A Exposição Nacional Hereford e Braford 2026 começou em Esteio com um recado direto ao setor. Não basta escolher bem na pista. É no campo que a decisão mostra se fez sentido.
A Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB) abriu a programação com o Curso de Julgamento Dr. Jacob Momm Filho, retomando uma agenda que havia sido interrompida nos últimos anos. A proposta vai além da estética e tenta corrigir um desvio comum entre criadores: selecionar animais com base em preferência visual, e não em desempenho produtivo.
Logo na abertura, o presidente da entidade, Eduardo Soares, deixou claro o tom da capacitação. “Quando se fala em curso de julgamento, não se trata apenas de avaliar animais em pista. Todos nós somos jurados das nossas próprias convicções e precisamos estar preparados para julgar nossos animais em qualquer situação”, afirmou.
- Fique alerta: Morcego-vampiro causa estrago em rebanhos
- Mais cara do mundo: Conheça a vaca de R$ 54 milhões de Murilo Huff
A fala aponta para um problema recorrente no campo. A decisão genética ainda carrega subjetividade demais, e isso impacta diretamente o bolso do produtor.

Menos gosto pessoal, mais critério técnico
A tentativa do curso é justamente reduzir esse ruído. A seleção de machos e fêmeas, quando mal conduzida, compromete produtividade, eficiência alimentar e, no fim da cadeia, a qualidade da carne.
Segundo Soares, definir critérios objetivos deixou de ser diferencial e passou a ser necessidade básica. A capacitação foi estruturada para conectar teoria e prática, abordando desde regras institucionais até pontos técnicos da pecuária moderna.
Essa mudança de abordagem também aparece na fala do professor Júlio Barcellos, da UFRGS. Ele alerta que decisões baseadas apenas em preferência pessoal ainda são mais comuns do que deveriam. “A habilidade de escolher um animal vai além de gostos individuais e deve considerar fatores fundamentais ligados à produção de carne, atividade que sustenta toda a cadeia produtiva”, disse.
E foi além. “É preciso ultrapassar paixões e entender que a atividade-fim é a que paga a conta”.
Genética equilibrada ganha espaço no debate
Outro ponto que ganha força é o abandono da ideia de animal ideal. Em sistemas cada vez mais complexos, essa busca tende a gerar frustração e decisões equivocadas.
Barcellos foi direto ao classificar essa expectativa como irreal. “Essa busca é uma ilusão”, afirmou, defendendo uma genética mais equilibrada e adaptável a diferentes ambientes.
Esse raciocínio acompanha a própria evolução da ABHB. Fundada em 1958, a entidade ampliou sua atuação ao incorporar cruzamentos com raças zebuínas e consolidar o Braford. A mudança aumentou a adaptação dos animais e abriu novas possibilidades produtivas.
Hoje, a associação atua em todo o país, com programas que já avaliaram cerca de 1 milhão de animais, em parceria com iniciativas como Pampaplus, Promebo e Conexão Delta G.
Da exposição ao prato do consumidor
Embora o curso aconteça dentro de uma exposição, o impacto vai além da pista. A qualidade da carne começa na escolha genética, passa pelo manejo e termina no consumidor.
Programas como o Carne Certificada Hereford reforçam essa conexão, ao exigir critérios rigorosos de genética, idade e acabamento de carcaça desde 1998.
Na prática, o que está em jogo é a consistência do produto final. E isso depende de decisões tomadas muito antes do abate. Ao recolocar a capacitação técnica no centro da agenda, a ABHB tenta reduzir erros que ainda passam despercebidos. Erros que não aparecem de imediato, mas que, ao longo do tempo, comprometem eficiência, competitividade e resultado dentro da porteira.
A programação segue com atividades práticas, onde teoria e campo finalmente se encontram.



