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  • Como cientistas transformaram casca de banana em energia mais barata e limpa

    Como cientistas transformaram casca de banana em energia mais barata e limpa

    Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) descobriram que baixas concentrações de soda cáustica (hidróxido de sódio, NaOH) preparam resíduos orgânicos para a produção de biogás com mais eficiência do que doses elevadas. A descoberta eleva a geração de metano, reduz o consumo de reagentes químicos e diminui os custos da operação industrial.

    A equipe utilizou como matéria-prima bananas descartadas em varejões, cascas e frutos impróprios para comercialização. Apesar do alto teor de matéria orgânica, esses resíduos escondem seu potencial energético dentro de uma espécie de armadura vegetal, formada por substâncias como celulose e lignina. Essa barreira dificulta o acesso dos microrganismos aos açúcares fermentáveis e limita a digestão anaeróbia, processo pelo qual comunidades de microrganismos decompõem a matéria orgânica na ausência de oxigênio.

    Durante o processo, os microrganismos quebram moléculas complexas em compostos cada vez mais simples até formar o metano (CH₄), principal componente energético do biogás.

    Como funciona o pré-tratamento termoalcalino

    “Para aumentar a eficiência da produção de biogás, é necessário aplicar um pré-tratamento. Nós optamos pelo termoalcalino (que combina calor e produtos químicos). A biomassa foi aquecida na presença de diferentes concentrações de hidróxido de sódio, variando entre 0,2% e 3%. O objetivo era romper parcialmente a barreira formada pela lignina, tornando os carboidratos mais acessíveis aos microrganismos”, explica Sandra Imaculada Maintinguer, integrante do Instituto de Pesquisa em Bioenergia da Universidade Estadual Paulista (IPBEN-Unesp) e coordenadora da pesquisa.

    Pesquisadora Larissa Ayumi Yamamoto realiza experimento com o resíduo de banana. Foto: Larissa Ayumi Yamamoto/IPBEN-Unesp

    Os testes contrariaram a expectativa intuitiva de que doses maiores de reagente trariam melhor desempenho. Pelo contrário: a eficiência máxima apareceu justamente nas menores concentrações testadas. A dose de apenas 0,2% de NaOH promoveu a maior solubilização de carboidratos, alcançando 12.110 miligramas por litro (mg/L). Ou seja, mais que o dobro dos 4.785 mg/L registrados no material sem pré-tratamento. Uma concentração ligeiramente maior, de 0,4%, gerou a maior produção acumulada de metano, mas a dose de 0,2% produziu o gás com mais velocidade.

    “Isso é importante porque, além de aumentar os custos da produção, o uso elevado de hidróxido de sódio inibe a ação dos microrganismos responsáveis pela geração do metano e pode causar maior impacto sobre o meio ambiente”, destaca Larissa Ayumi Yamamoto, graduanda no IPBEN-Unesp e primeira autora do artigo, publicado em maio na revista científica Bioenergy Research.

    Excesso de reagente prejudica microrganismos e encarece o processo

    Em pequenas quantidades, a soda cáustica rompe parcialmente a estrutura vegetal e libera açúcares que alimentam os microrganismos. Em excesso, porém, o reagente passa a atacar os próprios microrganismos, o que atrapalha ou até inviabiliza o processo. “Não adianta colocar 20%, porque se torna inibitório”, resume Maintinguer. A redução da quantidade de reagente também melhora a perspectiva de aplicação industrial, já que facilita o tratamento posterior de efluentes. “Para a indústria, quanto menor a concentração de hidróxido de sódio, melhor”, completa a pesquisadora.

    Maintinguer observa que São Paulo reúne condições particularmente favoráveis para esse tipo de tecnologia. Como grande produtor de frutas, o Estado gera quantidades enormes de resíduos ao longo de toda a cadeia produtiva. Desde frutos descartados ainda na propriedade até sobras do beneficiamento industrial e da comercialização. “A ideia é fechar esse ciclo. Em vez de encaminhar restos e frutas fora do padrão comercial para aterros, esses resíduos podem alimentar biodigestores capazes de produzir energia, transformando um passivo ambiental em uma fonte renovável”, pondera a pesquisadora.

    Bactérias e arqueias definem o desempenho do sistema

    Os resultados mostraram que o desempenho do biodigestor depende não apenas da quantidade de matéria orgânica disponível, mas também de quais bactérias atuam no processo e quais caminhos elas usam para digerir a matéria. No reator tratado com 0,4% de hidróxido de sódio, predominaram bactérias dos gêneros Paraclostridium e Clostridium, além de arqueias metanogênicas, organismos unicelulares produtores de metano, dos gêneros Methanothrix e Methanoregula.

    “Nós avaliamos o consórcio microbiano presente no reator, conseguimos acompanhar como esse sistema evolui e quais rotas metabólicas os microrganismos percorrem ao longo do processo”, explica Ana Gabriela Oliveira Ferreira Janas, doutoranda no IPBEN-Unesp. “Portanto, são informações que a pesquisa pode oferecer para a indústria.”

    Digestão anaeróbia funciona como turnos de trabalho microbiano

    Maintinguer compara a digestão anaeróbia a uma sucessão de etapas cumpridas por diferentes grupos de microrganismos. “Entramos com a matéria orgânica bruta e os microrganismos vão quebrando essa matéria em compostos cada vez mais simples. Esses intermediários acabam sendo consumidos por outros microrganismos até chegar à formação do metano”, detalha.

    O estudo integra um programa mais amplo do grupo da Unesp, que busca transformar resíduos agroindustriais em fontes de energia e outros produtos de valor agregado. Além da banana, os pesquisadores também estudam resíduos de laranja e goiaba, águas residuárias do processamento de frutas e diferentes estratégias de digestão e codigestão anaeróbias, técnica que mistura diferentes tipos de resíduos no mesmo reator para potencializar a geração de energia.

    Dependendo das condições operacionais e da comunidade microbiana presente, os pesquisadores podem direcionar esses sistemas não apenas à produção de biogás. Mas também à obtenção de outros compostos de interesse industrial. Em outro trabalho, ainda em processo de revisão para publicação, Janas e colaboradores investigaram a codigestão anaeróbia de resíduos para produzir bio-hidrogênio.

    José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

  • Geada na aveia-preta: Embrapa ensina como reduzir perdas

    Geada na aveia-preta: Embrapa ensina como reduzir perdas

    Os danos causados por geadas na aveia-preta são frequentes na Região Sul do Brasil. E comprometem a oferta de forragem para a pecuária de carne e leite. Um estudo conduzido pela Embrapa Trigo, em Passo Fundo, identificou uma estratégia simples e econômica para reduzir esses prejuízos. Ajustar a densidade de semeadura para 200 plantas por metro quadrado (pl/m²).

    A aveia-preta é a espécie forrageira de inverno mais cultivada no mundo. Ela é amplamente utilizada no Sul brasileiro como planta de cobertura do solo ou como pastagem. Apesar de adaptar-se bem ao frio, a cultura é altamente suscetível a geadas, que podem causar desde redução de biomassa até a morte das plantas.

    Menos plantas, mais resistência

    O experimento avaliou três genótipos de aveia-preta em diferentes densidades de semeadura: 200, 300 e 400 sementes aptas por metro quadrado. Os resultados mostraram que lavouras com menor densidade apresentaram maior resistência aos danos provocados pelas geadas, especialmente na fase reprodutiva da cultura.

    Segundo o pesquisador Osmar Rodrigues, da Embrapa Trigo, a densidade de 200 pl/m² ofereceu a melhor resposta em produção de biomassa após a ocorrência de geadas. “Além de reduzir os custos de sementes na implantação, comparativamente às altas densidades (300 e 400 pl/m²), essa população melhorou a resistência das plantas aos danos provocados por geadas. E com efeitos positivos na produção de biomassa”, afirma Rodrigues.

    Por que funciona?

    De acordo com o pesquisador, a maior disponibilidade de radiação solar em populações de 200 pl/m² favorece a eficiência fotossintética, o que pode aumentar a concentração osmótica dos tecidos e o conteúdo relativo de água nas plantas. Fatores que elevam a tolerância ao congelamento.

    “Copas abertas ou baixa população de plantas armazenam mais carboidratos solúveis em água nos tecidos, como consequência da maior penetração de luz nas áreas mais profundas. Por outro lado, a menor cobertura vegetal pode levar ao maior aquecimento do solo durante o dia. E à noite, com o resfriamento do solo e do ar com a dissipação de calor na atmosfera, pode reduzir o resfriamento e os danos causados”, detalha Rodrigues.

    Prática comum pode prejudicar

    A elevada densidade de plantas é uma prática comum entre produtores de forrageiras no Sul do Brasil. No entanto, populações muito altas podem ocasionar autossombreamento, reduzindo o perfilhamento e aumentando a sensibilidade das plantas ao congelamento devido à maior retenção de umidade no solo pela baixa penetração da luz solar.

    “A adequada densidade de semeadura pode ser uma estratégia para minimizar danos nas lavouras em condições climáticas adversas”. É o que reforça a pesquisadora Jane Machado, destacando a importância do estudo para a aveia-preta, espécie mais cultivada na região Sul.

    Impacto econômico e produtivo

    Além de mitigar os efeitos negativos da geada, a adoção da densidade de 200 pl/m² representa economia no custo de implantação da forrageira. Isso porque reduz a quantidade de sementes necessárias. Ao mesmo tempo, cria um ambiente favorável para maior resistência ao frio e mantém a produtividade de biomassa acumulada.

    Para os produtores do Sul, a recomendação é especialmente relevante em um cenário de geadas intensas, que já afetaram a oferta de pastagens em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

  • Eucalipto abre novo mercado bilionário e atrai investidores do agro

    Eucalipto abre novo mercado bilionário e atrai investidores do agro

    A crescente demanda por biomassa para geração de energia está criando um novo mercado bilionário em Mato Grosso.

    O avanço das usinas de etanol de milho e as novas exigências ambientais vêm impulsionando uma verdadeira corrida por áreas destinadas ao cultivo de eucalipto, atraindo o interesse de produtores rurais, agroindústrias, empresas do setor florestal e fundos de investimento.

    Nova regra ambiental acelera busca

    Em junho, o Ministério Público de Mato Grosso e o governo estadual assinaram um novo acordo ambiental que prevê a substituição gradual da biomassa proveniente de florestas nativas. Dessa forma, as grandes agroindústrias deverão utilizar matéria-prima oriunda de florestas plantadas.

    A mudança será implementada de forma gradual, mas já tem prazo definido. A partir de 2035, as empresas enquadradas no acordo não poderão utilizar madeira de vegetação nativa para gerar energia.

    Segundo especialistas, essa decisão aumentou a segurança para novos investimentos. Como resultado, diversos projetos começaram a sair do papel.

    Mato Grosso quer multiplicar área de florestas plantadas

    Atualmente, Mato Grosso possui cerca de 165 mil hectares de eucalipto. Os dados são do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

    Entretanto, a meta estadual é muito mais ambiciosa: o objetivo é alcançar 700 mil hectares até 2040.

    Se isso acontecer, a área plantada será mais de quatro vezes maior do que a atual. Para atingir esse patamar, o setor calcula investimentos próximos de R$ 8,5 bilhões.

    Etanol de milho impulsiona novos contratos

    O crescimento das usinas de etanol de milho está entre os principais fatores por trás dessa expansão.

    A Inpasa, considerada a maior produtora de etanol de milho do país, já fechou contratos voltados ao aumento da produção de eucalipto.

    Além disso, empresas de consultoria relatam maior procura por informações sobre projetos florestais.

    Segundo profissionais do setor, investidores que tradicionalmente atuavam em outras áreas do agronegócio passaram a avaliar oportunidades ligadas à produção de biomassa.

    Por causa disso, o mercado florestal ganhou visibilidade e começou a atrair novos participantes.

    Pastagens degradadas aparecem como oportunidade

    Especialistas afirmam que o avanço do eucalipto não deve ocorrer apenas em áreas agrícolas. Milhões de hectares de pastagens degradadas podem se transformar em novos polos de produção florestal.

    Segundo estimativas da Embrapa, o estado possui uma grande quantidade de áreas com elevado nível de degradação. Dessa forma, a expansão da atividade pode ocorrer sem pressionar novas áreas de vegetação.

    Falta de crédito ainda preocupa produtores

    Apesar das perspectivas positivas, ainda existem desafios importantes.

    O principal deles é o acesso ao financiamento, já que o retorno financeiro do eucalipto demora mais do que em atividades agrícolas tradicionais. Na maioria dos casos, a receita só aparece entre seis e sete anos após o plantio.

    Enquanto isso, os custos ficam concentrados nos primeiros anos. Gastos com implantação, irrigação e manejo exigem, sem dúvidas, um capital significativo.

    Mercado deve crescer nos próximos anos

    Mesmo diante dos desafios, as perspectivas continuam positivas.

    Além da expansão do etanol de milho, o setor também poderá ser beneficiado pelos mecanismos de reposição florestal previstos no Código Florestal.

    Diante desse cenário, o eucalipto deixou de ser uma atividade secundária. Atualmente, ele já aparece como uma das principais apostas do agronegócio brasileiro para os próximos anos.

  • UNICA e CETESB unem forças por energia limpa

    UNICA e CETESB unem forças por energia limpa

    A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) e a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) firmaram, nesta terça-feira (4), um acordo de cooperação técnica que inaugura uma nova etapa de modernização regulatória, qualificação profissional e eficiência ambiental no setor sucroenergético paulista.

    A assinatura ocorreu durante o Summit Agenda SP + Verde, promovido pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). Com isso, o acordo representa um avanço estratégico para fortalecer a segurança jurídica, incentivar a economia circular e acelerar a transição energética no estado.

    Regulação e inovação ambiental

    O documento estabelece uma agenda conjunta voltada à atualização técnica e à revisão de parâmetros ambientais, de modo a modernizar a gestão de resíduos da produção de etanol e açúcar. Além disso, a iniciativa busca ampliar o uso de biomassa como fonte renovável de energia, promovendo práticas de reaproveitamento industrial e fortalecendo a cadeia verde.

    Segundo Evandro Gussi, presidente da UNICA, a modernização regulatória reforça o papel do setor na economia de baixo carbono. “A produção sustentável de energia renovável pela cadeia sucroenergética tem ganhado novos contornos, com a ampliação dos energéticos extraídos da biomassa e a intensificação de práticas de economia circular, com o uso da vinhaça, da torta de filtro e, no futuro, o aproveitamento de resíduos de outros setores.”

    As diretrizes em construção tratam, por exemplo, do uso eficiente da vinhaça e das águas residuárias, bem como da definição de parâmetros técnicos para o emprego de Combustível Derivado de Resíduos (CDR) em caldeiras industriais. Desse modo, o acordo busca fortalecer o reaproveitamento de subprodutos, estimular o uso de biofertilizantes e apoiar iniciativas que convertam resíduos em energia limpa.

    Formação técnica e segurança regulatória

    Além da revisão regulatória, o acordo também avança na formação e capacitação profissional. Em parceria com a UNICA, a Escola Superior da CETESB lançará um curso de licenciamento ambiental voltado a engenheiros, gestores e técnicos do setor.

    A primeira turma deve reunir mais de 80 participantes. Assim, o projeto evidencia a forte demanda por atualização técnica e segurança regulatória. Para Luciano Rodrigues, diretor de Inteligência Setorial da UNICA, o interesse demonstra o engajamento do setor com a agenda sustentável. “A rápida adesão ao programa reflete a confiança do setor no diálogo técnico com a CETESB. A capacitação das equipes é fundamental para fortalecer o modelo de desenvolvimento de baixo carbono e impulsionar a transição energética.”

    Cooperação e acompanhamento técnico

    Para Thomaz Toledo, diretor-presidente da CETESB, a parceria simboliza uma nova etapa de diálogo entre o órgão ambiental e a indústria. “O setor sucroenergético é uma peça-chave na transição energética do estado de São Paulo. Essa parceria é um marco no diálogo entre a CETESB e a indústria. Com isso podemos estabelecer mecanismos mais modernos, seguros e alinhados com as práticas internacionais de economia circular.”

    O acordo terá vigência inicial de 12 meses, podendo ser prorrogado. Além disso, a execução será acompanhada por um Comitê Técnico de Cooperação, composto por especialistas das duas instituições, responsável por supervisionar as entregas, propor planos de trabalho e monitorar resultados.

    Dessa forma, a iniciativa consolida um modelo de governança ambiental mais eficiente e colaborativo, reforçando o protagonismo do estado de São Paulo na transição energética e no desenvolvimento de soluções sustentáveis para o futuro do agro.

  • Japoneses criam trator movido a esterco que não usa diesel

    Japoneses criam trator movido a esterco que não usa diesel

    O campo japonês acaba de ganhar um novo morador — e ele não precisa de motorista, diesel ou tomada. No lugar do ronco do motor, um sopro de vapor d’água. É o novo trator autônomo da Kubota Corporation, apresentado na Expo 2025 Osaka Kansai, que promete virar símbolo de uma agricultura inteligente, limpa e autossuficiente.

    O modelo, ainda em fase de protótipo, usa hidrogênio gerado a partir do esterco e resíduos da própria fazenda. O combustível é produzido ali mesmo, num ciclo que transforma o que antes era lixo em energia. O sistema alimenta células de combustível de polímero sólido, que geram eletricidade suficiente para equiparar sua potência à de um trator a diesel de 100 cavalos. A diferença? Em vez de fumaça e fuligem, o que sai do escapamento é só água pura.

    Um motor que respira o futuro

    Quando o motor liga, não há estrondo, nem cheiro de diesel. Só um leve zumbido — quase uma respiração. É como se a máquina, silenciosa, se confundisse com a paisagem. O trator pode ser controlado por controle remoto ou operar sozinho, sem ninguém no assento. Ele mapeia o terreno, ajusta a rota e segue o trabalho como um operário incansável, desses que não pedem folga nem reclamam do sol.

    “Nosso objetivo é criar uma agricultura que não dependa de combustível fóssil e que possa operar mesmo em áreas com pouca infraestrutura”, informou a Kubota em comunicado oficial.

    O Japão, que enfrenta o envelhecimento da população rural, vê na automação uma saída para manter suas plantações vivas. Segundo a empresa, o sistema autônomo é pensado justamente para regiões onde falta mão de obra ou acesso à eletricidade.

    Do esterco ao combustível limpo

    O coração da inovação está no hidrogênio produzido “on farm”, ou seja, dentro da própria propriedade. Com isso, o produtor pode transformar biomassa, restos de colheita e esterco animal em combustível. Desse modo, a lógica se torna simples e poderosa: o campo gera o que consome, assim, fecha o ciclo e elimina o transporte de diesel, o custo de energia e as emissões.

    Como resultado, surge uma espécie de fazenda que se autoalimenta, um organismo vivo em equilíbrio. Dessa forma, o trator deixa de ser apenas uma máquina e passa a integrar a ecologia produtiva — tão essencial quanto a chuva e o sol.

    O silêncio que fala

    No lugar do barulho metálico, o novo trator emite um som quase poético: o sussurro da tecnologia limpa. É o tipo de ruído que não espanta pássaros nem assusta o gado. Silencioso, autônomo e movido a hidrogênio, o modelo promete revolucionar não apenas o modo de produzir, mas também a paisagem sonora do campo.

    Foto: Divulgação – Kubota

    Em tempos de crise climática, o gesto da Kubota é mais do que um avanço tecnológico — é uma declaração de princípios. Reduzir emissões, valorizar resíduos e devolver autonomia ao produtor é uma tríade que ecoa o espírito da agricultura do futuro.

    O impacto no agro global

    Embora ainda seja um conceito, a aposta da Kubota serve de prenúncio. Se o hidrogênio rural se popularizar, o trator poderá se tornar o novo símbolo da transição verde no agronegócio. Países como o Brasil, ricos em biomassa e resíduos orgânicos, podem se beneficiar diretamente dessa lógica de autossuficiência.

    Imagine: fazendas brasileiras convertendo bagaço, esterco e restos de colheita em combustível para suas próprias máquinas — um campo que planta, colhe e abastece a si mesmo.

    Um novo amanhecer no campo

    A cena é fácil de imaginar: um trator laranja cortando o campo ao amanhecer, sem fumaça, sem motorista, apenas o som da terra sendo revolvida. O sol nasce, o vapor se ergue e, por um instante, o futuro parece já ter chegado.

    O trator da Kubota ainda é um protótipo, mas carrega uma ideia poderosa — que o progresso pode ser silencioso, limpo e feito de esterco. Ironia ou genialidade? Talvez os dois. Afinal, transformar o que sobra em energia é, no fundo, o que a natureza sempre fez.

  • Projeto converte caroço de açaí em energia renovável

    Projeto converte caroço de açaí em energia renovável

    A Solar Coca-Cola, uma das 15 maiores fabricantes do Sistema Coca-Cola no mundo, está promovendo uma revolução sustentável no Pará ao transformar caroços de açaí, antes descartados como resíduos urbanos, em fonte de energia renovável para suas operações industriais em Belém. Desde o início do projeto, em 2020, a companhia já converteu mais de 10 mil toneladas de caroço de açaí em biomassa, reduzindo significativamente o uso de combustíveis fósseis e madeira nas caldeiras de suas fábricas.

    A iniciativa da Solar Coca-Cola representa um avanço importante para a economia circular na Amazônia. Apenas em 2024, foram recuperados 2,04 milhões de quilos de caroço de açaí, que deixaram de ser descartados em aterros da Região Metropolitana de Belém. O reaproveitamento do caroço como biomassa contribui para a diminuição da poluição, evita o acúmulo de resíduos e oferece uma alternativa sustentável e econômica para a geração de energia industrial.

    Valorização social e econômica

    Além dos benefícios ambientais, o projeto tem forte impacto social. Desde 2021, a Solar Coca-Cola compra o caroço de açaí de fornecedores locais do Pará, gerando renda para centenas de produtores e fortalecendo a economia das comunidades extrativistas. Segundo Luciano de Oliveira Gomes, diretor regional da Solar Coca-Cola, “o projeto impulsiona a economia local, gera empregos e fomenta a renda em diversas comunidades da região”.

    O compromisso da Solar Coca-Cola com práticas ambientais inovadoras foi reconhecido nacionalmente. Em 2023, a empresa recebeu um prêmio de destaque por sua atuação sustentável e pelo fortalecimento da bioeconomia no Pará, setor estratégico para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, conforme destacado por entidades como o Ministério do Meio Ambiente e o Fórum Brasileiro de Bioeconomia.

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  • Biomassa de cortiça  usado na produção de compostos fenólicos

    Biomassa de cortiça usado na produção de compostos fenólicos

    Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolveram um método pioneiro e sustentável para a produção de compostos fenólicos utilizando biomassa de cortiça. A inovação, detalhada em uma patente recentemente depositada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), promove o aproveitamento de resíduos agroindustriais e fortalece a economia circular.

    O método utiliza eletrossíntese de persulfato como agente oxidante para transformar biomassa de cortiça em compostos de alto valor agregado. Como por exemplo ácido vanílico, vanilina e ácido siríngico. Segundo a professora Elisama Vieira dos Santos, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química (PPGQ/UFRN), o processo combina avanços em eletroquímica e química verde, substituindo métodos convencionais mais poluentes e custosos.

    Essa tecnologia destaca-se por sua flexibilidade e escalabilidade, podendo ser adaptada para diferentes volumes de produção e demandas industriais. Além disso, o método permite o uso de outras fontes de biomassa local e regional, ampliando as possibilidades de aplicação.

    Benefícios ambientais e industriais

    A tecnologia desenvolvida pelo Laboratório de Eletroquímica Ambiental e Aplicada (LEAA) e pelo Laboratório de Análises Ambientais, Processamento Primário e Biocombustíveis (LABPROBIO) utiliza sistemas eletroquímicos avançados para gerar oxidantes como persulfato, peróxido de hidrogênio e percabonato. Isso garante um processo de alta precisão, maior rendimento e pureza dos compostos extraídos, enquanto reduz a dependência de produtos químicos agressivos e minimiza resíduos tóxicos.

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    Os compostos produzidos têm aplicações amplas nas indústrias alimentícia, cosmética, farmacêutica e química, oferecendo uma alternativa ambientalmente amigável e alinhada às exigências da química verde.

    Avanços tecnológicos e maturidade da inovação

    O método patenteado já alcançou um elevado nível de maturidade tecnológica (TRL 7). Isso indica validação em escala laboratorial e proximidade com a aplicação comercial. A equipe do LEAA, liderada pelos professores Elisama Vieira dos Santos e Carlos Alberto Martínez Huitle, possui vasta experiência em estudos de reatores eletroquímicos com aplicação industrial.

    Descrição da foto, (Da esquerda para a direita) Professora Elisama Vieira, Doutoranda Thalita Medeiros Barros, Doutora Jussara Câmara Cardozo e Professor Carlos Alberto Martínez Huitle. Divulgação UFRN.

    A professora Elisama destaca que o interesse da indústria em processos sustentáveis, alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), tem impulsionado conversas com possíveis investidores. “Estamos em busca de parcerias para implementar a tecnologia em escala comercial e já tivemos diálogos com empresas interessadas”, revela.

    Impacto acadêmico e colaborações internacionais

    O desenvolvimento da tecnologia faz parte da pesquisa de doutorado de Thalita Medeiros Barros, aluna do PPGQ/UFRN, sob orientação de Elisama Vieira dos Santos. A pesquisa combina áreas como eletroquímica, química orgânica, engenharia de processos e ciência de materiais, evidenciando a importância de abordagens multidisciplinares para desafios científicos.

    O projeto também conta com uma dimensão internacional. Thalita realizará um estágio de 12 meses no Instituto Max Planck for Chemical Energy Conversion, na Alemanha. Lá ela aprofundará o uso da eletrossíntese orgânica para converter biomassa em compostos de alto valor agregado. A parceria reforça a relevância global da pesquisa e a colaboração científica entre instituições.

    A inovação da UFRN é um marco no aproveitamento de resíduos agroindustriais para gerar produtos químicos de forma sustentável,. Isso promove a economia circular e reduz impactos ambientais. Com uma aplicação robusta em diferentes indústrias e alinhamento com as metas globais de sustentabilidade, a tecnologia tem potencial para transformar a produção de compostos fenólicos. E também atrair investimentos estratégicos para sua expansão comercial.

  • Brasil ultrapassará R$ 1 trilhão em biocombustíveis na próxima década

    Brasil ultrapassará R$ 1 trilhão em biocombustíveis na próxima década

    A Lei do Combustível do Futuro, sancionada recentemente, deve impulsionar investimentos de mais de R$ 1 trilhão no setor de biocombustíveis no Brasil até 2034. A estimativa está na Nota Técnica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que detalha os valores previstos em investimentos (CAPEX) e custos operacionais (OPEX) entre 2025 e 2034. Além disso, o documento, divulgado pela EPE, vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), aponta R$ 100 bilhões em investimentos e R$ 924 bilhões em custos operacionais.

    O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacou o impacto transformador da nova lei para o setor energético. “Estamos iniciando uma era de inovação e sustentabilidade no Brasil. Os biocombustíveis impulsionarão a economia e posicionarão o país como líder na transição energética global”, afirmou.

    A Nota Técnica explora frentes como etanol, biodiesel, biometano e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF). Ao mesmo tempo, também aborda inovações como diesel verde e captura de carbono biogênico (bio-CCS). Em resumo, o etanol lidera os investimentos, concentrando 59% dos valores previstos. Portanto, a expansão abrange novas usinas e a modernização de plantas existentes.

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    O biodiesel, estimulado por mandatos de mistura obrigatória, deve atrair R$ 14,5 bilhões em investimentos. O segmento terá também R$ 77,5 bilhões em custos operacionais. Já os combustíveis sustentáveis de aviação têm projetos que somam R$ 17,5 bilhões em investimentos, fortalecendo o Brasil como protagonista na descarbonização do transporte aéreo.

     

    A nova lei reforça o compromisso brasileiro com as metas globais de descarbonização. Somente o etanol de cana-de-açúcar terá mais de R$ 59 bilhões destinados à expansão de canaviais e à ampliação da capacidade industrial. Esses avanços consolidam o papel do Brasil como referência mundial em biocombustíveis e sustentabilidade.

  • Sorgo-biomassa: opção para geração de energia no Brasil

    Sorgo-biomassa: opção para geração de energia no Brasil

    Os primeiros testes industriais com briquetes de sorgo-biomassa realizados em outubro deste ano apresentaram resultados promissores, reforçando o potencial dessa planta como uma solução energética sustentável no país. A iniciativa, liderada pela Embrapa em parceria com empresas como a Calmais, busca consolidar a gramínea como uma alternativa viável à madeira em processos industriais, especialmente para geração de energia.

    Pesquisas apontam que o sorgo-biomassa pode substituir até 66% da madeira em processos industriais sem perda do poder calorífico, mantendo teores de cinzas abaixo de 3%. O processo de densificação em briquetes ou pellets, orientado pela Embrapa, facilita o transporte, o armazenamento e a automação industrial, superando desafios como alta umidade e baixa densidade da biomassa.

    “Reduzimos o volume, aumentamos a densidade e otimizamos toda a logística para o uso do sorgo na indústria. É um grande avanço rumo a uma matriz energética mais limpa”, explica Marina Morales, pesquisadora da Embrapa Florestas.

    O híbrido BRS 716, já comercializado no Brasil, apresenta alto desempenho agronômico, adaptabilidade a diferentes regiões e excelente produção de biomassa por hectare, sendo possível realizar todo o cultivo de forma mecanizada.

    Testes industriais e resultados iniciais

    A Calmais, uma das parceiras da Embrapa, demonstrou que briquetes produzidos com sorgo-biomassa apresentam boa densificação e resistência. “Os briquetes formaram-se sem fragmentação, confirmando o potencial da matéria-prima. Estamos otimistas com os próximos passos”, afirmou Antônio Holanda Neto, proprietário da empresa.

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    O sorgo-biomassa também se mostrou vantajoso em condições adversas, como solo raso e baixa disponibilidade hídrica, destacando-se em regiões como o Nordeste brasileiro.

    Essa espécie representa ao País a chance de liderar a transição para uma matriz energética mais limpa, mas depende de investimento contínuo em pesquisa e novas parcerias. Reprodução – Calmais

    A possibilidade de combiná-lo com outras biomassas residuais, como cascas de coco e babaçu, amplia ainda mais suas aplicações industriais.

    Transição energética e sustentabilidade

    O Brasil é um dos maiores consumidores de biomassa para geração de energia, enfrentando pressões para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis. A alta produtividade do sorgo-biomassa, aliada a sua rápida maturação (ciclo inferior a 180 dias), oferece uma solução eficiente e renovável.

    “Com o sorgo-biomassa, podemos promover segurança energética e sustentabilidade. Especialmente em um cenário de crescente demanda por fontes renováveis”, enfatiza Flavio Tardin, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo.

    Apesar do avanço, a consolidação do sorgo-biomassa como alternativa energética depende de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e parcerias industriais. A Embrapa busca ampliar estudos e firmar novos acordos para validar seu uso em diferentes indústrias e regiões.

    O que é o sorgo-biomassa?

    O sorgo-biomassa é uma gramínea de rápido crescimento e alta produção de biomassa, utilizada principalmente para geração de energia. Entre os tipos de sorgo, ele se destaca pelo poder calorífico semelhante ao da cana-de-açúcar e do capim-elefante, sendo uma opção eficiente e sustentável.

    Com sua versatilidade e vantagens ambientais, o sorgo-biomassa surge como uma solução promissora para transformar a matriz energética brasileira e impulsionar a transição para um futuro mais sustentável.