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  • Como cientistas transformaram casca de banana em energia mais barata e limpa

    Como cientistas transformaram casca de banana em energia mais barata e limpa

    Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) descobriram que baixas concentrações de soda cáustica (hidróxido de sódio, NaOH) preparam resíduos orgânicos para a produção de biogás com mais eficiência do que doses elevadas. A descoberta eleva a geração de metano, reduz o consumo de reagentes químicos e diminui os custos da operação industrial.

    A equipe utilizou como matéria-prima bananas descartadas em varejões, cascas e frutos impróprios para comercialização. Apesar do alto teor de matéria orgânica, esses resíduos escondem seu potencial energético dentro de uma espécie de armadura vegetal, formada por substâncias como celulose e lignina. Essa barreira dificulta o acesso dos microrganismos aos açúcares fermentáveis e limita a digestão anaeróbia, processo pelo qual comunidades de microrganismos decompõem a matéria orgânica na ausência de oxigênio.

    Durante o processo, os microrganismos quebram moléculas complexas em compostos cada vez mais simples até formar o metano (CH₄), principal componente energético do biogás.

    Como funciona o pré-tratamento termoalcalino

    “Para aumentar a eficiência da produção de biogás, é necessário aplicar um pré-tratamento. Nós optamos pelo termoalcalino (que combina calor e produtos químicos). A biomassa foi aquecida na presença de diferentes concentrações de hidróxido de sódio, variando entre 0,2% e 3%. O objetivo era romper parcialmente a barreira formada pela lignina, tornando os carboidratos mais acessíveis aos microrganismos”, explica Sandra Imaculada Maintinguer, integrante do Instituto de Pesquisa em Bioenergia da Universidade Estadual Paulista (IPBEN-Unesp) e coordenadora da pesquisa.

    Pesquisadora Larissa Ayumi Yamamoto realiza experimento com o resíduo de banana. Foto: Larissa Ayumi Yamamoto/IPBEN-Unesp

    Os testes contrariaram a expectativa intuitiva de que doses maiores de reagente trariam melhor desempenho. Pelo contrário: a eficiência máxima apareceu justamente nas menores concentrações testadas. A dose de apenas 0,2% de NaOH promoveu a maior solubilização de carboidratos, alcançando 12.110 miligramas por litro (mg/L). Ou seja, mais que o dobro dos 4.785 mg/L registrados no material sem pré-tratamento. Uma concentração ligeiramente maior, de 0,4%, gerou a maior produção acumulada de metano, mas a dose de 0,2% produziu o gás com mais velocidade.

    “Isso é importante porque, além de aumentar os custos da produção, o uso elevado de hidróxido de sódio inibe a ação dos microrganismos responsáveis pela geração do metano e pode causar maior impacto sobre o meio ambiente”, destaca Larissa Ayumi Yamamoto, graduanda no IPBEN-Unesp e primeira autora do artigo, publicado em maio na revista científica Bioenergy Research.

    Excesso de reagente prejudica microrganismos e encarece o processo

    Em pequenas quantidades, a soda cáustica rompe parcialmente a estrutura vegetal e libera açúcares que alimentam os microrganismos. Em excesso, porém, o reagente passa a atacar os próprios microrganismos, o que atrapalha ou até inviabiliza o processo. “Não adianta colocar 20%, porque se torna inibitório”, resume Maintinguer. A redução da quantidade de reagente também melhora a perspectiva de aplicação industrial, já que facilita o tratamento posterior de efluentes. “Para a indústria, quanto menor a concentração de hidróxido de sódio, melhor”, completa a pesquisadora.

    Maintinguer observa que São Paulo reúne condições particularmente favoráveis para esse tipo de tecnologia. Como grande produtor de frutas, o Estado gera quantidades enormes de resíduos ao longo de toda a cadeia produtiva. Desde frutos descartados ainda na propriedade até sobras do beneficiamento industrial e da comercialização. “A ideia é fechar esse ciclo. Em vez de encaminhar restos e frutas fora do padrão comercial para aterros, esses resíduos podem alimentar biodigestores capazes de produzir energia, transformando um passivo ambiental em uma fonte renovável”, pondera a pesquisadora.

    Bactérias e arqueias definem o desempenho do sistema

    Os resultados mostraram que o desempenho do biodigestor depende não apenas da quantidade de matéria orgânica disponível, mas também de quais bactérias atuam no processo e quais caminhos elas usam para digerir a matéria. No reator tratado com 0,4% de hidróxido de sódio, predominaram bactérias dos gêneros Paraclostridium e Clostridium, além de arqueias metanogênicas, organismos unicelulares produtores de metano, dos gêneros Methanothrix e Methanoregula.

    “Nós avaliamos o consórcio microbiano presente no reator, conseguimos acompanhar como esse sistema evolui e quais rotas metabólicas os microrganismos percorrem ao longo do processo”, explica Ana Gabriela Oliveira Ferreira Janas, doutoranda no IPBEN-Unesp. “Portanto, são informações que a pesquisa pode oferecer para a indústria.”

    Digestão anaeróbia funciona como turnos de trabalho microbiano

    Maintinguer compara a digestão anaeróbia a uma sucessão de etapas cumpridas por diferentes grupos de microrganismos. “Entramos com a matéria orgânica bruta e os microrganismos vão quebrando essa matéria em compostos cada vez mais simples. Esses intermediários acabam sendo consumidos por outros microrganismos até chegar à formação do metano”, detalha.

    O estudo integra um programa mais amplo do grupo da Unesp, que busca transformar resíduos agroindustriais em fontes de energia e outros produtos de valor agregado. Além da banana, os pesquisadores também estudam resíduos de laranja e goiaba, águas residuárias do processamento de frutas e diferentes estratégias de digestão e codigestão anaeróbias, técnica que mistura diferentes tipos de resíduos no mesmo reator para potencializar a geração de energia.

    Dependendo das condições operacionais e da comunidade microbiana presente, os pesquisadores podem direcionar esses sistemas não apenas à produção de biogás. Mas também à obtenção de outros compostos de interesse industrial. Em outro trabalho, ainda em processo de revisão para publicação, Janas e colaboradores investigaram a codigestão anaeróbia de resíduos para produzir bio-hidrogênio.

    José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

  • Projeto transforma batata-doce em etanol, biogás e ração animal

    Projeto transforma batata-doce em etanol, biogás e ração animal

    A Agropecuária Vista Alegre, empresa do Better Group, deu início ao processo de obtenção de documentos ambientais para implantar um projeto que transforma batata-doce em etanol, biogás e ração animal. A empresa investirá R$ 20 milhões na ampliação da indústria e na construção de um biodigestor, movimento que amplia a capacidade produtiva e diversifica o uso do tubérculo fora do padrão comercial.

    Foto da Usina Agropecuaria Vista Alegre
    Foto: Divulgação

    O projeto prevê a produção de 7 milhões de litros de etanol por ano, dos quais 5 milhões virão da fermentação da batata-doce. A iniciativa também gerará 7 mil toneladas anuais de ração animal e 7 milhões de metros cúbicos de biogás, este último produzido com a inclusão de dejeto bovino.

    Anúncio reforça vínculo com a Batatec

    A empresa anunciou o início do processo um ano após apresentar o projeto na Feira Tecnológica da Batata-Doce (Batatec) 2025, em Presidente Prudente (SP). O anúncio animou os agricultores locais. Neste ano, a Batatec acontece entre os dias 23 e 26 de julho, organizada em parceria com a Agropecuária Vista Alegre, e reunirá produtores, pesquisadores e empresas ligadas à cadeia da batata.

    “Esse projeto representa um novo passo na estratégia do Better Group de investir em soluções que ampliam a eficiência das operações e geram valor para os diversos elos da cadeia produtiva. Reunimos, em uma única iniciativa, produção de biocombustível, geração de energia e nutrição animal. Com aproveitamento integral da matéria-prima”, afirma David de Carlo, gerente industrial da Agropecuária Vista Alegre. Segundo ele, a proposta também fortalece a relação com os produtores da região ao criar uma alternativa para o aproveitamento da batata-doce fora dos padrões exigidos pelo mercado de consumo. Com a ampliação, a empresa elevará sua produção de etanol de 2 milhões para 7 milhões de litros por ano.

    Foto: Divulgação

    Para a companhia, o projeto materializa a economia circular na prática. O biodigestor converterá resíduos e dejetos bovinos em biogás, que gerará energia térmica e elétrica para a própria operação e contribuirá para reduzir a pegada de carbono do negócio.

    Parcerias locais garantem fornecimento de matéria-prima

    A empresa firmará parcerias com pequenos, médios e grandes produtores da região para garantir o fornecimento de batata-doce. “Como o processamento industrial não depende de critérios estéticos, ampliamos o aproveitamento da produção com redução de perdas no campo”, explica David de Carlo. Para complementar o abastecimento da indústria, a Agropecuária Vista Alegre também cultivará 400 hectares de batata-doce irrigada por pivô central, com adubação feita a partir de resíduos orgânicos da própria operação.

    O processamento da batata-doce também produzirá Wet Distillers Grains (WDG), coproduto utilizado na fabricação de ração para os animais confinados do Better Group. Testes laboratoriais apontam teor de proteína acima de 29% no ingrediente, o que permitirá produzir aproximadamente 7 mil toneladas de ração por ano. Depois da extração desse material, os resíduos seguirão para o biodigestor, onde se converterão em biogás para gerar energia para a própria indústria.

    “Enquanto o mercado discute sustentabilidade, o Better Group pratica esse conceito em cada elo da cadeia. Com nosso propósito de ‘Alimentar Hoje. Cuidando do Amanhã’, construímos um sistema para entregar carne de excelência com impacto ambiental reduzido, em um modelo maduro de economia circular. A transformação da batata-doce em diferentes produtos mostra como a inovação pode ampliar o aproveitamento dos recursos. Além de criar novas oportunidades para toda a cadeia produtiva”, afirma Everton Gardezan, gerente de marketing do Better Group.

    Embora recém-lançado, o projeto Bioenergia da Batata-Doce já conquistou reconhecimento nacional. Em junho, a Agropecuária Vista Alegre recebeu o 32º Prêmio Expressão de Ecologia, na categoria Energias Limpas. Essa é uma das principais premiações ambientais do país, que destaca iniciativas que associam inovação, eficiência produtiva e responsabilidade ambiental.

  • Família troca problema ambiental por economia de energia com biodigestor de baixo custo

    Família troca problema ambiental por economia de energia com biodigestor de baixo custo

    Até pouco tempo, os dejetos das vacas leiteiras representavam um grande problema para a família Capitani, em Xaxim, no Oeste de Santa Catarina. Agora, com a instalação de um biodigestor desenvolvido pela Epagri, o esterco se transformou em biogás e biofertilizante, unindo economia e sustentabilidade na pequena propriedade rural.

    A tecnologia, batizada de Biodigestor de Baixo Custo, surgiu na primeira década dos anos 2000 por meio da Epagri, com apoio da Embrapa, e passa por contínuos aprimoramentos. O sistema já funciona na propriedade da família, onde o biogás gerado aquece a água para a limpeza do sistema de ordenha e também serve para o cozimento dos alimentos, reduzindo o consumo de gás de cozinha e de lenha. A próxima etapa prevê a instalação de um sistema para levar água quente aos chuveiros e torneiras da residência. Portanto, gerando ainda mais economia na conta de energia elétrica.

    Para o engenheiro-agrônomo da Epagri, o grande potencial do biodigestor no Oeste catarinense reside na sua acessibilidade. “É uma tecnologia de baixo custo e fácil instalação. A região é uma grande bacia leiteira onde predominam pequenas propriedades, que podem se beneficiar com a geração de biogás e biofertilizante, reduzindo gastos com energia elétrica ou gás”, explica o especialista.

    A produtora rural Aline Capitani recomenda a iniciativa para outros agricultores. “Eu com certeza recomendo para outros produtores, não somente por uma questão econômica, mas também ambiental. Eu acho que a gente fala tanto em preservação do meio ambiente e não tem só que falar, a gente tem que fazer”, destaca Aline. Embora a instalação seja recente e a família ainda não tenha calculado a economia exata, os benefícios práticos já são evidentes no dia a dia.

    Economia e sustentabilidade caminham juntas

    Além do biogás, o processo de biodigestão gera o digestado, um biofertilizante de alta qualidade. “Esse material já pode ser aplicado diretamente na lavoura, não necessitando ser curtido. Ele apresenta grande quantidade de nutrientes e uma rápida resposta das plantas, podendo substituir grande parte dos adubos inorgânicos necessários”, explica o engenheiro-agrônomo.

    A solução também resolveu antigos incômodos na propriedade. “Alguns anos atrás, como em muitas propriedades, a gente não tinha um lugar apropriado para armazenar os dejetos dos animais. E o descarte causava muitos problemas, como moscas e odores. Agora, temos uma esterqueira, mas o biodigestor vem para auxiliar ainda mais,” relata Aline.

    O biodigestor da família Capitani contou com fomento do Sicoob e apoio da Prefeitura de Xaxim, que realizou a abertura do buraco para a construção do tanque. Assim, os investimentos na estrutura totalizaram R$ 15 mil, incluindo geomembrana (lona), caixa de areia, caixa de passagem, calhas para captação de água da chuva, tubulações, cerca para isolamento, fogão campeiro (jipão) e fogareiro.

    Tecnologia consolidada pela Epagri

    A história do Biodigestor de Baixo Custo começou em 2008, com a primeira instalação em Laurentino, no Alto Vale do Itajaí. Dez anos depois, a Embrapa validou a tecnologia. “Hoje, esse sistema está praticamente no Brasil todo, mas não temos controle de quantos foram instalados. O produtor de Laurentino já recebeu mais de 300 visitas de interessados em conhecer o biodigestor”, conta Osnei Córdova Muniz, extensionista da Epagri que acompanhou a instalação pioneira.

    Biogás substituiu a lenha no fogão instalado na propriedade dos Capitani. Foto: Aline Capitani/Epagri

    O nome do sistema revela seus principais atrativos: o baixo custo e a facilidade de instalação. Segundo Muniz, o valor para implantação em uma propriedade com rebanho de 20 a 30 vacas varia entre R$ 8 mil e R$ 10 mil. “Em dois anos o investimento se paga, considerando a redução no consumo de lenha, gás, energia elétrica, mão de obra e fertilizante”, calcula. “Ver a alegria da família em estar economizando e enxergando maior conforto no seu dia a dia é muito satisfatório”, completa Duchini.

    O coordenador estadual do Programa Desenvolvimento e Sustentabilidade Ambiental da Epagri, engenheiro agrônomo Jeferson João Soccol, destaca a relevância da tecnologia para as atuais demandas do setor. “Há necessidade de reduzir impactos ambientais, descarbonizar cadeias produtivas, baixar custos de produção e aumentar a eficiência das propriedades rurais. O biodigestor é uma tecnologia extremamente importante e acessível aos agricultores familiares e atende a todas estas demandas”, afirma Soccol.

    Ele acrescenta que a expectativa é que a tecnologia ganhe ainda mais força com a disponibilização de recursos de fomento pelo estado de Santa Catarina, por meio da Epagri, e com eventos de capacitação, como o realizado recentemente em Xaxim.

  • O reino do Oink: Toledo (PR) tem quase 6 porcos por pessoa

    O reino do Oink: Toledo (PR) tem quase 6 porcos por pessoa

    O dia em Toledo, no oeste do Paraná, começa cedo, antes que o sol se desprenda do horizonte e espane a névoa sobre as plantações. O orvalho escorre das folhas de soja, o motor dos tratores rompe o silêncio, e o ar já carrega aquele cheiro inconfundível: mistura de ração, terra úmida e promessas de fartura. Seja bem-vindo(a) ao Reino do Oink.

    À distância, há quem jure ouvir um murmúrio que vem do campo. Um rumor ritmado, quase orquestral. É o som de 950 mil porcos respirando, comendo, crescendo, existindo.

    No mapa, a simpática Toledo é um ponto distante de Curitiba, no interior paranaense. Mas, na prática, é a capital invisível dos suínos. Um lugar onde há quase seis porcos para cada pessoa.

    Os 160.701 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2025, vivem cercados por um oceano de grunhidos e silos metálicos. Os animais são tantos que parecem se multiplicar no eco dos currais e no vapor que sai das granjas nas manhãs frias.

    O trono dos porcos

    Foto: Ari Dias/AEN

    Há uma ironia silenciosa na paisagem. A cidade foi erguida por gente, mas quem reina por aqui é o porco. O IBGE confirma: 950 mil suínos dividem o território com pouco mais de 160 mil moradores. Se cada habitante decidisse adotar um, ainda sobrariam quase 790 mil focinhos sem dono. É a cidade brasileira com a maior quantidade de suínos.

    O contraste é poético e brutal. O mesmo animal que já foi símbolo de fartura nas mesas do interior hoje sustenta uma indústria de bilhões. Toledo produz proteína como quem produz destino, no compasso dos caminhões frigoríficos que cruzam a BR-467, levando o cheiro e a riqueza do campo para longe.

    O império do oink

    Dizem que é fácil saber quando se está chegando a Toledo. O vento entrega. Ele sopra carregado de um aroma ácido, mistura de vida, trabalho e exaustão. Para uns, é incômodo; para outros, é sinal de prosperidade. Aqui, o cheiro do ar é o cheiro do sustento.

    Entre as faixas de milho e soja, surgem granjas que mais parecem fortalezas: portões automáticos, silos reluzentes, sistemas de ventilação que nunca param. Lá dentro, máquinas alimentam, climatizam e registram cada movimento. O que era natureza virou cálculo. O que era instinto virou estatística.

    Foto: Ari Dias/AEN

    Mesmo assim, há uma harmonia discreta nesse cotidiano. É como se homem e animal tivessem firmado um pacto silencioso. Cada porco alimentado é uma engrenagem da economia, uma batida no coração do município, uma pequena parte do futuro que Toledo constrói com paciência e precisão.

    O cheiro, o som e o sustento

    Com o tempo, os moradores se acostumaram. A suinocultura não é apenas um negócio, é uma espécie de identidade. O caminhoneiro sabe o caminho de cor; o agricultor reconhece no ar quando as granjas estão cheias; o comerciante mede as vendas pelo número de abates da semana.

    Toledo respira em oinks. O som é constante, mas não ensurdece. É o bater de um coração coletivo, pulsando do campo para o centro, atravessando os milharais e as ruas largas da cidade.O Paraná é o segundo estado que mais abate suínos no Brasil, responsável por 21,5% da produção nacional. Mas Toledo é um caso à parte. Nenhum outro município reúne tantos animais por habitante. Aqui, o porco é mais presente que o poste, mais numeroso que as janelas e tão essencial quanto a chuva que molha o milho.

    Entre o barro e o brilho

    Nada disso seria possível sem as mãos que trabalham na sombra. Homens e mulheres que acordam antes do amanhecer, lavam as botas com pressa e entram nas granjas como quem entra num templo. O cheiro forte que muitos evitam é, para eles, o perfume da estabilidade.

    Foto: Ari Dias/AEN

    Cada porco adulto produz de cinco a sete litros de dejetos por dia. É muito e Toledo aprendeu a lidar com o excesso. Biodigestores transformam o que antes era problema em energia. O que era sujeira, por exemplo, hoje ilumina casas, move motores e fertiliza plantações.

    O ciclo se fecha com uma elegância quase poética: o porco alimenta o homem, e o homem devolve o que sobra à terra.

    O futuro em tom de rosa

    Toledo carrega um desafio constante: crescer sem sufocar. O mundo exige carne, mas também cobra sustentabilidade. A cidade aposta em tecnologia, pesquisa e vigilância sanitária. A Embrapa Suínos e Aves desenvolve rações que reduzem emissões, enquanto cooperativas testam sistemas de reuso de água e manejo inteligente de resíduos.

    Foto: Ari Dias/AEN

    Mesmo assim, o risco ronda: a peste suína africana, as oscilações de mercado, as mudanças no clima. Tudo pode mudar de uma safra para outra. Ainda assim, Toledo segue firme — resiliente, teimosa, obstinada, como os próprios animais que cria.

    Entre o sol e o som

    Quando o entardecer cobre o oeste do Paraná de dourado, então a cidade parece suspensa no tempo. Enquanto isso, os silos brilham sob a luz oblíqua, e ao mesmo tempo os caminhões passam levantando poeira. Por fim, ao fundo, ainda se ouve o mesmo coro grave, contínuo, quase ritual.

    Toledo é mais que uma cidade. É uma metáfora viva do Brasil agrícola. Um lugar onde o homem e o porco dividem o mesmo destino. Ou seja, um produz, o outro sustenta; um respira, o outro transforma.

    E, no fim do dia, quando o vento muda de direção e traz de volta o cheiro do campo, fica clara a essência de tudo: é uma cidade de gente, movida a oinks.

  • Sistema transforma toneladas de lixo orgânico em energia limpa no Ceará

    Sistema transforma toneladas de lixo orgânico em energia limpa no Ceará

    Uma inovação tecnológica desenvolvida no Ceará promete revolucionar o aproveitamento de resíduos orgânicos no Brasil. O Sistema Integrado de Reatores Anaeróbios, criado pela Embrapa e pela Universidade Federal do Ceará (UFC), consegue transformar até 25 toneladas mensais de frutas e verduras descartadas em energia renovável de alta qualidade.

    A tecnologia surge como solução para um problema que custa caro: mensalmente, a Central de Abastecimento do Ceará (Ceasa-CE) gasta aproximadamente R$ 230 mil apenas para enviar seus resíduos orgânicos ao aterro sanitário. Com o novo sistema, esse passivo se transforma em oportunidade de negócio sustentável.

    Segundo o pesquisador Renato Leitão, da Embrapa Agroindústria Tropical, coordenador do projeto, a quantidade de biogás gerada pode suprir 100% da demanda energética da Ceasa-CE nos horários de ponta e ainda gerar um excedente de 20% nos demais períodos.

    “Caso não seja utilizado na própria Ceasa, esse biogás pode ser comercializado como biometano após tratamento adequado”, explica Leitão. A alternativa representa redução significativa no impacto ambiental e nos custos de transporte e tratamento de resíduos.

    Tecnologia inovadora otimiza produção

    O diferencial do sistema está na metodologia aplicada. Enquanto o método tradicional utiliza Reatores de Mistura Completa (CSTR) com limitações operacionais e necessidade de grandes volumes, a nova tecnologia emprega um pré-tratamento inteligente.

    Todos os meses, de 17 a 25 toneladas de frutas e hortaliças – impróprias para o consumo humano – são enviadas ao aterro sanitário do estado, a um custo superior a R$ 200 mil. Foto: Embrapa

    O processo separa os resíduos através de trituração e prensagem em duas frações:

    • Fração líquida: tratada em reatores UASB (manta de lodo de fluxo ascendente), altamente eficazes para cargas orgânicas elevadas
    • Fração sólida: direcionada para compostagem, gerando fertilizante de alta qualidade, ou para reatores de metanização seca (ainda em estudos)

    Potencial de expansão nacional

    A inovação, inicialmente projetada para a Ceasa cearense, tem potencial para ser replicada nas outras 57 centrais de abastecimento distribuídas pelo território brasileiro. O impacto seria considerável, considerando que o Brasil desperdiça aproximadamente 42% dos alimentos produzidos ao longo da cadeia produtiva.

    Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que cerca de 30% das frutas e vegetais comercializados nas Ceasas são perdidos – totalizando 10,9 milhões de toneladas anuais no país.

    Paralelamente ao desenvolvimento do biogás, os pesquisadores investigam a produção de biohidrogênio a partir dos mesmos resíduos. Utilizando fermentação escura em reatores AnStBR, a técnica, embora ainda não competitiva em volume, abre perspectivas para uma nova rota de energia limpa no futuro.

    Destaque em evento científico internacional

    A tecnologia será apresentada durante o XV Workshop e Simpósio Latino-Americano de Digestão Anaeróbia (XV DAAL), que acontece entre 14 e 17 de outubro de 2025, em Fortaleza. O evento, considerado o principal fórum científico sobre digestão anaeróbia na América Latina, reunirá especialistas de centros de pesquisa mundiais.

    “O impacto pode ser enorme: energia limpa, menos resíduos, mais empregos e economia circular na prática”, destaca André dos Santos, professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da UFC.

    Para ampliar a escala de produção, os pesquisadores planejam a construção de uma unidade-piloto maior para calibrar os equipamentos. O sistema representa uma solução promissora para transformar grandes volumes de resíduos orgânicos em energia renovável, reduzindo simultaneamente custos de descarte e emissões de gases do efeito estufa.

    A iniciativa coloca o Ceará na vanguarda da economia circular aplicada ao setor alimentício, oferecendo um modelo sustentável que pode ser expandido nacionalmente.

    A produção de biogás ocorre através da digestão anaeróbia – processo de transformação microbiana da matéria orgânica em bioprodutos energéticos na ausência de oxigênio. Além da geração de energia renovável, o processo permite recuperar nutrientes do lodo gerado e mitigar emissões de gases do efeito estufa.

  • Multinacional francesa investe em biogás a partir de resíduos de citros

    Multinacional francesa investe em biogás a partir de resíduos de citros

    A multinacional francesa Louis Dreyfus Company (LDC) anunciou a construção da maior usina de biogás do mundo movida a resíduos cítricos. A empresa vai será instalar a unidade em Bebedouro, no interior de São Paulo, com o apoio do governo estadual. O projeto promete transformar subprodutos da citricultura em energia renovável.

    O secretário de Agricultura e Abastecimento, Guilherme Piai, destacou o pioneirismo da iniciativa. “É a primeira planta do Brasil a produzir combustíveis renováveis a partir da laranja. O investimento demonstra que São Paulo oferece segurança jurídica, pesquisa e incentivos ao setor”, afirmou.

    Produção e impacto econômico

    Em resumo, na safra 2023/2024, o setor de citros gerou 45.112 empregos no estado, um aumento de 10% em relação ao período anterior. Além disso, São Paulo responde por cerca de 70% do suco de laranja consumido no mundo. Ao mesmo tempo, o setor ocupa o segundo lugar na balança comercial do agronegócio paulista, com 15,5% das exportações. O faturamento somou US$ 334,41 milhões, sendo 99% desse valor referente ao suco de laranja.

    A nova planta da LDC será construída ao lado da principal indústria de suco de laranja da empresa. Com capacidade de processar 390 metros cúbicos por hora de resíduos industriais, a usina poderá gerar 7 milhões de metros cúbicos normais de gás por hora (Nm³/h) em até três anos. Em geral, a companhia estima reduzir em 50% o consumo de combustíveis fósseis e planeja tornar a unidade de Bebedouro autossuficiente em energia.

    Incentivo às energias renováveis

    O governo paulista vem ampliando o apoio à produção de biogás e biometano no setor agropecuário. Em 2024, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento, em parceria com a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), lançou diretrizes para incentivar essa produção em propriedades rurais. Portanto, além da citricultura, outras atividades como avicultura, suinocultura, bovinocultura, frigoríficos e abatedouros também podem gerar biocombustíveis.

    Controle do greening avança no estado

    O combate ao greening, praga que ameaça os pomares de citros, registrou avanços em São Paulo. Dados do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) mostram que a incidência da doença caiu 54% no cinturão citrícola paulista em 2024.

    A Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA) intensificou a fiscalização e retirou mais de 40 mil mudas irregulares do mercado desde 2023. Algumas delas apresentavam suspeita de contaminação pelo greening. Ou seja, a ação reforça o compromisso do setor em proteger a citricultura paulista.

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  • LDC anuncia maior usina de biogás do mundo a partir de resíduos cítricos

    LDC anuncia maior usina de biogás do mundo a partir de resíduos cítricos

    A multinacional francesa Louis Dreyfus Company (LDC) deu início, nesta terça-feira (11/03), à construção da maior usina de biogás do mundo utilizando resíduos da citricultura. Localizada em Bebedouro, no interior de São Paulo, a planta será pioneira no Brasil e terá capacidade para transformar resíduos do processamento de laranjas e limões em energia limpa, reforçando o compromisso da empresa com a sustentabilidade e a inovação.

    A nova planta utilizará resíduos gerados durante o processamento de frutas cítricas, como os provenientes da limpeza das laranjas, para produzir biogás. Com capacidade inicial para tratar 390 metros cúbicos por hora de efluentes cítricos, a usina poderá gerar até 7 milhões de metros cúbicos normais de gás por ano (Nm³/h) nos próximos dois ou três anos. A expectativa da LDC é reduzir em 50% o uso de combustíveis fósseis e abastecer 100% das necessidades energéticas da unidade industrial de Bebedouro.

    Segundo Paulo Hladchuk, chefe global da plataforma de sucos da LDC, “este projeto contribui para o compromisso global da LDC em reduzir as emissões de CO₂ por meio da descarbonização da cadeia produtiva, ao mesmo tempo em que reforça nosso compromisso com o setor cítrico brasileiro”. Além disso, 100% da água tratada será devolvida aos recursos hídricos locais.

    Impacto econômico e ambiental

    O setor cítrico é um dos pilares do agronegócio paulista. Na safra 2023/2024, gerou mais de 45 mil empregos no estado e representou 15,5% das exportações agrícolas paulistas, com US$ 334,41 milhões em receita. Aliás, 99% desse valor provenientes do suco de laranja. A cada dez copos de suco consumidos no mundo, sete são produzidos no Brasil.

    A iniciativa também está alinhada com os esforços do Governo do Estado de São Paulo para promover energias renováveis. Em 2024, os órgãos responsáveis estabeleceram procedimentos para produzir biogás e biometano em propriedades rurais, incluindo atividades como citricultura, avicultura e suinocultura.

    Inovação tecnológica

    A LDC desenvolveu uma biotecnologia inovadora que utiliza um inóculo especial para decompor a carga orgânica dos resíduos cítricos e gerar biogás. Este processo não apenas substitui combustíveis fósseis como também reduz as emissões de carbono da planta industrial em mais de 20%. A construção da usina ocupará uma área de aproximadamente 195 mil m² e deve ser concluída até meados de 2026.

    “É a primeira planta do Brasil a produzir combustíveis renováveis por meio dos processos da laranja. Trata-se de um investimento de milhões de dólares. Portanto, isso mostra que São Paulo oferece segurança jurídica, pesquisa, combate ao greening, seguro rural e disponibilidade de crédito”, destacou o secretário de Agricultura e Abastecimento, Guilherme Piai.

    Portanto, com este projeto ambicioso, a Louis Dreyfus Company reforça sua posição como líder global no setor cítrico. Além de pioneira na integração entre agronegócio e energia renovável.

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  • Piracanjuba investirá R$150 mi em biogás com apoio do BNDES

    Piracanjuba investirá R$150 mi em biogás com apoio do BNDES

    O Grupo Piracanjuba acaba de receber um financiamento de R$ 150 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para impulsionar a produção de biogás.

    A empresa implantará quatro estações de tratamento de efluentes industriais, que também gerarão biogás, nas unidades de Araraquara (SP), Três Rios (RJ), Carazinho (RS) e São Jorge D’Oeste (PR). Os recursos substituirão caldeiras que consomem combustível fóssil nas unidades paulista e fluminense.

    O financiamento concedido pelo BNDES, via Fundo Clima, visa promover a transição energética e a sustentabilidade no setor industrial. A escolha do biogás como fonte de energia é estratégica, pois permite a redução da dependência de combustíveis fósseis e a minimização do impacto ambiental. Portanto, essa iniciativa alinha-se com os esforços globais para mitigar as mudanças climáticas.

    Impacto Ambiental e Econômico

    A implantação dessas estações de tratamento de efluentes industriais com produção de biogás não apenas contribui para a geração de energia limpa, mas também melhora a eficiência energética das unidades industriais. Isso resulta em uma redução significativa das emissões de gases de efeito estufa e na conservação dos recursos naturais. Além disso, o projeto pode gerar empregos e estimular o desenvolvimento econômico regional.

    Outros Investimentos do Grupo Piracanjuba

    Recentemente, o BNDES também anunciou um empréstimo de quase meio bilhão de reais para o Grupo Piracanjuba. O valor financiará a construção de duas fábricas no complexo industrial de lacticínios em São Jorge D’Oeste. Esse investimento visa a produção de concentrados e isolados proteicos, lactose em pó, queijo muçarela e manteiga. Assim, o grupo reforça sua posição no mercado de laticínios e diversifica sua atuação no setor agroindustrial.

    Em resumo, o financiamento recebido pelo Grupo Piracanjuba para a produção de biogás representa um passo importante na direção da sustentabilidade e da eficiência energética, além de contribuir para o desenvolvimento econômico regional.

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