental (PA). Raimundo Cosme de Oliveira Junior, colega de Martorano, destaca que foi a primeira vez que se registrou uma redução generalizada da produção em toda a bacia amazônica.

    Expectativa de recuperação para 2025/2026, mas com riscos

    Apesar do cenário adverso, técnicos da Embrapa apontam para uma possível superprodução na safra 2025/2026, impulsionada pelos efeitos do fenômeno La Niña e pela tendência natural das castanheiras de compensar ciclos de baixa produtividade. “No entanto, essa oscilação pode causar instabilidade nos preços e afetar o mercado”, afirma Patrícia da Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

    Especialistas recomendam medidas de regulação e suporte ao setor, para evitar perdas financeiras no longo prazo. Foto: Felipe Sa/Embrapa

    Em 2017, o preço da lata de castanha (20 litros) chegou a R$ 180,00. No ano seguinte, a superprodução associada à queda da demanda industrial, desencadeada pelos preços elevados, provocou um colapso: o valor da lata despencou para R$ 25,00. “Esse ‘efeito ressaca’ gera perdas severas e instabilidade para os extrativistas”, adverte Costa. Atualmente, em março de 2025, o produto voltou a ficar escasso, e a lata já atinge o valor de R$ 220,00.

    Medidas de manejo e tecnologias de apoio são fundamentais

    A adoção de práticas sustentáveis e o manejo adequado dos castanhais surgem como estratégias essenciais. Pesquisas da Embrapa indicam que o corte de cipós em árvores infestadas pode aumentar em até 30% a produção. “Estudos de mais de uma década comprovaram os benefícios da técnica, que também melhora a saúde fisiológica das castanheiras”, ressalta Lúcia Wadt, pesquisadora da Embrapa Rondônia.

    A regeneração natural da espécie também pode ser favorecida por práticas agroextrativistas. Um exemplo é a técnica de produção de mudas em miniestufas, tema de cursos à distância promovidos pela Embrapa. Além disso, o modelo “Castanha na Roça”, desenvolvido na Resex Cajari (AP), tem mostrado sucesso ao integrar agricultura itinerante com o cultivo de castanheiras, aumentando a regeneração da espécie fora da floresta madura.

    Segundo Marcelino Carneiro-Guedes, da Embrapa Amapá, “a estratégia permite formar novos castanhais em áreas já antropizadas, promovendo a resiliência da cadeia produtiva frente às mudanças climáticas”.

    Cuidados com a qualidade e armazenamento do produto

    Com a expectativa de aumento de produção na próxima safra, a garantia de qualidade da amêndoa se torna prioridade. Um dos maiores riscos está na contaminação por aflatoxinas — toxinas produzidas por fungos em condições inadequadas de armazenamento e que podem causar câncer.

    Alta temperatura e falta de chuvas prejudicaram a floração e a formação dos frutos das castanheiras. Foto: Vitor Alberto de Matos Pereira/Embrapa

    Boas práticas como secagem uniforme das amêndoas, armazenamento em locais secos e arejados, e transporte adequado são fundamentais. “Esses cuidados são essenciais para preservar a qualidade do produto, garantir segurança alimentar e agregar valor à produção extrativista”, reforça Cleisa Brasil, da Embrapa Acre.

    Pesquisa genética e seguro-extrativismo ganham destaque

    O Programa de Melhoramento Genético da Castanheira, da Embrapa, também está selecionando matrizes mais resistentes a variações climáticas, com maior potencial produtivo. Paralelamente, avança a discussão sobre a criação de um seguro extrativista. A proposta visa proteger financeiramente os extrativistas em anos de baixa produção, reduzindo os impactos socioeconômicos causados por eventos climáticos extremos.

    Napoleão Ferreira de Oliveira, da Associação Apavio (Resex Médio Purus, AM), defende a iniciativa: “Nossa economia depende do extrativismo. Sem chuva, a produção de castanha e açaí despenca. É preciso criar mecanismos de proteção social, como um abono semelhante ao concedido a outras atividades do setor primário”.

    Rede Kamukaia e o fortalecimento da cadeia produtiva

    Há quase duas décadas, a Rede Kamukaia, coordenada pela Embrapa, reúne pesquisadores, ONGs e comunidades amazônicas para estudar e desenvolver tecnologias voltadas à sustentabilidade do extrativismo. Um de seus projetos mais recentes é o NewCast, lançado em 2024, com duração de três anos.

    “O objetivo do NewCast é ampliar a base produtiva da castanha, melhorar sua qualidade e fortalecer as comunidades extrativistas”, afirma Patrícia da Costa, que coordena a iniciativa. O projeto conta com financiamento da Finep, órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e envolve unidades da Embrapa nos estados amazônicos e no Sudeste.

    Impacto na renda e risco de abandono da atividade extrativista

    A crise já afeta diretamente a renda de extrativistas em regiões como o Amapá e Rondônia. Elziane Ribeiro, da Resex Cajari (AP), relata que a produção caiu drasticamente. “Um castanhal que rendia 180 barricas não chegou a 10 este ano”, lamenta. Em Rondolândia (MT), Paulo César Nunes, da Cooperativa do Povo Indígena Zoro, alerta que a quebra de safra comprometeu contratos e empregos.

    “A indústria de base comunitária precisa ser fortalecida. Sem ela, o extrativismo pode entrar em colapso”, afirma Nunes. Ítalo Tonetto, diretor da Castanhas Ouro Verde (RO), reforça a necessidade de comunicação transparente com os clientes: “Mesmo com os avisos sobre a quebra de safra, muitos não acreditaram. A próxima safra pode melhorar, mas o impacto já está dado”.

    Sustentabilidade e conservação em risco

    A castanha-da-amazônia é o produto florestal não-madeireiro mais importante da região em termos de geração de renda. A adoção de políticas públicas, como o seguro extrativista, é vista por especialistas como essencial para evitar a migração das comunidades para atividades que contribuem para o desmatamento.

    A crise atual evidencia que investir em adaptação climática, fortalecimento comunitário e conservação ambiental é urgente para garantir o futuro da castanheira-da-amazônia — espécie-chave para a biodiversidade, a segurança alimentar e a cultura dos povos da floresta.

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  • Por que a castanha da Amazônia tem tantos nomes?

    Por que a castanha da Amazônia tem tantos nomes?

    A castanha, fruto da imponente árvore Bertholletia excelsa Bonpl., é um dos símbolos da sociobiodiversidade da Amazônia. Conhecida por diversos nomes – castanha-do-pará, castanha-do-brasil, castanha-da-amazônia –, a discussão sobre qual denominação é a mais adequada ganhou destaque em 2025, após uma polêmica envolvendo o ator manauara Adanilo no programa É de Casa, da Rede Globo.

    Durante a preparação de uma tapioca caboquinha, prato típico amazonense, Adanilo referiu-se ao ingrediente como “castanha-da-amazônia”, gerando uma intervenção da apresentadora Talitha Morete, que destacou o uso do termo “castanha-do-pará” no Sudeste. O debate se estendeu às redes sociais, ganhando ainda mais força com a defesa do nome “castanha-do-pará” pela ex-BBB paraense Alane Dias.

    Nomes populares versus nomenclatura oficial

    A diversidade de nomes reflete aspectos históricos, culturais e identitários das regiões onde o fruto é consumido. No entanto, no âmbito comercial, a denominação mais utilizada é “castanha-do-brasil”, estabelecida pelo Decreto Federal nº 51.209, de 1961, que regulamenta a classificação e fiscalização da exportação do produto.

    Historicamente, o termo “castanha-do-pará” surgiu no período colonial, quando a antiga província do Grão-Pará era o principal centro de exportação do fruto. Já o nome “castanha-do-brasil” foi adotado oficialmente na década de 1960, visando padronizar a nomenclatura para fins técnico-científicos. E também alinhar o produto à terminologia internacional, onde é conhecido como Brazil nut.

    Identidade regional e inclusão

    A ampla distribuição da castanheira pela Amazônia brasileira e outros países sul-americanos tem motivado a busca por uma denominação mais abrangente. O termo “castanha-da-amazônia” tem sido defendido por cientistas e produtores locais por refletir melhor a origem e a importância do produto para a região. A pesquisadora Patricia da Costa, da Embrapa Meio Ambiente, ressalta que a espécie ocorre em diversos estados da Amazônia brasileira e em países como Bolívia, Peru e Colômbia. “O Amazonas é o maior produtor no Brasil, mas a Bolívia superou o país como maior exportador de amêndoas desde 1998/1999”, afirma.

    A pesquisadora Kátia Emídio, da Embrapa Amazônia Ocidental, reforça que o nome “castanha-da-amazônia” representa melhor a ocorrência ampla do fruto na região. No entanto, a força do nome “castanha-do-brasil” no mercado internacional tem dificultado a adoção de uma nova nomenclatura.

    A Assembleia Legislativa do Amazonas recebeu o Projeto de Lei nº 913/2024, proposto pelo deputado Sinésio Campos (PT), que visa adotar a denominação “castanha-da-amazônia” para produtos e derivados no estado. A medida busca valorizar a produção local e fortalecer a identidade amazônica.

    Além disso, o projeto NewCast, liderado pela Embrapa, está revisando as normativas relacionadas à nomenclatura e aos padrões de qualidade do fruto. A pesquisadora Lúcia Wadt, da Embrapa Rondônia, explica que, embora haja um sentimento de inclusão em torno do nome “castanha-da-amazônia”, o termo “castanha-do-brasil” permanece consolidado internacionalmente. “Há um receio de que a mudança gere confusão entre os consumidores globais”, afirma.

    A importância para a Amazônia e o mundo

    A história da amêndoa da Amazônia é marcada por uma rica interação entre aspectos culturais, históricos e comerciais. Independentemente da nomenclatura, o fruto é fundamental para a sociobioeconomia, a cultura e a biodiversidade da região. Projetos como o NewCast, que busca fortalecer a cadeia produtiva e promover o desenvolvimento sustentável, destacam a relevância não apenas para a Amazônia, mas para o mundo.

    Para mais informações sobre a história e a nomenclatura do fruto, confira o livro da Embrapa: Castanha da Amazônia.

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  • Castanha-do-Pará: potencial econômico e benefícios para a saúde

    Castanha-do-Pará: potencial econômico e benefícios para a saúde

    A castanha-do-Pará, também conhecida como castanha-do-Brasil, destaca-se entre os principais produtos do agroextrativismo no país, sustentando uma cadeia produtiva que envolve milhares de famílias. Este setor movimenta, no mínimo, R$ 130 milhões por ano, de acordo com dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    A extração e comercialização são fundamentais para a economia de diversas comunidades na região amazônica. O cultivo sustentável da castanha não só proporciona renda, mas também promove a preservação ambiental, pois incentiva a manutenção das florestas nativas.

    Benefícios para a Saúde

    Além do seu impacto econômico, a castanha-do-Pará é conhecida por seus inúmeros benefícios para a saúde. Rica em selênio, um poderoso antioxidante, ela contribui para a manutenção da função cerebral e a prevenção de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer. Estudos indicam que o consumo regular de castanha-do-Pará melhora a memória e a função cognitiva.

    O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de castanha-do-Pará. Grande parte da produção é destinada à exportação, com os principais mercados sendo Estados Unidos, União Europeia e China. Segundo a Associação Brasileira de Exportadores de Castanhas e Derivados (ABNC), o volume exportado gera significativa receita, contribuindo para a balança comercial do país.

    O setor de agroextrativismo da castanha-do-Brasil continua a crescer, com novas iniciativas voltadas para a certificação e a agregação de valor aos produtos derivados. O objetivo é garantir a sustentabilidade da cadeia produtiva e melhorar a qualidade de vida das famílias envolvidas no processo.