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  • Madeiras, frutas e legumes formam os novos plásticos

    Madeiras, frutas e legumes formam os novos plásticos

    A matéria-prima do plástico, durante décadas feito apenas a partir do petróleo, está se diversificando de modo impressionante. Agora ele pode ser feito à base de farinha de madeira, bagaço de cana-de-açúcar, sementes de açaí ou de manga, amido de mandioca e resíduos de alimentos. E não apenas nas quantidades comedidas típicas dos laboratórios de pesquisa. No início de dezembro de 2025, o tecnólogo Durval Valente Lopes inclinou uma bandeja branca e despejou uma porção generosa de grãos parecidos com ração para pets sobre o funil de uma das máquinas instaladas em um amplo galpão da unidade do Serviço Nacional da Indústria (Senai) em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

    A máquina, uma injetora de plásticos com 5 metros de comprimento, incorporou sem nenhum ruído os pellets e os prensou entre as duas partes de um molde. Em segundos, o molde se abriu e deixou cair um disco com 20 colheres pequenas e amarronzadas. Lopes retirou o disco, que saiu como deveria, e o depositou sobre uma bancada próxima. “Estamos ainda aprendendo a trabalhar com esse material”, ele comenta, enquanto recarrega a máquina. “Por ter farinha de madeira, uma fibra vegetal, às vezes adere um pouco no molde e tenho de passar um óleo desmoldante.”

    Instrutor de um curso de plásticos do Senai durante 23 anos e há quatro na equipe de pesquisa, Lopes participou do projeto e confecção dos moldes anteriores, inicialmente capazes de fazer apenas uma ou duas colheres, e participou do aprimoramento desse material, reformulado até que se ajustasse a máquinas do mesmo porte das usadas para produção em escala industrial. “No início, a massa não preenchia as cavidades dos moldes ou a peça quebrava”, conta a química Irina Factori, responsável pelo grupo de pesquisa. “Desde agosto de 2024, fizemos dezenas de mudanças na fórmula e no molde.”

    “Antes, com o Senai de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, já havíamos testado umas 300 formulações para desenvolver bioplásticos flexíveis. Agregamos bagaço de cana-de-açúcar e outros materiais, até vermos que a farinha de madeira era a mais adequada”, comenta a administradora de empresas Luisa Vendruscolo, da Biopolix. À frente da empresa criada em 2016 em Ribeirão Preto, no interior paulista, ela trabalhou com a equipe do Senai de São Bernardo do Campo para fazer com que o material pudesse ser produzido e usado em quantidades maiores.

    Farinha de madeira. Foto:
    Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

    Quando chegou lá, o volume máximo de cada lote de produção era de 40 gramas (g) de um material marrom translúcido e pouco consistente. Os primeiros ajustes na formulação permitiram a confecção de lotes de 100 g. Agora, a máquina atrás de Lopes, uma extrusora, usando pressão e calor, pode misturar por vez até 10 quilos (kg) de polímeros obtidos por fermentação bacteriana com os ingredientes necessários para formar um bioplástico biodegradável, à base de resíduos vegetais. Pouco a pouco, esse tipo de material, por se decompor em até seis meses se descartado no lixo orgânico comum, substituirá o plástico tradicional.

    Empresas de base tecnológica

    Com esses saltos, a Biopolix ingressa no grupo de pequenas empresas de base tecnológica que ampliam a produção desse material de decomposição relativamente rápida. Os talheres, copos e embalagens feitos com plásticos de açaí ou de mandioca usados em sorveterias e deliveries do país inteiro reforçam a ideia de que os também chamados bioplásticos, se forem produzidos a custos menores e em quantidades maiores, poderiam ser ainda utilizados na confecção de sacolas em geral e peças plásticas. Desse modo, poderiam substituir boa parte dos plásticos tradicionais, cuja decomposição se prolonga de 10 anos (sacolas plásticas) a 600 anos (garrafas de plástico rígido).

    Arte: Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

    Os bioplásticos – que podem ser ou não biodegradáveis – respondem por 0,5% da produção global de plásticos, o equivalente a 2 milhões de toneladas (t) em 2023, mas estão se expandindo com rapidez, de acordo com a European Bioplastics, associação que reúne as indústrias do setor no continente. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de bioplásticos, atrás da China e dos Estados Unidos (ver infográfico acima). A produção nacional foi de cerca de 200 mil t em 2019, o equivalente a 9,5% do total mundial, de acordo com o levantamento mais recente da empresa indiana UKHI, publicado em novembro de 2025.

    “É um grande mercado a ser conquistado”, comenta a economista Gabriela Gugelmin, diretora de estratégia e sustentabilidade da Earth Renewable Technologies (ERT), uma das maiores empresas atuando nessa área no país. A companhia pretende, a partir deste ano, produzir 15 mil t em suas duas fábricas, uma em Curitiba, em funcionamento desde agosto de 2021, e outra em Manaus, inaugurada em maio de 2025. A ERT fabrica dois tipos de bioplásticos: compostos de ácido polilático (PLA), obtidos por fermentação bacteriana, mais usados em bandejas de alimentos e talheres; e compostos de polibutileno adipato tereftalato (PBAT), gerados a partir do petróleo, ainda que biodegradáveis, empregados na produção de material flexível para sacolas e filmes para embalar produtos eletrônicos. Segundo Gugelmin, essas matérias-primas recebem aditivos, como fibras de madeira ou carbonato de cálcio, como forma de reduzir o custo final ou melhorar o desempenho.

    Já a Basf distribui no Brasil compostos de PBAT importados da Europa. Outra grande empresa, a Braskem, produz polietileno e acetato-vinila de etileno (Eva) a partir do etanol de cana-de-açúcar, ambos recicláveis, mas não biodegradáveis, e pretende expandir a capacidade de produtos renováveis até 2030 para 1 milhão de t anualmente, de acordo com um comunicado enviado a Pesquisa FAPESP.

    Arte: Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

    Obstáculos

    Grandes e pequenas empresas têm de superar muitos obstáculos para sobreviver e crescer nesse setor. Por causa de dificuldades técnicas ou financeiras insuperáveis, muitas não conseguem ampliar a escala de produção. “Os grandes problemas começam depois de escalonar [ampliar] a produção”, observa o engenheiro de computação Stelvio Mazza, diretor da Já Fui Mandioca, instalada desde 2019 em Diadema, na Grande São Paulo. “É quando os gastos aumentam, os clientes começam a gerar demandas e feedback dos produtos e um volume muito maior de investimentos se torna indispensável para continuar crescendo.” Enquanto se formavam e davam forma às suas ideias, vários fabricantes de bioplásticos receberam recursos não reembolsáveis de órgãos públicos estaduais ou federais, que se tornam escassos à medida que as exigências de investimentos crescem.

    Nos últimos anos, Mazza, em vez de produzir mais, priorizou os ajustes no processo de fabricação, com o propósito principal de reduzir as perdas de material. Com uma equipe própria de engenheiros e técnicos, ele construiu uma máquina de termo-extrusão-formagem para moldar a massa feita com fécula (a parte branca) da mandioca misturada com vapor-d’água. A mandioca é também uma das matérias-primas usadas na produção de copos, canudos, sacos e sacolas pela Oeko, empresa criada em 2014 pelo engenheiro de materiais João Carlos de Godoy Moreira em Florianópolis, Santa Catarina.

    Na empresa paulista, a massa de mandioca, quando está pronta, ganha uma cor amarronzada e uma consistência semelhante à do isopor, antes de tomar a forma de potes e embalagens para sorvetes e saladas. “Quem tenta crescer sem uma tecnologia robusta corre um grande risco de morrer”, pondera Mazza. Só neste ano, após definir as melhores técnicas de produção, é que ele começou a bater à porta de investidores com o propósito de tornar viável a construção de máquinas maiores, de produzir mais e de vender mais.

    Durval Lopes produz peças de bioplástico no Senai de São Bernardo do Campo (à esq.); filme da Embrapa muda de cor de acordo com o estado de conservação do alimento. Foto:
    Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP | Matheus Falanga / Embrapa

    Em vista da dificuldade de fazer os investidores apostarem nas novas ideias, o tecnólogo em processos químicos Luan Campos, diretor-executivo da Polimex, do Rio de Janeiro, poderia comemorar: em 2024 e 2025, ele conseguiu R$ 1,6 milhão de investidores privados e deve receber mais neste ano. Seu plano é usar os recursos para construir uma nova fábrica e ampliar a produção de bioplástico a partir de sementes de açaí para 25 t mensais, ainda em 2026.

    Se tudo correr como previsto, será um salto e tanto. “Ampliar a produção e chegar a uma fábrica foi bastante difícil”, ele comenta. Campos e outros estudantes de graduação do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) que criaram a empresa em 2018 produziram inicialmente apenas alguns gramas de bioplásticos nos laboratórios dos institutos Senai de Inovação (ISI), instalados na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Testaram cerca de 60 formulações, com casca de babaçu ou de coco e resíduos da produção de cerveja, até chegarem ao material mais promissor, as fibras de açaí, encontradas em abundância nas ruas de Belém, no Pará. O lote mínimo de produção passou para 500 kg quando começaram as vendas, em 2022. Hoje, segundo Campos, a produção é de 1 a 5 t por mês, por meio de uma empresa terceirizada em Valinhos, no interior paulista. Os pellets amarronzados são distribuídos aos fabricantes de copos, cumbucas, canudos e colheres para sorvetes de uso único e descartáveis.

    Testes práticos

    A Biopolix, por sua vez, pretende em breve iniciar os testes de suas pazinhas em uma sorveteria de Ribeirão Preto e outra na cidade vizinha de Jaboticabal. “Tecnicamente, o material está perfeito. Resiste a uma grande variação de temperatura, de 16 graus Celsius [ºC] negativos do sorvete até 36 ºC no interior da boca, não altera o sabor, não quebra e degrada em 145 dias”, assegura a química industrial Claire Vendruscolo, com base em análises feitas pela equipe da cientista de alimentos Marcia Gularte na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul. As pesquisas na empresa paulista, da qual é sócia, apoiaram-se em seu trabalho com polímeros biodegradáveis na UFPel, até 2015, quando se aposentou. Sua filha Luisa pretende intensificar os contatos com fabricantes de peças plásticas e com investidores, aos quais pode agora apresentar evidências de que sua formulação funciona em máquinas grandes.

    Nas mãos do consumidor: potes da Já Fui Mandioca (à dir.) e sacos da Earth Renewable Technologies. Foto:
    ERT | Já Fui Mandioca

    Diversidade

    “Talheres, copos e pratos descartáveis deveriam ser de polímeros biodegradáveis, principalmente em lugares de uso intenso como restaurantes e hospitais, para que pudessem ser produzidos com menos gasto de energia, sem risco de poluírem o ambiente”, enfatiza a química Maria Inês Bruno Tavares, do Instituto de Macromoléculas (IMA) da UFRJ. Há 30 anos nessa área, ela concluiu o desenvolvimento, em escala laboratorial, de até 1 kg, de 10 formulações de bioplásticos, conferindo-lhes propriedades especiais com o acréscimo de aditivos de origem vegetal, como alho, pimenta, chia e linhaça, com ação antimicrobiana e antioxidante, para dar maior segurança alimentar ao consumidor e acelerar a decomposição do bioplástico.

    Geóloga especializada em polímeros, Edla Maria Bezerra Lima, atualmente na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Agricultura Digital, em Campinas, interior paulista, ajudou a desenvolver no IMA-UFRJ um material que combina PLA com minúsculos fragmentos de caroço de manga. Suas propriedades o habilitam para uso em embalagens, como detalhado em um artigo publicado em junho de 2024 na Journal of Applied Polymer Science. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um grupo de pesquisadores desenvolveu um bioplástico com amido e pectina, um tipo de açúcar, que, nos testes iniciais, se mostrou capaz de se degradar em 45 dias.

    “Não há uma solução única”, diz Tavares. “E nem tudo tem de ser polímero biodegradável. Um material desse tipo usado como substituto dos plásticos de engenharia em carros, mas exposto ao sol, vai se degradar rapidamente.”

    Mazza concorda. “Do mesmo modo que existem inúmeros tipos de plásticos derivados do petróleo, com diferentes propriedades, haverá muitos bioplásticos, feitos com diferentes materiais e de diferentes modos, para aplicações específicas.” É o caso dos filmes feitos com cascas de banana, para embalar e conservar alimentos, ou com pigmentos naturais extraídos do repolho roxo, que mudam de cor com a deterioração dos alimentos; os dois foram desenvolvidos na Embrapa Instrumentação, de São Carlos, interior paulista, com apoio da FAPESP.

    Copos e talheres da Polimex, do Rio de Janeiro, e potes da Bioplazon, de Manaus, todos feitos com fibras das sementes de açaí. Foto: Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

    Custo benefício

    Os novos materiais têm de se adequar também aos preços que os fabricantes de peças plásticas se dispõem a pagar. Em sua empresa, a Bioplazon, criada em 2022 e instalada na incubadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, Amazonas, o químico Igor Pinto fez inicialmente espumas rígidas e filmes flexíveis com miolo, entrecasca e casca de mandioca e fibras das sementes de açaí – já usados em copos e embalagens descartáveis para alimentos –, também como alternativa ao isopor. “Em um teste feito em outubro de 2024 em Fernando de Noronha, o copo de espuma de amido se decompôs em 12 dias, poupando os moradores e comerciantes do trabalho de mandarem de volta para o continente os resíduos plásticos”, ele relata.

    O problema é o custo. “O plástico de petróleo custa em média R$ 13 o kg, enquanto o bioplástico varia de R$ 35 a R$ 50 o kg”, compara. Para atrair mais facilmente os potenciais compradores, Pinto fez uma mistura com 56% de polipropileno, 40% de bioplástico e 4% de aditivos. Validado em escala industrial em 2024 no Senai de São Bernardo do Campo, esse material poderia ser produzido por R$ 18 o kg, amenizando a diferença de preço entre os dois tipos de plástico. Ele também está na luta por sócios-investidores que lhe permitam ir além das 2 t mensais.

    Acessível

    “Aos poucos o bioplástico vai ficando mais acessível. Já é mais barato que as caixas de papelão”, diz Gugelmin. Para ela, o que dificulta bastante o crescimento do mercado de bioplásticos é a falta de uma legislação efetiva, que promova mudanças. Em 2015, o governo paulista proibiu o uso de sacolas plásticas comuns, motivando os supermercados a substituírem-nas por sacolas compostáveis ou recicláveis ou por sacolas retornáveis, as ecobags, mas depois voltou atrás. “Por enquanto, nada obriga as empresas e os consumidores a trocarem a embalagem de isopor por outras, mais sustentáveis. Ou, se há lei, não há fiscalização”, comenta a economista.

    No Chile, ela acrescenta, o governo promoveu o uso de bioplásticos ao determinar, por lei, que as embalagens de e-commerce teriam de ser compostáveis, o que forçou a substituição dos plásticos comuns. E, a partir de agosto, hotéis e restaurantes da União Europeia terão de remover os plásticos descartáveis de uso único para alimentos ou produtos de limpeza, substituindo-os por materiais biodegradáveis, como forma de reduzir a produção de resíduos.

    A reportagem acima foi publicada com o título “Novos plásticos brotam das plantas” na edição impressa nº 361, de março de 2026. E no site da revista. 

    O autor é .

  • Cientistas da UFRN transformam vinhaça em matéria-prima para bioplásticos

    Cientistas da UFRN transformam vinhaça em matéria-prima para bioplásticos

    Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) criaram um processo inovador que transforma a vinhaça, um resíduo problemático da produção de etanol, em compostos químicos de alto valor comercial. A tecnologia permite a produção de insumos para bioplásticos biodegradáveis, biocombustíveis e produtos farmacêuticos e cosméticos.

    O processo gera o ácido 2,5-furandicarboxílico (FDCA), que a indústria utiliza como precursor de bioplásticos biodegradáveis, como o polietileno furanoato (PEF). Este material representa uma alternativa sustentável ao polietileno tereftalato (PET), plástico comum em embalagens. A tecnologia também produz o 5-hidroximetilfurfural (HMF), insumo essencial para a fabricação de biocombustíveis e bioquímicos.

    “São exemplos de compostos químicos de alto valor agregado, os quais conseguimos obter com o uso de tecnologias eletroquímicas que dispensam reagentes perigosos”, explica Elisama Vieira dos Santos, professora da Escola de Ciência e Tecnologia (ECT) e orientadora da pesquisa.

    Cada litro de álcool gera até 13 litros de vinhaça

    A vinhaça consiste em um resíduo líquido da produção de etanol, rico em matéria orgânica. A indústria sucroalcooleira gera esse subproduto em grande volume. A cada litro de álcool produzido, as usinas descartam de 12 a 13 litros de vinhaça. Atualmente, esse resíduo representa um sério desafio ambiental para o setor.

    Elisama destaca que o processo patenteado resolve parte desse problema ao valorizar o resíduo e transformá-lo em insumos úteis e sustentáveis. “Além disso, utiliza energia renovável, como a energia fotovoltaica, e oxidantes produzidos de forma verde, sem gerar subprodutos tóxicos, reforçando os princípios da química verde e da economia circular”, afirma.

    Invenção recebe patente e integra Vitrine Tecnológica

    A UFRN depositou o pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em agosto. A invenção recebeu o nome “Processo verde para extração de compostos furânicos e fenólicos a partir de vinhaça com S₂O₈²⁻ ou H₂O₂ eletrossintetizados”.

    O desenvolvimento contou com a participação de Thalita Medeiros Barros, Jussara Câmara Cardozo e Carlos Alberto Martínez Huitle. A colaboração reuniu o Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ/UFRN) e o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química (PPEQ/UFRN), com apoio de projetos aprovados pelo CNPq.

    Thalita Medeiros Barros, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da UFRN, atualmente realiza estágio doutoral no Max Planck Institute for Chemical Energy Conversion, na Alemanha. A pesquisadora executou os experimentos, realizou análises cromatográficas e definiu as condições ideais para a conversão seletiva dos compostos derivados da vinhaça.

    Jussara Câmara Cardozo, que atualmente realiza pós-doutorado na Universidad de Castilla-La Mancha, na Espanha, concebeu e otimizou os parâmetros eletroquímicos e térmicos do processo. A pesquisadora também interpretou os resultados e aprimorou as etapas de extração.

    Carlos Alberto Martínez Huitle e Elisama Vieira dos Santos desenvolveram o sistema de eletrossíntese dos oxidantes verdes, persulfato e peróxido de hidrogênio, fundamentais para promover reações de oxidação seletivas e ambientalmente sustentáveis.

    Aplicações comerciais em diversos setores

    A tecnologia desenvolvida possui potencial de impacto em diversos setores industriais. A indústria de embalagens plásticas pode utilizar o FDCA como principal precursor do PEF, biopolímero que substitui o PET em garrafas de refrigerante, embalagens de alimentos e filmes plásticos.

    O HMF, outro produto de destaque no processo, funciona como composto-plataforma na produção de biocombustíveis líquidos, solventes ecológicos e precursores de polímeros. Já o ácido vanílico, que o processo também produz, possui ação antioxidante e antimicrobiana. As indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica empregam amplamente esse composto em cremes, perfumes, sabonetes, loções e protetores solares.

    Grupo trabalha na transição para escala piloto

    Carlos Alberto Martínez Huitle, docente do Instituto de Química, destaca que o grupo comprovou experimentalmente o processo em escala laboratorial no Laboratório de Eletroquímica Ambiental e Aplicada (LEAA) da UFRN. A unidade possui ampla experiência no desenvolvimento e validação de tecnologias eletroquímicas.

    O professor assinala que a tecnologia atualmente se encontra em fase de prova de conceito, com TRL entre os níveis 3 e 4. Nesse estágio, os pesquisadores comprovaram os fenômenos fundamentais em laboratório e o sistema opera de forma estável em condições controladas.

    “No momento, o grupo trabalha na transição para a escala piloto, desenvolvendo protótipos modulares capazes de operar com maiores volumes de vinhaça e diferentes configurações de eletrodos”, explica Carlos Alberto. A equipe realiza testes comparativos de durabilidade e eficiência de diferentes eletrodos e membranas, simulando condições reais de operação.

    “Esses experimentos visam aprimorar o desempenho do sistema e reduzir os custos de manutenção, garantindo viabilidade técnica, econômica e ambiental em futuras aplicações comerciais. Cabe destacar que o processo é modular, podendo ser aplicado de maneira descentralizada em sistemas de eletrorefinaria de biomassa”, descreve.

    Pesquisadores aprimoram geração de oxidantes verdes

    O grupo concentra esforços no aprimoramento da geração eletroquímica dos oxidantes verdes. Os pesquisadores utilizam diferentes configurações e materiais com o objetivo de aumentar a eficiência energética, a seletividade das reações e o rendimento dos produtos de interesse.

    “Outro foco de atuação do Laboratório é a integração da eletrossíntese verde com processos de geração de hidrogênio, aproveitando a eletrólise simultânea como estratégia para aumentar a eficiência energética global”, explica Elisama. O grupo explora a sinergia entre a produção de oxidantes e de hidrogênio dentro de um mesmo sistema, alinhando-se às tendências atuais da química sustentável e da economia circular.

    Essas pesquisas fazem parte de uma linha contínua de investigação do LEAA voltada à valorização de resíduos agroindustriais e à produção de insumos químicos sustentáveis.

    Patente representa marco acadêmico para a UFRN

    Para o grupo do LEAA, o depósito dessa patente representa um marco acadêmico e científico para a UFRN. A conquista reflete a capacidade da instituição de transformar pesquisa de laboratório em inovação tecnológica concreta.

    Elisama dos Santos, professora da ECT/UFRN, e Karen Magalhães, mestranda do programa de Pós-graduação em Engenharia Química. Elas integram o grupo que está focado no aprimoramento da geração eletroquímica dos oxidantes verdes. Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN

    Do ponto de vista científico, o invento representa um avanço importante ao propor uma rota sustentável para a valorização da vinhaça por meio da eletrossíntese verde de oxidantes. A abordagem combina química verde, engenharia eletroquímica e economia circular.

    O pedido integra a Vitrine Tecnológica da UFRN, grupo de ativos industriais protegidos pela Universidade, que conta atualmente com mais de 800 itens.

    Agência de Inovação oferece suporte aos pesquisadores

    Cientistas interessados em patentear uma descoberta devem fazer a notificação de invenção por meio do Sigaa, na aba Pesquisa. Na UFRN, a Agência de Inovação da Reitoria (Agir) oferece suporte aos inventores durante o processo de pedido de patenteamento.

    “Aqui na Agência damos suporte nesse processo, bem como intermediamos a participação de pesquisadores em mentorias do INPI”, afirma Jefferson Ferreira de Oliveira, diretor da Agir/UFRN. O apoio que a agência oferece a alunos, docentes e pesquisadores abrange orientações sobre o que pode ou não ser patenteado, de acordo com a Lei nº 9.279/96.

    A unidade também apoia a transferência da tecnologia desenvolvida para empresas interessadas na sua comercialização. Mesmo as tecnologias que não podem ser patenteadas podem ser transferidas por meio do licenciamento de know-how. Um conceito que abrange um conjunto de experiências, conhecimentos e habilidades voltadas à produção de um produto ou artefato.

    Jefferson acrescenta que a unidade conta com a parceria dos inventores para a proteção dos ativos de propriedade industrial. Os cientistas aproveitam suas listas de contatos e o conhecimento acumulado nas áreas tecnológicas em que atuam, o que os coloca em situação privilegiada na identificação de potenciais licenciados.

    “A Agir irá trabalhar para expandir a rede de relacionamentos nas áreas de interesse da UFRN, por meio do cultivo de uma boa relação com os parceiros e licenciados existentes, networking pessoal, pesquisas de mercado, eventos do setor, entre outras ações”, afirma Jefferson de Oliveira.

  • Pesquisadores do Amapá transformam milho e laranja em bioplástico

    Pesquisadores do Amapá transformam milho e laranja em bioplástico

    Um projeto pioneiro da Universidade do Estado do Amapá (UEap) está gerando uma solução sustentável para um dos maiores vilões ambientais da atualidade: a poluição por plásticos. Cientistas e estudantes de Engenharia Ambiental desenvolveram com sucesso bioplásticos a partir do amido de milho e do albedo (a parte branca) da laranja, com um resultado impressionante: o material se decompõe completamente entre 15 e 28 dias, em contraste com os 450 anos que um plástico convencional pode levar para desaparecer no meio ambiente.

    O professor Dr. William Xavier lidera o projeto. Foto: Secom AP

    Liderado pelo professor Dr. William Xavier, com a participação da aluna Rita Santana e do monitor André Fernandes, o projeto de iniciação científica partiu de estudos anteriores para criar e testar os bioplásticos em composteiras. O objetivo era buscar alternativas viáveis e de baixo impacto aos plásticos derivados do petróleo.

    Degradação rápida surpreende equipe

    Os resultados superaram as expectativas. Os micro-organismos presentes no solo e na matéria orgânica assimilaram rapidamente os filmes plásticos biodegradáveis quando expostos às condições de uma composteira.

    “Foi uma grata surpresa. Vimos que os micro-organismos são capazes de decompor esse polímero de forma rápida”, relatou o professor William Xavier.

    O bioplástico derivado do albedo da laranja foi o campeão em velocidade, desaparecendo completamente em apenas 15 dias. Já o feito com amido de milho levou 28 dias para se decompor totalmente. Os primeiros sinais de degradação foram observados em menos de 20 dias.

    Vantagens ambientais e econômicas

    Além da biodegradabilidade acelerada, o projeto se destaca por utilizar matérias-primas abundantes e renováveis. O amido de milho e o albedo da laranja, muitas vezes descartado pela indústria de sucos, ganham nova função, promovendo a economia circular e reduzindo a dependência de recursos fósseis. O processo de produção também é considerado mais sustentável que o do plástico comum.

    Rita Santana e André Fernandes, alunos e integrantes do projeto. Foto: Secom AP

    A iniciativa representa um avanço promissor na busca por materiais que não perpetuem a crise global da poluição plástica, alinhando pesquisa científica universitária à urgência de soluções ambientais práticas para o futuro.