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  • Família troca problema ambiental por economia de energia com biodigestor de baixo custo

    Família troca problema ambiental por economia de energia com biodigestor de baixo custo

    Até pouco tempo, os dejetos das vacas leiteiras representavam um grande problema para a família Capitani, em Xaxim, no Oeste de Santa Catarina. Agora, com a instalação de um biodigestor desenvolvido pela Epagri, o esterco se transformou em biogás e biofertilizante, unindo economia e sustentabilidade na pequena propriedade rural.

    A tecnologia, batizada de Biodigestor de Baixo Custo, surgiu na primeira década dos anos 2000 por meio da Epagri, com apoio da Embrapa, e passa por contínuos aprimoramentos. O sistema já funciona na propriedade da família, onde o biogás gerado aquece a água para a limpeza do sistema de ordenha e também serve para o cozimento dos alimentos, reduzindo o consumo de gás de cozinha e de lenha. A próxima etapa prevê a instalação de um sistema para levar água quente aos chuveiros e torneiras da residência. Portanto, gerando ainda mais economia na conta de energia elétrica.

    Para o engenheiro-agrônomo da Epagri, o grande potencial do biodigestor no Oeste catarinense reside na sua acessibilidade. “É uma tecnologia de baixo custo e fácil instalação. A região é uma grande bacia leiteira onde predominam pequenas propriedades, que podem se beneficiar com a geração de biogás e biofertilizante, reduzindo gastos com energia elétrica ou gás”, explica o especialista.

    A produtora rural Aline Capitani recomenda a iniciativa para outros agricultores. “Eu com certeza recomendo para outros produtores, não somente por uma questão econômica, mas também ambiental. Eu acho que a gente fala tanto em preservação do meio ambiente e não tem só que falar, a gente tem que fazer”, destaca Aline. Embora a instalação seja recente e a família ainda não tenha calculado a economia exata, os benefícios práticos já são evidentes no dia a dia.

    Economia e sustentabilidade caminham juntas

    Além do biogás, o processo de biodigestão gera o digestado, um biofertilizante de alta qualidade. “Esse material já pode ser aplicado diretamente na lavoura, não necessitando ser curtido. Ele apresenta grande quantidade de nutrientes e uma rápida resposta das plantas, podendo substituir grande parte dos adubos inorgânicos necessários”, explica o engenheiro-agrônomo.

    A solução também resolveu antigos incômodos na propriedade. “Alguns anos atrás, como em muitas propriedades, a gente não tinha um lugar apropriado para armazenar os dejetos dos animais. E o descarte causava muitos problemas, como moscas e odores. Agora, temos uma esterqueira, mas o biodigestor vem para auxiliar ainda mais,” relata Aline.

    O biodigestor da família Capitani contou com fomento do Sicoob e apoio da Prefeitura de Xaxim, que realizou a abertura do buraco para a construção do tanque. Assim, os investimentos na estrutura totalizaram R$ 15 mil, incluindo geomembrana (lona), caixa de areia, caixa de passagem, calhas para captação de água da chuva, tubulações, cerca para isolamento, fogão campeiro (jipão) e fogareiro.

    Tecnologia consolidada pela Epagri

    A história do Biodigestor de Baixo Custo começou em 2008, com a primeira instalação em Laurentino, no Alto Vale do Itajaí. Dez anos depois, a Embrapa validou a tecnologia. “Hoje, esse sistema está praticamente no Brasil todo, mas não temos controle de quantos foram instalados. O produtor de Laurentino já recebeu mais de 300 visitas de interessados em conhecer o biodigestor”, conta Osnei Córdova Muniz, extensionista da Epagri que acompanhou a instalação pioneira.

    Biogás substituiu a lenha no fogão instalado na propriedade dos Capitani. Foto: Aline Capitani/Epagri

    O nome do sistema revela seus principais atrativos: o baixo custo e a facilidade de instalação. Segundo Muniz, o valor para implantação em uma propriedade com rebanho de 20 a 30 vacas varia entre R$ 8 mil e R$ 10 mil. “Em dois anos o investimento se paga, considerando a redução no consumo de lenha, gás, energia elétrica, mão de obra e fertilizante”, calcula. “Ver a alegria da família em estar economizando e enxergando maior conforto no seu dia a dia é muito satisfatório”, completa Duchini.

    O coordenador estadual do Programa Desenvolvimento e Sustentabilidade Ambiental da Epagri, engenheiro agrônomo Jeferson João Soccol, destaca a relevância da tecnologia para as atuais demandas do setor. “Há necessidade de reduzir impactos ambientais, descarbonizar cadeias produtivas, baixar custos de produção e aumentar a eficiência das propriedades rurais. O biodigestor é uma tecnologia extremamente importante e acessível aos agricultores familiares e atende a todas estas demandas”, afirma Soccol.

    Ele acrescenta que a expectativa é que a tecnologia ganhe ainda mais força com a disponibilização de recursos de fomento pelo estado de Santa Catarina, por meio da Epagri, e com eventos de capacitação, como o realizado recentemente em Xaxim.

  • Sistema revoluciona rastreabilidade de dejetos suínos

    Sistema revoluciona rastreabilidade de dejetos suínos

    O sistema GeoFert promete transformar a gestão de dejetos suínos no Brasil. A tecnologia amplia a rastreabilidade e fortalece a sustentabilidade da suinocultura. Desenvolvido pela ciência agropecuária, o sistema usa georreferenciamento e gestão digital integrada. Ele organiza a coleta, o transporte e a aplicação de biofertilizantes com precisão.

    Além disso, o projeto SMART originou a solução na região Sul do país. Agora, parceiros privados validam a tecnologia para uso seguro na cadeia produtiva.

    Desafios do manejo de resíduos

    A produção intensiva de suínos ainda enfrenta desafios no manejo de resíduos. Atualmente, cerca de 95% dos dejetos são líquidos e seguem para fertilização do solo. Embora ricos em nutrientes, esses resíduos exigem controle rigoroso na aplicação. Caso contrário, podem causar contaminação da água e degradação do solo.

    Diante disso, especialistas reforçam a importância de uma gestão integrada e eficiente. Essa gestão deve alinhar produção, meio ambiente e exigências legais.

    Em Santa Catarina, o setor já utiliza o Sistema de Gestão Ambiental da Suinocultura. A ferramenta, desenvolvida pela Embrapa, agiliza o licenciamento das granjas. Mesmo assim, o pós-licenciamento ainda preocupa produtores e autoridades. Nessa fase, o produtor precisa comprovar a destinação correta dos efluentes.

    Esse controle se torna mais difícil quando há uso de áreas de terceiros. Além disso, muitas operações dependem de frotas públicas para transporte. Segundo o pesquisador Cláudio Miranda, muitos municípios ainda usam registros manuais. Isso reduz a transparência e dificulta a verificação das informações.

    Entenda como o GeoFert melhora o controle dos resíduos

    Foto: divulgação – Embrapa / Lucas Scherer

    O GeoFert surge como resposta direta a esse problema crítico do setor. O sistema programa, registra e valida todas as etapas da aplicação. Ele armazena dados completos sobre origem, destino e horários das operações.
    Também registra as coordenadas geográficas das áreas fertilizadas.

    Com isso, produtores e gestores ganham mais controle e segurança nas informações. Além disso, os dados se tornam auditáveis por órgãos ambientais.

    Integração com o CAR aumenta segurança jurídica

    Um dos diferenciais do GeoFert está na integração com o Cadastro Ambiental Rural. O sistema conecta dados de máquinas com informações das propriedades agrícolas. Ou seja, essa integração reforça a conformidade legal de prestadores de serviços. Além disso, aumenta a transparência e reduz custos operacionais.

    Prefeituras, associações e empresas privadas podem usar a tecnologia. Assim, o atendimento às demandas agrícolas se torna mais ágil.

    Diferente de soluções genéricas, o GeoFert atende demandas específicas da suinocultura. Ele também complementa o planejamento realizado por sistemas já existentes.

    Benefícios diretos para produtores e gestão pública

    Foto: divulgação – Embrapa / Lucas Scherer

    O uso do GeoFert garante conformidade com a legislação ambiental vigente. Além disso, o sistema gera evidências confiáveis para auditorias e fiscalização.

    A tecnologia também amplia a transparência no uso de recursos públicos. Esse ponto é essencial em operações realizadas por frotas municipais. Outro destaque envolve a gestão inteligente das atividades agrícolas. O sistema oferece mapas, gráficos e tabelas para decisões rápidas.

    Validação avança e já mostra resultados

    O GeoFert segue em fase de validação com apoio de parceiros técnicos. Em agosto de 2025, Presidente Castello Branco adotou a solução. O município automatizou serviços e digitalizou registros antes manuais. Com isso, ganhou eficiência e melhor controle das operações.

    A empresa Ekodata lidera a implantação e o treinamento dos usuários. Além disso, acompanha testes e propõe melhorias no sistema. Segundo Miranda, a validação permite ajustes conforme demandas reais. Cada novo município contribui para aprimorar a tecnologia.

    O que esperar do GeoFert no agronegócio

    A expectativa é de avanço expressivo na sustentabilidade da suinocultura familiar. O sistema deve fortalecer a rastreabilidade no uso de biofertilizantes. Além disso, a tecnologia pode ampliar a responsabilidade ambiental do setor.

  • Microalgas criadas com resíduo de cervejaria viram biofertilizante

    Microalgas criadas com resíduo de cervejaria viram biofertilizante

    Uma startup paulista e pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram um bioinsumo agrícola a partir de microalgas cultivadas em efluentes tratados de cervejarias e de criações de tilápia e camarão. O produto já passa por testes em lavouras de milho, banana, hortaliças e café nos estados de São Paulo e Minas Gerais. E promete chegar ao mercado mais barato que os fertilizantes químicos convencionais.

    A iniciativa é uma parceria entre a BiotecBlue, startup sediada em São Paulo, e o campus de São José dos Campos da Unifesp, com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP. O modelo funciona de forma circular: resíduos industriais que normalmente iriam para o esgoto alimentam as microalgas, e a biomassa resultante vira bioestimulante para o campo.

    Do esgoto ao biorreator

    Pequenos produtores de cerveja artesanal costumam descartar os resíduos da fabricação diretamente na rede de esgoto. O mesmo acontece com as sobras de pisciculturas de tilápia e camarão. Sem tratamento, esse material carrega nitrogênio, fósforo e carboidratos, nutrientes que, ao atingir rios e lagos, disparam a eutrofização: crescimento desordenado de algas, alteração da coloração da água e morte de peixes por falta de oxigênio.

    Cultivados de forma controlada, esses mesmos resíduos se tornam o meio ideal para o crescimento de microalgas de alto valor nutricional. “A água que sobra após o cultivo tem poucos nutrientes, ou seja, já pode retornar para o rio ou para um processo produtivo”, explica a engenheira química Danielle Maass, pesquisadora da Unifesp responsável pelo projeto.

    A equipe começou com efluentes da produção intensiva de camarão e tilápia. As microalgas não apenas cresceram de forma saudável como apresentaram concentrações nutricionais superiores às obtidas em meios sintéticos de laboratório. O fechamento da piscicultura fornecedora, porém, expôs a vulnerabilidade de depender de uma única fonte. E abriu caminho para uma solução mais escalável.

    A virada da cerveja artesanal

    Com o setor cervejeiro em expansão, a equipe testou resíduos de cervejarias e encontrou características nutricionais semelhantes às da aquicultura, incluindo carbono, nitrogênio e fósforo. A logística também ficou mais simples. “Hoje há muitas cervejarias artesanais de pequeno e médio porte. É muito mais fácil obter esse resíduo do que o da piscicultura”, compara Maass.

    Um diferencial do projeto é justamente o uso de resíduos reais, não de compostos simulados em laboratório. “O resíduo real tem uma enorme variedade de compostos que podem tanto ajudar quanto atrapalhar o processo”, diz a pesquisadora. Trabalhar com essa complexidade, segundo ela, é o que garante resultados aplicáveis na prática industrial.

    Proteína, betacaroteno e crédito de carbono

    As microalgas produzidas no processo são ricas em proteínas e betacaroteno, antioxidante natural com múltiplas aplicações. Além de virar bioinsumo agrícola, a biomassa pode retornar à cadeia produtiva como suplemento alimentar para peixes e camarões. No caso dos crustáceos, o betacaroteno intensifica a coloração avermelhada. Característica valorizada pelo mercado.

    O projeto ainda abre outra frente econômica: durante o crescimento, as microalgas realizam fotossíntese e capturam dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, o que cria potencial de geração de créditos de carbono.

    Testes no campo e escalonamento

    Desde 2024, o projeto está na fase de escalonamento. A equipe dimensiona equipamentos para uma escala piloto de 100 litros. Nos testes em lavouras de São Paulo e Minas Gerais, Maass relata melhora no desenvolvimento foliar e na saúde do solo.

    “Com uma dose pequena temos um efeito grande e, pelo levantamento de custos brutos que fizemos, o produto é de fato mais barato”, afirma a pesquisadora.

    Por que isso importa para o agronegócio brasileiro

    O Brasil gasta cerca de US$ 25 bilhões por ano para importar mais de 85% dos fertilizantes que consome, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). China e Rússia dominam o fornecimento. O Plano Nacional de Fertilizantes prevê reduzir essa dependência em 50% até 2050. Segundo a Embrapa, fertilizantes chegam a representar 50% dos custos de produção do milho e 40% dos da soja.

    Maass, que tem experiência em processos biotecnológicos e na recuperação de metais críticos de resíduos eletrônicos e de mineração, defende uma mudança de paradigma. “Processos biotecnológicos são um pouco mais demorados para desenvolver, mas, uma vez prontos, são muito mais sustentáveis que os físicos ou químicos”, diz.

    O mercado global de biotecnologia azul,  que inclui o aproveitamento de organismos aquáticos, deve crescer de US$ 14,5 bilhões em 2024 para US$ 29,5 bilhões até 2032, segundo a consultoria Markets and Markets. A equipe da BiotecBlue planeja ampliar o atendimento de pequenos para grandes produtores rurais à medida que a tecnologia avança para escala comercial.

    Roseli Andrion | Agência FAPESP

  • Dia da Aquicultura: produção sustentável de pescado com tecnologia e inovação

    Dia da Aquicultura: produção sustentável de pescado com tecnologia e inovação

    Neste Dia Nacional da Aquicultura, celebrado em 20 de março, o estado de São Paulo se consolida como protagonista na produção sustentável de pescado, unindo ciência, tecnologia e conservação ambiental. Enquanto a pesca extrativista enfrenta riscos de esgotamento de estoques, a aquicultura surge como alternativa estratégica para garantir segurança alimentar, desenvolvimento econômico e preservação de ecossistemas aquáticos.

    A aquicultura não se limita ao cultivo de peixes. Em São Paulo, a prática abrange crustáceos (camarão e lagosta), moluscos (polvo e lula), algas e outros organismos aquáticos. O setor tem investido em inovações que elevam a produtividade, a qualidade dos produtos e a redução de impactos ambientais, posicionando-se como modelo para o país.

    O Instituto de Pesca (IP), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) e à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), é peça-chave nesse avanço. “Desenvolvemos tecnologias para nutrição, genética e sistemas produtivos eficientes, além de capacitar produtores e monitorar a qualidade da água. Tudo para fortalecer a economia azul”, afirma Luiz Ayrosa, pesquisador do IP.

    Algicultura SP: o programa que transforma algas em oportunidades

    Um dos destaques paulistas é o Programa Algicultura SP, coordenado pelo Instituto de Pesca. O programa fomenta o cultivo sustentável de macroalgas – recurso com aplicações que vão de alimentos a biocombustíveis. A estrela do projeto é a Kappaphycus alvarezii, alga usada na produção de carragenana (gelatina natural), biofertilizantes, bioplásticos e cosméticos.

    “Essa macroalga tem alto potencial comercial e estratégico para o Brasil”, ressalta Valéria Gelli, coordenadora do programa. Em parceria com instituições como USP, UNICAMP e UFMG, o IP aprimora técnicas de cultivo e expande aplicações da espécie, que já movimenta 1,5 mil toneladas/ano no país, com possibilidade de chegar a 170 mil toneladas anuais, segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA).

    Biofertilizante de algas: a solução sustentável para a agricultura

    Um dos frutos da pesquisa é o biofertilizante à base de macroalgas, desenvolvido desde 2015 pelo IP. O extrato aquoso, obtido a partir da trituração de algas frescas, mostrou resultados promissores em cultivos como alface e hortelã:

    • Aumento de 20% no peso das plantas;
    • Crescimento acelerado e maior número de nós (essenciais para a ramificação);
    • Redução da dependência de fertilizantes químicos.

    “Esse biofertilizante é uma revolução verde. Ele alia produtividade à sustentabilidade, um passo crucial para a agricultura do futuro”, destaca Gelli.

    Com investimentos em tecnologia e parcerias científicas, São Paulo avança na diversificação da aquicultura. Além das algas, o estado explora sistemas integrados de cultivo, como a aquaponia (que une peixes e plantas). E investe em melhoramento genético de espécies nativas, como o pacu e o tambaqui.

    “A aquicultura paulista não apenas alimenta, mas também preserva. Cada avanço aqui é um legado para as próximas gerações”, conclui Ayrosa.

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  • Kappaphycus alvarezii: macroalga é usada em biofertilizante

    Kappaphycus alvarezii: macroalga é usada em biofertilizante

    A Kappaphycus alvarezii, uma macroalga vermelha amplamente cultivada, está se destacando no Brasil como uma alternativa inovadora para a biofertilização de hortas. Desde a autorização para seu cultivo pelo órgão ambiental estadual em 2022, o interesse pela algicultura tem crescido no litoral norte de São Paulo. O extrato dessa macroalga promove o desenvolvimento das plantas e oferece uma solução sustentável para o setor agrícola.

    Originária das Filipinas, a Kappaphycus alvarezii foi introduzida no Brasil em 1995 por meio de uma colaboração entre a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto de Pesca (IP-Apta), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O IP-Apta desenvolve diversos projetos na Fazenda Marinha Experimental e no Laboratório de Macroalgas Marinhas Ricardo Toledo Lima Pereira (LAMAMA), localizado em Ubatuba (SP).

    Pesquisa e resultados

    Uma pesquisa recente liderada pela pesquisadora Aline Nunes, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com o IP-Apta e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), demonstrou que o extrato aquoso da Kappaphycus alvarezii pode aumentar a produtividade e a qualidade das plantações agrícolas, especialmente da hortelã-pimenta (Mentha piperita). “O biofertilizante derivado da Kappaphycus alvarezii apresenta um grande potencial para aplicação na agricultura”, afirma Nunes.

    Os resultados indicam que a aplicação do extrato promoveu um aumento significativo na altura das plantas, no número de nós e no peso seco da parte aérea da hortelã-pimenta. A pesquisa também observou que as melhorias variaram conforme a concentração do extrato utilizado.

    Benefícios sustentáveis

    O uso do biofertilizante natural representa uma alternativa sustentável e eficaz para o cultivo da hortelã-pimenta. E permite um crescimento mais robusto sem depender de produtos químicos sintéticos. “Esse avanço demonstra o potencial das algas marinhas como aliadas na agricultura sustentável”, destaca Nunes.

    Valéria Gelli, pesquisadora científica do IP-Apta e coordenadora do Programa Algicultura SP, enfatiza que as pesquisas sobre o biofertilizante à base da Kappaphycus alvarezii têm sido realizadas desde 2015. “Este novo estudo reafirma sua eficiência agronômica como uma solução sustentável, com grande potencial para reduzir a dependência de produtos químicos”, conclui Gelli.

    Maricultor de Santa Catarina produz biofertilizante

    O maricultor Raulino de Souza Filho, conhecido como Nino, está inovando na agricultura ao cultivar a macroalga Kappaphycus alvarezii em Palhoça, na Grande Florianópolis. Desde a autorização para o cultivo dessa alga pelo órgão ambiental estadual em 2022, Nino decidiu investir no negócio e já montou uma fábrica para produzir extrato de alga destinado à fabricação de biofertilizantes.

    Com uma área de produção de 1,54 hectare, Raulino iniciou suas atividades de forma experimental em parceria com a Epagri. “A alga tem um grande potencial e estamos trabalhando em cima disso. Sou apaixonado por inovação e já tenho mais de 20 anos de parceria com a Epagri. Acreditei nesse projeto e vou ser pioneiro em Santa Catarina”, afirma Nino.

    Em 2022, enquanto ainda operava experimentalmente, ele produziu 36 mil litros do extrato de alga, vendendo cerca de 30% da produção. Para 2023, a previsão é aumentar a produção para 50 mil litros e futuramente comercializar o fertilizante pronto. “Há uma grande demanda por algas. Estou conversando com colegas maricultores que poderão produzir a macroalga consorciada com cultivos de ostras e mexilhões”, explica o empresário.

    Transformação das macroalgas

    Outro exemplo de sucesso no uso das macroalgas é a maricultora Tatiana Gama da Cunha, que também atua em Florianópolis. Ela utiliza as macroalgas para criar alimentos, cosméticos e biofertilizantes artesanais. Com o apoio da Epagri, Tatiana fundou a empresa Algama e inaugurou em 2023 a primeira unidade de beneficiamento de macroalgas para alimentação em Santa Catarina.

    O interesse pela Kappaphycus alvarezii surgiu como uma alternativa para melhorar a qualidade da água nos cultivos de moluscos na fazenda da família, localizada no Ribeirão da Ilha. “O trabalho com algas é mais leve”, comenta Tatiana.

    Tatiana tem explorado formas de agregar valor ao produto, desenvolvendo artesanalmente sabonetes, hidratantes, xampus, condicionadores e biofertilizantes. Em 2022, ela colheu 4 toneladas de macroalgas em uma área de 0,5 hectare e planeja expandir seu cultivo focando na produção alimentar e oferecendo oficinas culinárias sobre o uso das algas.

    “O consumo de alimentos à base de algas traz vários benefícios para a saúde. Elas são consideradas polivitamínicos naturais e têm propriedades antioxidantes”, defende Tatiana.

    Apoio Institucional

    O apoio da Epagri tem sido fundamental para o desenvolvimento desses negócios. Tatiana participou do curso “Mulheres em Ação” e elaborou um projeto que viabilizou sua unidade de beneficiamento. Com o financiamento obtido através do Programa Jovens e Mulheres em Ação da Secretaria da Agricultura, ela recebeu R$ 11 mil para dar início ao seu empreendimento.

    O cultivo da macroalga Kappaphycus alvarezii está se consolidando como uma alternativa sustentável e promissora para o setor maricultor em Santa Catarina. Com iniciativas como as de Raulino e Tatiana, as macroalgas não apenas contribuem para a saúde do meio ambiente, mas também oferecem novas oportunidades econômicas para os produtores locais. As perspectivas são otimistas para o futuro desse mercado emergente no estado.

    A utilização do biofertilizante derivado da macroalga Kappaphycus alvarezii não apenas promete aumentar a produtividade das plantações de hortelã-pimenta. Mas também representa um passo importante em direção à sustentabilidade na agricultura brasileira. Com o crescimento do interesse por práticas agrícolas ecológicas, essa inovação pode transformar o setor e contribuir para um futuro mais verde.

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