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  • Não é IA: conheça as aves que encantaram o Brasil

    Não é IA: conheça as aves que encantaram o Brasil

    “Isso não é IA. São as aves do Brasil através das minhas lentes.” Com essa frase direta, o fotógrafo Vinicius Kohn (@viniciuskohnpassaros) resumiu o que milhares de pessoas estavam se perguntando ao ver suas imagens circulando pelas redes. As fotos viralizaram, e não é difícil entender por quê: cada registro parece produzido digitalmente, mas traz a autenticidade insubstituível do mundo real.

    O conjunto reúne 18 espécies capturadas em diferentes regiões do Brasil. Muitas delas vivem em biomas pouco explorados pelo olhar humano comum e passam a vida inteira longe das cidades. Abaixo, cada uma delas com um pouco da sua história.

    As aves dos beija-flores e afins

    O bico-reto-de-banda-branca abre a série com destaque. Trata-se de um beija-flor endêmico do Brasil, encontrado nas regiões Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e no norte do Paraná. Alimenta-se principalmente do néctar das flores e frequenta bebedouros açucarados. O nome descreve uma das marcas do macho: uma faixa branca que cruza as costas como uma divisa.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    Já o beija-flor-de-bochecha-azul carrega um dos visuais mais marcantes entre os colibris brasileiros. A espécie apresenta plumagem azul-violeta na garganta, no peito e na região lateral do pescoço, além de barriga verde-azulada. Ocorre do Amazonas à Bahia e a Minas Gerais, habitando matas, capoeiras, regiões montanhosas e até áreas urbanas.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    O rabo-branco-acanelado pertence ao grupo dos beija-flores de bico mais longo. São aves de interior de mata, discretas e difíceis de registrar com clareza, o que torna o flagrante do fotógrafo ainda mais valioso.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    As aves do cerrado e do campo aberto

    A seriema é uma das figuras mais icônicas do cerrado brasileiro. Ave de grande porte, ela prefere caminhar a voar e tem o hábito de emitir chamados sonoros ao amanhecer, que ecoam pelos campos abertos. Também aparece em áreas de vegetação mais seca do Nordeste e do Centro-Oeste.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    A coruja-buraqueira desafia o estereótipo das corujas como aves exclusivamente noturnas e florestais. Ela possui cabeça redonda sem penachos, olhos amarelos e coloração terrosa e mimética. Ao contrário da maioria das corujas, o macho é ligeiramente maior que a fêmea. O nome vem do hábito de nidificar em buracos no chão, muitas vezes em cupinzeiros abandonados. É uma das aves mais adaptadas a ambientes abertos, incluindo áreas urbanas próximas a campos.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    A meia-lua-do-cerrado é uma das espécies menos conhecidas do grupo, associada especificamente ao bioma cerrado, e raramente registrada em boas condições de luz por fotógrafos.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    As aves da Mata Atlântica

    O surucuá-variado é uma das joias da Mata Atlântica. Mede entre 26 e 28 centímetros e apresenta cabeça, pescoço e peito em azul-escuro metálico, com bochechas e garganta pretas e um anel periocular em laranja intenso. É um pássaro quieto que passa longos períodos descansando em um poleiro, e seu canto pode ser ouvido durante todo o dia.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    O tangarazinho é pequeno, mas chama atenção. Os machos têm coroa e costas pretas, testa e uropígio vermelhos, asas verdes, colar e barriga brancos. As fêmeas são verdes na parte superior e cinzas na garganta. A espécie ocorre na Mata Atlântica desde o sul da Bahia até o sul de Santa Catarina, com uma população isolada na região central de Goiás, e se alimenta de frutinhas e pequenos insetos.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    A saíra-ferrugem completa o grupo das Mata Atlântica. Ocorre do sul da Bahia e Minas Gerais ao Rio Grande do Sul, alimentando-se de frutos e insetos, principalmente larvas que vivem nos troncos das árvores.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    As aves multicoloridas das florestas

    A saíra-lagarta é um dos pássaros mais fotografados por entusiastas da observação de aves. Sua plumagem é predominantemente amarelo-esverdeada, com destaque para a testa e o anel azul ao redor dos olhos. O bico e sua base são pretos, assim como uma mancha no pescoço, e o peito é alaranjado com listras pretas nas costas.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    A saíra-de-chapéu-preto leva o nome do marcante capacete escuro que contrasta com o corpo colorido. Assim como outras saíras, costuma aparecer em bandos mistos de aves no interior e nas bordas das florestas.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    O bentevizinho-de-penacho-vermelho é primo menor do bem-te-vi, mas tem seu diferencial. Apresenta um píleo vermelho, visível principalmente quando o animal está excitado, faixa branca acima dos olhos, garganta branca e região inferior amarela. Alimenta-se de insetos e frutos, constrói ninhos com capim em galhos de arbustos e vive em matas conservadas ou áreas abertas com boa cobertura vegetal.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    A ariramba-de-cauda-ruiva pertence a um grupo de aves conhecidas pela postura ereta e pelos mergulhos rápidos em direção a insetos. O tom enferrujado da cauda, que dá nome à espécie, aparece com clareza em voo.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    O periquito-rei se destaca pelo porte e pela plumagem verde vibrante com detalhes vermelhos nas asas. Costuma voar em bandos barulhentos e aparece em várias regiões do Brasil, da Amazônia ao Cerrado.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    O tucanuçu é o maior representante do gênero Ramphastos e carrega o bico enorme como principal marca registrada. Vive em pares ou pequenos grupos e percorre o dossel das florestas em busca de frutos.

    Foto: @viniciuskohnpassaros

    Por fim, a rendeira e o joão-botina-do-brejo completam o conjunto com espécies menos conhecidas do grande público. A rendeira recebe o nome pelo padrão delicado de sua plumagem, que lembra um tecido rendado. O joão-botina-do-brejo, por sua vez, habita áreas úmidas e é raramente avistado fora de seu ambiente específico.

    Foto: @viniciuskohnpassaros
    Foto: @viniciuskohnpassaros

    O Brasil abriga mais de 1.900 espécies de aves, o que o coloca entre os países com maior diversidade ornitológica do planeta. Ainda assim, boa parte dessas espécies permanece desconhecida para a maioria dos brasileiros. O trabalho de fotógrafos como Vinicius Kohn cumpre um papel que vai além do estético: aproxima o público de uma biodiversidade que existe, resiste e merece atenção e proteção.

  • Quer atrair pássaros? Plante essa árvore e transforme seu quintal

    Quer atrair pássaros? Plante essa árvore e transforme seu quintal

    Uma árvore que cresce rápido, atrai dezenas de espécies de animais e ainda ajuda a recuperar a natureza. A embaúba vem ganhando destaque entre especialistas por seu papel essencial na biodiversidade, embora ainda seja pouco valorizada no paisagismo urbano.

    O paisagista e botânico Ricardo Cardim chama atenção para a espécie ao relatar uma experiência pessoal curiosa. Segundo ele, uma embaúba surgiu espontaneamente em seu quintal, plantada por um morcego, e em pouco tempo já ultrapassava a altura da casa.

    “Quero falar hoje de uma árvore que tenho no quintal e está mais alta que a casa, e foi plantada por um morcego há dois anos atrás”, conta.

    Uma árvore que atrai vida

    A embaúba é considerada uma planta-chave para os ecossistemas brasileiros. Isso porque seus frutos, conhecidos como “bananinhas”, são produzidos praticamente o ano todo, garantindo alimento constante para a fauna.

    https://www.instagram.com/reel/DWRX0pwhUEN/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

    Entre os principais visitantes estão aves como tucanos, araçaris e sanhaçus, que encontram na árvore uma fonte rica de energia. Além disso, essas aves ajudam a dispersar sementes, contribuindo diretamente para a regeneração das florestas.

    “A gente tem várias espécies nos biomas brasileiros e ela é uma planta-chave para biodiversidade nativa. Seus frutos alimentam mais de 100 animais nativos. É lindíssima. Folhas lindíssimas. Atrai pássaros, tucanos, araçaris”, destaca o especialista.

    Muito além das aves

    Embora seja conhecida por atrair pássaros, a embaúba também desempenha um papel fundamental para outros grupos de animais.

    Mamíferos como preguiças utilizam a árvore como abrigo e fonte de alimento, o que explica um de seus nomes populares: “árvore-da-preguiça”. Primatas, como bugios, também consomem seus frutos, enquanto morcegos atuam como importantes dispersores de sementes.

    Além disso, a espécie mantém uma relação fascinante com formigas do gênero Azteca. Essas formigas vivem no interior oco da árvore e atuam como uma verdadeira defesa natural, protegendo a planta contra predadores em troca de alimento.

    Aliada na recuperação ambiental

    Outro ponto que chama atenção é o papel da embaúba na recuperação de áreas degradadas. Por crescer rapidamente e servir como poleiro natural, ela facilita a chegada de outras espécies vegetais.

    Na prática, isso acelera a regeneração da vegetação nativa. Ao atrair animais, a árvore contribui para espalhar sementes de diferentes plantas, ampliando a diversidade do ambiente.

    Ainda pouco valorizada nas cidades

    Apesar de todos esses benefícios, a embaúba ainda é rara no paisagismo urbano. Para Ricardo Cardim, isso revela um problema maior: o desconhecimento sobre a flora brasileira.

    “A embaúba deveria estar em todos os lugares, mas é raríssimo de encontrar no paisagismo das cidades brasileiras”, afirma. Segundo ele, valorizar espécies nativas é fundamental não apenas pela estética, mas também pelo impacto ambiental positivo.

    Pequena ação, grande impacto

    Plantar uma embaúba pode parecer um gesto simples. No entanto, seus efeitos vão muito além. A árvore ajuda a alimentar animais, restaurar ecossistemas e aumentar a biodiversidade local.

    Assim, em um momento em que cidades buscam soluções sustentáveis, a espécie surge como uma alternativa prática e eficiente.

  • Brasil acumula déficit bilionário de carbono no solo causado pela agropecuária

    Brasil acumula déficit bilionário de carbono no solo causado pela agropecuária

    A conversão de vegetação nativa em áreas agropecuárias nos seis biomas brasileiros resultou em um déficit alarmante de 1,4 bilhão de toneladas de carbono na camada superficial do solo (0 a 30 centímetros). Essa perda equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, segundo estudo inédito publicado na revista científica Nature Communications.

    A pesquisa foi desenvolvida por cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon/USP), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e da Embrapa. E avaliou mais de 370 estudos científicos para traçar o primeiro mapeamento completo do estoque de carbono no Brasil antes das intervenções humanas.

    Metodologia abrangente revela escala do problema

    Os pesquisadores analisaram 4.290 amostras de solo coletadas em diferentes profundidades em áreas de vegetação nativa e de uso agropecuário em todo o país. O trabalho permitiu calcular as diferenças no estoque de carbono orgânico entre os seis biomas brasileiros, cinco tipos de solo e diversos níveis de intensificação do manejo agrícola.

    “Ao mesmo tempo em que quantifica o problema, a pesquisa aponta oportunidades de incremento de carbono com a mudança de práticas agropecuárias, iniciativas de políticas públicas ou ações privadas”, explica Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa e coautor do estudo.

    Segundo João Marcos Villela, primeiro autor do artigo e bolsista da Esalq/USP, o trabalho estabelece uma linha de base sobre a perda de carbono no Brasil. “Esse trabalho serve como ponto de referência para ações futuras”, afirma Villela. Ele destaca que o CCarbon aprovou um projeto para ampliar a coleta de dados de forma padronizada em todo o território nacional.

    Clima determina perdas e ganhos de carbono

    A análise confirmou que o clima exerce papel fundamental no balanço de perdas e armazenamento de carbono orgânico no solo. Regiões mais frias e úmidas, como Pampa e Mata Atlântica, apresentaram maiores estoques de carbono. Isso em comparação aos biomas de clima tropical, como Cerrado, Pantanal, Caatinga e Amazônia.

    Os dados também revelaram que áreas com maior estoque inicial de carbono sofreram perdas mais significativas quando convertidas para uso agropecuário. Portanto, estabelecendo uma correlação direta entre potencial de armazenamento e vulnerabilidade à degradação.

    Práticas sustentáveis reduzem perdas pela metade

    Um dos achados mais relevantes do estudo refere-se ao impacto das diferentes práticas agrícolas na retenção de carbono. A conversão de vegetação nativa em monocultura resultou em perda média de 22% na matéria orgânica do solo. Enquanto em sistemas agrícolas integrados a redução foi de apenas 8,6%.

    O sistema de plantio direto também demonstrou maior eficiência na preservação do carbono, com perda de 11,4%, contra 21,4% no cultivo convencional. Uma diferença de 47% entre as duas técnicas de manejo.

    Cerrado e Mata Atlântica concentram 72% do potencial de recuperação

    A quantificação do déficit de carbono permitiu aos pesquisadores mapear as regiões com maior potencial de recarbonização. Aproximadamente 72% da capacidade de recuperação está concentrada em dois biomas. O Cerrado, com potencial de 0,53 bilhão de toneladas de carbono, e a Mata Atlântica, com 0,48 bilhão de toneladas.

    “Entender qual a diferença dessa diversidade de climas, biomas e sistemas produtivos, tanto no âmbito de perdas quanto de ganhos, serve para direcionar soluções mais adaptadas”, destaca Villela.

    Impacto nas metas climáticas brasileiras

    O estudo indica que, ao recarbonizar apenas um terço do potencial estimado, o Brasil poderá alcançar a meta de redução de emissões entre 59% e 67% estabelecida nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) do Acordo de Paris até 2035.

    Daniel Potma, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e vinculado à UEPG durante o estudo, ressalta a importância dos dados para o mercado de carbono brasileiro. “Conhecendo o tamanho do ‘pote’, 1,4 bilhão de toneladas de carbono, é possível saber quanto isso vale em termos de recursos, o que poderá ser um chamariz para atrair investimentos na economia da descarbonização”, afirma.

    Ciência brasileira ganha reconhecimento internacional

    A publicação na Nature Communications, periódico de alto impacto científico, fortalece o reconhecimento da pesquisa brasileira sobre emissões de gases de efeito estufa na agropecuária nacional. Segundo Barioni, informações confiáveis obtidas em âmbito nacional são fundamentais para respaldar a diplomacia brasileira nas negociações climáticas globais.

    O estudo contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além de parceria privada com Bayer e Shell Brasil. O banco de dados completo foi disponibilizado em formato aberto para utilização em futuras pesquisas.