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  • Filmes biodegradáveis crescem no mundo, mas Brasil não protege patentes

    Filmes biodegradáveis crescem no mundo, mas Brasil não protege patentes

    O setor de embalagens de alimentos vive uma corrida global por soluções mais sustentáveis. Entre as apostas mais promissoras estão os filmes biodegradáveis incorporados com óleos essenciais. A tecnologia prolonga a conservação de produtos frescos e processados e diminui a dependência dos plásticos derivados de petróleo. Um levantamento internacional de patentes revelou que o interesse por essa solução cresceu consistentemente entre 2012 e 2024, mas escancarou uma lacuna: o Brasil não protege nenhuma inovação nessa área.

    A prospecção tecnológica, realizada por pesquisadores da Embrapa, Unicamp e UFBA na base de dados Espacenet, mapeou 170 patentes válidas depositadas no período. O estudo mostra uma evolução constante nos registros, com picos em 2018 (30 patentes) e 2023 (35 patentes), indicando uma tecnologia em franca expansão com forte apelo comercial e ambiental.

    China domina 93% dos registros globais de patentes

    A análise geográfica dos pedidos não deixa dúvidas sobre quem lidera o setor. A China concentra cerca de 93% de todos os depósitos de patentes relacionados a filmes com óleos essenciais para alimentos.

    O protagonismo chinês reflete investimentos contínuos em inovação, políticas públicas de sustentabilidade e a força do setor acadêmico no desenvolvimento tecnológico. Países como Coreia do Sul, Romênia, Chile, Espanha, Índia, Luxemburgo e México aparecem com participações pontuais, confirmando o interesse global na área.

    Universidades puxam inovação; Brasil tem produção científica, mas não deposita patentes

    As universidades são as grandes protagonistas dessa inovação, respondendo por 69% dos registros. A chinesa Jiangnan University lidera como a instituição com mais depósitos. Empresas de embalagens e do agronegócio também figuram na lista, embora em menor número.

    Apesar da forte produção científica nacional em alimentos e bioeconomia, o estudo não identificou nenhum documento de patente depositado no Brasil com as palavras-chave e classificações utilizadas. Para a doutoranda Itala Silva, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o dado acende um alerta. “O cenário aponta um alto potencial para inovação no país, desde que haja maior incentivo à proteção intelectual e à transferência de tecnologia”, explica.

    Canela, orégano e cravo: os óleos essenciais que conservam alimentos

    Os filmes desenvolvidos demonstram grande versatilidade. Muitas patentes não especificam um alimento alvo, mas uma parcela significativa foca na conservação de frutas, que demandam materiais com boa permeabilidade a gases e ação antimicrobiana para preservar sabor e aparência.

    Na composição, os pesquisadores combinam materiais como amido e quitosana, escolhidos pela biodegradabilidade e propriedades estruturais. O colágeno de peixe e a gelatina também se destacam pela resistência mecânica e proteção contra radiação UV. Uma tendência recente é a incorporação de subprodutos da agroindústria, como cascas e bagaços, alinhando a tecnologia à economia circular.

    Entre os compostos bioativos, os óleos essenciais de canela, orégano e cravo são os mais frequentes. O óleo de canela oferece propriedades antifúngicas e antibacterianas; o orégano traz alto teor de carvacrol e timol; e o cravo contribui com forte ação antimicrobiana. Os pesquisadores utilizam essas substâncias isoladamente ou em combinação e aplicam técnicas como encapsulamento para aumentar sua estabilidade e eficácia.

    Desafio brasileiro: transformar ciência em propriedade intelectual

    Para o pesquisador Jorge Herman, da Unicamp, a tecnologia representa uma alternativa concreta para reduzir o desperdício de alimentos e de embalagens plásticas. O grande desafio para o Brasil, agora, é transformar o conhecimento científico gerado nas universidades em inovação protegida.

    O estudo, publicado nos Cadernos de Prospecção (v. 19, n. 1, 2026), é assinado por Itala Silva (UFBA), Daniel Terao (Embrapa Meio Ambiente), Jorge Herman Behrens (Unicamp) e Aline Biasoto (Embrapa Meio Ambiente). Eles concluem que, para fortalecer a competitividade do país, é preciso ampliar o número de patentes e participar ativamente de um mercado global que não para de crescer.

  • Modo de fazer alimentos na serra gaúcha pode virar patrimônio cultural imaterial

    Modo de fazer alimentos na serra gaúcha pode virar patrimônio cultural imaterial

    O modo tradicional de preparo de alimentos pelas mulheres e suas famílias nas zonas rurais de Gramado, Canela e São Francisco de Paula pode ganhar o reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Sul. O objetivo do inventário de referências culturais, que será realizado nas comunidades rurais desses municípios nos próximos meses, é documentar e valorizar essas práticas.

    Em junho, três seminários vão apresentar a finalidade e a funcionalidade do inventário, além de mobilizar a comunidade para participar do processo. Gramado recebe o evento no dia 3, no Horto Municipal. Em São Francisco de Paula, o seminário ocorre no dia 4, no salão comunitário de Campestre do Tigre. A data em Canela ainda está em definição. Estimativas informais indicam que pelo menos 350 famílias da região mantêm, diariamente, hábitos que podem compor o inventário.

    Protagonismo feminino e tradição no preparo de alimentos

    O preparo de alimentos nas comunidades serranas destaca o protagonismo das mulheres, que impulsionam a cadeia produtiva, geram emprego e renda, e preservam tradições culturais ancestrais. Essas práticas são transmitidas de geração em geração desde a chegada de imigrantes italianos e alemães ao Brasil. E fortalecem a identidade e o sentimento de pertencimento nas comunidades.

    “Queremos identificar e documentar para promover as práticas culturais dessas mulheres”, afirma Fernanda Pereira, especialista em Patrimônio Cultural do projeto. “O processo de preparo dos alimentos pelas famílias carrega forte traço cultural e reúne todas as características de patrimônio cultural imaterial”, destaca.

    Inventário de referências culturais valoriza a cultura gaúcha

    O inventário de referências culturais utiliza métodos internacionais para identificar e documentar práticas culturais das comunidades. “Nosso objetivo é destacar o protagonismo das mulheres da região, que preservam a cultura gaúcha e fortalecem a economia local”, ressalta Adriane Laste, coordenadora executiva do projeto.

    Os encontros para apresentação da metodologia e identificação dos entrevistados contam com a participação de representantes das prefeituras, Emater/RS-Ascar, associações rurais, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e entidades da sociedade civil.

    Sandra de Moraes Silva, extensionista social da Emater/RS-Ascar de São Francisco de Paula, reforça. “A Emater já promove o resgate cultural e o fortalecimento das comunidades rurais, inclusive com o resgate de receitas tradicionais. Este projeto amplia o alcance e a efetividade dessas ações. Em São Francisco de Paula, o seminário acontece na comunidade de Campestre do Tigre, de origem italiana, reconhecida pela forte presença de tradições culturais, o que destaca a importância do inventário”.

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