Tag: Biodiversidade marinha

  • Cientistas identificam espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas

    Cientistas identificam espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas

    Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificou duas espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). O estudo utilizou análise genética para confirmar a origem dos animais e revelou indícios do comércio internacional ilegal desses organismos marinhos.

    Os exemplares pertenciam às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, encontradas naturalmente ao longo do litoral brasileiro e importantes para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.

    As análises foram realizadas em três apreensões feitas pelo Ibama em 2023. Duas cargas estavam em malas de passageiros com destino à China, enquanto a terceira seguiria para a Itália.

    Difícil identificação

    Como os animais estavam secos e processados, a identificação por características físicas era praticamente impossível.

    A solução encontrada pelos pesquisadores foi o uso do DNA barcoding, técnica que funciona como um código de barras molecular capaz de identificar espécies a partir de pequenos fragmentos de DNA.

    Segundo a pesquisadora Auany Camila Fantinelli, a equipe precisou criar uma referência genética inédita para confirmar a identidade dos animais apreendidos.

    “Durante o estudo percebemos que não havia nenhuma sequência genética dessa espécie disponível em bancos públicos. Tivemos que coletar exemplares em Ubatuba para construir essa referência.”

    DNA desvenda origem de pepinos-do-mar apreendidos em esquema de comércio ilegal — Foto: flatwaterchris/iNaturalist – Isostichopus badionotus
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    Pesquisadores usam DNA para identificar pepinos-do-mar brasileiros em carga ilegal apreendida pelo Ibama — Foto: Fabio Porto-Foresti

    Como a genética ajudou a identificar os animais

    O DNA barcoding permite identificar espécies mesmo quando os organismos estão processados ou descaracterizados.

    Embora a técnica não consiga apontar exatamente de qual praia ou município os animais foram retirados, ela oferece uma ferramenta importante para investigações ambientais e operações de fiscalização.

    Os pesquisadores consideram altamente provável que os exemplares tenham sido capturados no litoral brasileiro, já que as duas espécies ocorrem naturalmente no país e não existem registros de produção comercial desses animais no Brasil.

    Outro dado que chamou atenção foi o volume das cargas.

    As três apreensões continham aproximadamente:

    • 1.500 pepinos-do-mar;
    • cerca de 500 indivíduos por mala ou caixa;
    • material destinado ao mercado internacional.

    “Isso representa apenas o que foi apreendido. É provável que exista um volume muito maior passando despercebido.”

    Conheça o pepino-do-mar

    Apesar de pouco conhecidos pelo público, os pepinos-do-mar desempenham funções essenciais para a saúde dos ambientes marinhos.

    Esses animais reciclam os nutrientes, oxigenam os sedimentos e ajudam na decomposição de matéria orgânica.

    Ao ingerirem o sedimento, processam a matéria orgânica e devolvem nutrientes ao ambiente, favorecendo a sobrevivência de microrganismos, crustáceos, vermes e diversas espécies que vivem no fundo do mar.

    Segundo os pesquisadores, a retirada intensiva desses organismos pode comprometer a qualidade ambiental dos habitats costeiros.

    “Não está em jogo apenas a sobrevivência das espécies, mas a integridade de ecossistemas inteiros que dependem desse serviço ecológico.”

    Mercado internacional impulsiona a captura ilegal

    A demanda por pepinos-do-mar é especialmente forte em países asiáticos.

    O produto seco é comercializado como iguaria gastronômica e também utilizado na medicina tradicional chinesa, o que eleva significativamente seu valor no mercado internacional.

    De acordo com os pesquisadores, esse cenário aumenta a atratividade econômica da captura ilegal e estimula a exploração de populações naturais.

    As cargas analisadas tinham como destino principal a China, mas já existem registros de envios para outros países.

    Espécies ainda sofrem com falta de monitoramento

    As espécies identificadas são classificadas atualmente como Menos Preocupantes pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

    Ainda assim, os cientistas alertam que a classificação não significa ausência de risco.

    A avaliação da espécie Holothuria grisea, por exemplo, não é atualizada desde 2010.

    Além disso, cerca de 65% das espécies de pepinos-do-mar avaliadas pela IUCN possuem classificação de dados insuficientes, evidenciando a escassez de informações científicas disponíveis.

    No Brasil, não existe monitoramento contínuo das populações desses animais.

  • “Ele é pequenininho”: nova espécie de polvo é encontrada em Galápagos

    “Ele é pequenininho”: nova espécie de polvo é encontrada em Galápagos

    Uma nova espécie de polvo de coloração azul foi identificada por cientistas em águas profundas das Ilhas Galápagos, no Equador.

    A descoberta foi publicada na revista Zootaxa e envolveu uma expedição realizada em 2015.

    Expedição revelou espécie em profundidade extrema

    O animal foi encontrado durante uma missão conjunta entre a Charles Darwin Foundation e a administração do Parque Nacional Galápagos.

    A exploração utilizou um sistema de robô subaquático conhecido como ROV (veículo operado remotamente).

    O registro ocorreu próximo à Ilha Darwin, em uma região de montanha submarina a cerca de 1.773 metros de profundidade.

    Reações dos cientistas durante o achado

    Durante a captura das imagens, os pesquisadores reagiram imediatamente ao avistar o animal.

    “Ele é pequenininho!”, “É azul!”, relataram os cientistas ao observar o polvo no fundo do oceano.

    Ao longo da expedição, outros dois exemplares semelhantes também foram registrados, mas sem identificação taxonômica inicial.

    Identificação e análise da nova espécie

    Após o retorno da missão, os pesquisadores buscaram ajuda da especialista em cefalópodes Janet Voight, responsável pela descrição da nova espécie.

    Segundo a cientista, a descoberta foi imediata:

    “Logo de cara, eu soube que era algo realmente especial. Nunca tinha visto nada parecido.”

    Tecnologia substituiu dissecação tradicional

    Para análise, o exemplar foi levado até Chicago, onde passou por preservação em álcool e formalina.

    Diferente dos métodos tradicionais, a equipe optou por não dissecar o animal.

    Em vez disso, foi utilizada uma tomografia computadorizada não destrutiva, que permitiu reconstruir digitalmente o organismo em 3D.

    Esse processo possibilitou visualizar órgãos internos sem danificar o espécime.

    Nova espécie recebe nome científico

    Com base nas análises, o animal foi classificado como uma nova espécie de polvo das profundezas: Microeledone galapagensis.

    Segundo Voight, “são pequenos polvos que vivem nas profundezas do oceano, e quase ninguém na Terra jamais os viu”.

  • Tubarão-branco é flagrado em encontro raro no Mediterrâneo

    Tubarão-branco é flagrado em encontro raro no Mediterrâneo

    Uma operação voltada à remoção de redes de pesca abandonadas resultou em um encontro considerado histórico no Mar Mediterrâneo.

    Na última segunda-feira (8), a fundação Healthy Seas divulgou imagens que podem representar o primeiro registro de um tubarão-branco adulto em seu habitat natural na região localizada entre a Sicília e a Tunísia.

    Conservação e monitoramento marinho

    Embora os tubarões-brancos sejam conhecidos por frequentarem áreas superficiais, encontros com mergulhadores são extremamente raros. A operação contou com a participação de voluntários especializados na remoção de resíduos submersos, além da colaboração da Society for Documentation of Submerged Sites (SDSS).

    Segundo as entidades envolvidas, as chamadas redes fantasmas representam uma das principais ameaças à fauna marinha local. Esses materiais continuam capturando animais mesmo após serem abandonados no oceano.

    ‘Redes fantasmas’ são a mais perigosa forma de poluição para a vida marinha — Foto: Philippos Marakis/ iStock

    Além disso, mergulhos anteriores já haviam identificado tartarugas-cabeçudas ameaçadas de extinção e grandes espécies de peixes presos aos equipamentos descartados.

    Desta vez, no entanto, o destaque ficou para a aparição do tubarão, observado nadando livremente a cerca de 40 metros de profundidade.

    “Estatisticamente, é muito mais provável ganhar na loteria do que encontrar um animal tão icônico debaixo d’água. Você passa décadas mergulhando em naufrágios e removendo redes fantasmas, mas nada te prepara para um momento como esse”, relatou Remmers.

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    Trabalho continuou após encontro inesperado

    Apesar da surpresa causada pela presença do predador, a equipe manteve o cronograma previsto para a missão.

    “Foi insano, mas mesmo assim prosseguimos com nosso plano de mergulho para remover as redes do naufrágio, pois esse momento mostrou claramente a importância do nosso trabalho”, acrescentou o mergulhador.

    Segundo os participantes, o episódio reforça os impactos causados pela pesca predatória e pelo descarte inadequado de equipamentoos.

    Espécies ameaçadas

    A missão também teve como objetivo coletar amostras de DNA ambiental (eDNA) e realizar atividades de monitoramento da biodiversidade marinha.

    Dessa forma, os pesquisadores esperam obter novas informações sobre as espécies que habitam a região. No caso dos tubarões-brancos, boa parte do conhecimento disponível ainda provém de exemplares mortos capturados por atividades pesqueiras.

    “Observações como essa são extremamente valiosas para melhorar a nossa compreensão da distribuição, dos hábitos e do comportamento dessa espécie criticamente ameaçada, cuja sobrevivência está em risco devido às atividades humanas”, afirmou Carlo Cattano, especialista do Centro Marinho da Sicília da Estação Zoológica Anton Dohrn.

    Embora tenham ocorrido avistamentos ocasionais de tubarões-brancos, o tamanho da população é desconhecido e acredita-se que encontros anteriores não tenham sido filmados — Foto: Reprodução/Reuters

    Preservação dos oceanos

    Para Veronika Mikos, diretora da Healthy Seas, o significado do avistamento vai muito além da raridade da espécie.

    “O que torna esse encontro tão impactante não é apenas o animal em si, mas o contexto. Estávamos lá para remover redes que aprisionavam a vida marinha em um ecossistema de naufrágio. Momentos como esse nos lembram quanta vida ainda pode existir nas águas costeiras do Mediterrâneo e como é importante protegê-la de ameaças evitáveis”, concluiu.

  • Peixe-leão venenoso avança em Fernando de Noronha e pode virar alimento para conter invasão

    Peixe-leão venenoso avança em Fernando de Noronha e pode virar alimento para conter invasão

    A Segunda Semana do Peixe-leão (Pterois volitans) chega ao fim nesta sexta-feira em Fernando de Noronha, reunindo pesquisadores, mergulhadores, instituições ambientais e moradores em debates sobre o avanço da espécie invasora no litoral brasileiro. O evento, promovido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), discutiu estratégias de monitoramento, captura e controle do animal, considerado uma ameaça crescente ao ecossistema marinho.

    Além das palestras e oficinas, um dos temas que mais chamou atenção foi a possibilidade de liberar o consumo humano do peixe-leão como forma de combater a proliferação da espécie. Especialistas apontam que essa prática já trouxe resultados positivos em outros países.

    Segundo a chefe do ICMBio em Noronha, Lilian Hangae, o encontro serviu para compartilhar experiências e fortalecer o manejo da espécie invasora no Brasil.

    “Como somos protagonistas no manejo aqui no Brasil, a ideia é trocar experiências, trazer o conhecimento gerado por outras instituições e pensar juntos nos nossos desafios”, afirmou.

    Consumo do peixe-leão ganha força entre especialistas

    De acordo com Lilian Hangae, o uso do peixe-leão na alimentação foi um dos principais assuntos debatidos durante o evento. Em diversos países, o consumo da espécie já integra as estratégias de controle populacional.

    “Temos muitos peixes capturados e já temos dificuldade em armazenar. As estratégias internacionais mostram que o manejo é mais efetivo quando envolve o consumo”, explicou.

    A gestora destacou ainda que estudos apontam a viabilidade gastronômica do peixe, bastante apreciado em locais como a Costa Rica.

    “É um peixe muito apreciado, de filé branco e sabor leve, com potencial de alto valor agregado para Noronha, que pode servir de resultado de um manejo responsável”, disse.

    Apesar disso, pesquisadores alertam que o preparo exige cuidados específicos. O peixe-leão possui 18 espinhos dorsais venenosos, capazes de liberar toxinas que provocam dor intensa, febre, náuseas e até convulsões em seres humanos.

    Por isso, especialistas defendem treinamento adequado para manipulação e preparo seguro da espécie destinada ao consumo.

    Peixe-leão capturado em Noronha — Foto: Fernando Rodrigues/Sea Paradise

    Operações de captura retiraram centenas de peixes do arquipélago

    Em Fernando de Noronha, o ICMBio tem contado com apoio de empresas de mergulho para ampliar o combate ao animal invasor.

    Em 2024, uma operação coordenada pelo instituto resultou na captura de 140 peixes-leão no arquipélago pernambucano. A ação ocorreu no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e também na Área de Proteção Ambiental (APA).

    Segundo o mergulhador e diretor da empresa participante da operação, Fernando Rodrigues, o objetivo foi avaliar a taxa de repovoamento da espécie nas áreas monitoradas.

    “Nosso foco foi explorar pontos já mapeados para verificar a taxa de repovoamento do peixe-leão, identificando a densidade e os tamanhos da espécie. O menor peixe-leão media apenas 10 centímetros, enquanto o maior ultrapassou 45 centímetros”, declarou em nota divulgada pelo ICMBio.

    Rodrigues ressaltou ainda que o manejo da espécie ajuda diretamente na preservação da fauna marinha ameaçada pelo predador invasor.

    Espécie invasora ameaça biodiversidade marinha

    O peixe-leão (Pterois volitans) é nativo da região indo-pacífica e foi identificado pela primeira vez no Brasil em 2014. Já em Fernando de Noronha, os primeiros registros ocorreram em 2020.

    Desde então, mais de mil exemplares foram capturados no arquipélago, segundo dados do ICMBio.

    A preocupação das autoridades ambientais se deve à alta capacidade de reprodução e predação da espécie. O peixe-leão consegue consumir até 20 peixes em apenas 30 minutos e pode colocar cerca de 30 mil ovos de uma só vez.

    O coordenador do Projeto Conservação Recifal (PCR), Pedro Pereira, explicou que os animais ainda se concentram em regiões mais profundas, porém existe uma tendência de migração para áreas rasas.

    “É importante destacar que essas capturas foram feitas em áreas que não têm sido manejadas com frequência, o que mostra também que a população está aumentando devido à falta deste trabalho de captura dos bichos, aumentando mais ainda a necessidade de colaboração, de inclusão de novas operadoras, incentivo à pesquisa, para que o manejo continue”, destacou.

  • Ibama apreende 1 tonelada de pargo ameaçado de extinção

    Ibama apreende 1 tonelada de pargo ameaçado de extinção

    Uma operação de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) resultou na apreensão de quase uma tonelada de pescado ilegal nesta quinta-feira (11/12). A ação faz parte da Operação Kalunga Grande, iniciativa contínua de combate à pesca irregular na Região Norte do Brasil.

    Durante o monitoramento na costa paraense, agentes do Ibama identificaram uma embarcação pesqueira operando sem autorização para captura de pargo (Lutjanus purpureus), espécie classificada como ameaçada de extinção. Quando o barco atracou no município de Bragança, a equipe de fiscalização constatou mais de 950 kg de pescado irregular a bordo.

    A situação se agravou pelo histórico da embarcação: o barco já havia sido autuado anteriormente e estava com permissão de pesca suspensa. Mesmo sob sanção administrativa, o proprietário continuou exercendo a atividade ilegal, configurando reincidência.

    Multas ultrapassam R$ 1 milhão

    Diante das irregularidades constatadas, o proprietário da embarcação recebeu dois autos de infração. O valor total das multas aplicadas supera R$ 1 milhão. Além das penalidades financeiras, a embarcação foi apreendida pelas autoridades ambientais.

    Todo o pescado recolhido durante a operação foi doado ao Hospital Municipal de Bragança, garantindo o aproveitamento adequado do produto e beneficiando a comunidade local.

    Proteção da biodiversidade marinha

    A Operação Kalunga Grande representa o esforço permanente do Ibama na proteção da biodiversidade marinha brasileira. A iniciativa visa fiscalizar a atividade pesqueira na região e combater a exploração ilegal de espécies ameaçadas, contribuindo para a preservação dos recursos naturais e a sustentabilidade dos ecossistemas costeiros.

    O pargo (Lutjanus purpureus) é uma das espécies mais visadas pela pesca predatória devido ao seu alto valor comercial. A fiscalização rigorosa busca garantir a recuperação dos estoques pesqueiros e evitar o colapso populacional dessa espécie importante para o equilíbrio marinho.

  • Cientistas desvendam evolução de 46 espécies únicas de peixes em ilhas do Atlântico

    Cientistas desvendam evolução de 46 espécies únicas de peixes em ilhas do Atlântico

    Três pequenos arquipélagos perdidos no meio do Atlântico tropical guardam um tesouro científico. São Pedro e São Paulo, Ascensão e Santa Helena, separados por até 1.300 quilômetros de mar aberto, abrigam 46 espécies de peixes que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Pesquisadores brasileiros e internacionais reuniram pela primeira vez dados genéticos, biológicos e geográficos para reconstituir a história natural desses animais marinhos.

    O estudo, publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B, revela que as comunidades recifais das três ilhas formam um grupo coeso com origens evolutivas compartilhadas. As populações locais apresentam maior afinidade com o Atlântico Ocidental e se assemelham às espécies da costa brasileira e do Caribe.

    “Há décadas, talvez séculos, pesquisadores se perguntam como a fauna dessas ilhas se formou”, explica Isadora Cord, primeira autora do artigo e doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisa traça as rotas de dispersão das espécies que colonizaram os arquipélagos e revela conexões entre o Atlântico Ocidental, a costa africana e o Oceano Índico.

    Espécies mais antigas que as próprias ilhas

    A pesquisa aponta uma descoberta surpreendente: algumas espécies têm origens anteriores à formação das próprias ilhas. Certas linhagens superam 5 milhões de anos, mais antigas que a terra que ocupam atualmente. Outras espécies, porém, mostram origem recente.

    O grupo identificou um peixe novo para a ciência através de análise genética: um membro inédito do gênero Ophioblennius, comum nas ilhas do Atlântico tropical. O trabalho contou com parceria do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP e envolveu pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Técnica da Dinamarca e da Academia de Ciências da Califórnia.

    Arquipélagos funcionam como laboratórios naturais

    “São laboratórios naturais”, define Isadora sobre as ilhas oceânicas. Os ambientes isolados com comunidades reduzidas funcionam como palco perfeito para experimentos biogeográficos. A pesquisadora explica que fatores ambientais, como o clima, e históricos, como a transformação dos continentes ao longo das eras geológicas, isolam populações da mesma espécie e moldam a diversidade animal.

    O isolamento e as populações pequenas possibilitam o estudo da evolução. Os indivíduos isolados passam a se reproduzir apenas entre si e, com o tempo, originam novas espécies. O processo ocorre quando barreiras biogeográficas limitam o movimento dos organismos. Os animais que surgem nessas ilhas se tornam endêmicos da região.

    Barreiras oceânicas de diferentes intensidades

    As barreiras variam em intensidade. As mais rígidas impossibilitam a circulação de animais e, consequentemente, de material genético. “Um exemplo clássico é o Istmo do Panamá”, diz Isadora, sobre a faixa de terra que conecta a América do Sul com a do Norte e separa o Oceano Atlântico do Pacífico. “É impossível que um peixe atravesse. Ele não consegue atravessar a terra de jeito nenhum”.

    Outras barreiras, mais suaves, dificultam a propagação das espécies, mas não a impedem. Temperatura, salinidade e correntes oceânicas exemplificam esse caso. São fatores que se tornam mais agressivos em águas abertas. As ilhas, então, se tornam refúgios.

    “É como se o mar fosse um deserto, e a costa dos continentes e as ilhas oceânicas fossem oásis”, afirma Isadora. Os arquipélagos fornecem as condições necessárias para receber peixes adaptados à costa continental.

    Espécies brasileiras migraram contra a corrente

    “Talvez exista uma migração por osmose das espécies do Brasil”, afirma Gabriel Araújo, pesquisador do Cebimar e coautor do artigo. Mesmo nadando contra a corrente, literalmente, as espécies brasileiras são geneticamente próximas das encontradas nas três ilhas. Os pesquisadores levantam a hipótese de que a diversidade de peixes no Atlântico Ocidental impulsiona a colonização de ilha em ilha.

    Chaetodon sanctaehelenae é um tipo de peixe-borboleta. É uma outra espécie abundante nas ilhas de Ascensão e Santa Helena, porém, restrita a elas. Foto: Cedida pela pesquisadora

    “Através das análises genéticas e históricas, vimos que algumas espécies usaram ilhas como trampolins para chegar ao meio do Atlântico”, resume Araújo.

    Comunidades recifais formam família biogeográfica

    Os peixes “primos” formam uma espécie de família. As comunidades recifais das três ilhas integram uma mesma unidade biogeográfica, um espaço que compartilha características ambientais e história evolutiva das espécies que nele habitam.

    Ascensão e Santa Helena apresentam maiores similaridades entre si do que quando comparadas a São Pedro e São Paulo. Mesmo assim, os arquipélagos compartilham 44 espécies com a costa brasileira e com o Caribe.

    A pesquisa identificou 11 espécies que ocorrem exclusivamente em ilhas oceânicas atlânticas e no Atlântico Leste, próximo à costa africana. Outras 74 ocorrem em ambos os lados do oceano e 44 são endêmicas das ilhas da dorsal mesoatlântica, três delas presentes simultaneamente nos três arquipélagos estudados.

    Relógios moleculares datam divergência evolutiva

    “Com os avanços das técnicas, pudemos realizar o estudo de uma forma mais moderna”, diz Isadora. No processo de identificação dos peixes e de seus ancestrais, a equipe empregou os relógios moleculares, método de análise genética que possibilita estimar o tempo de divergência entre linhagens.

    “A ideia é simples: a cada 2 milhões de anos há uma mudança de 1% em uma parcela do genoma dos vertebrados”, explica Araújo. “Com isso, conseguimos estimar há quanto tempo duas espécies se separaram e reconstruir sua história evolutiva.”

    “Conseguimos datar quando um indivíduo deixou de ser ancestral e se tornou uma nova espécie”, acrescenta Isadora. Segundo os autores, depois da filogenia das análises moleculares, podem separar melhor as espécies. Dessa forma, esmiúçam os detalhes genéticos de cada animal, o que possibilita revelar espécies crípticas, aquelas cuja distinção é invisível a olho nu.

    Nova espécie de peixe aguarda descrição formal

    A nova espécie identificada no artigo ainda carece de descrição completa para confirmar sua independência no gênero Ophioblennius. Os pesquisadores afirmam, porém, que geneticamente ela se diferencia de seus “primos” Ophioblennius atlanticus, também habitante das ilhas estudadas, e Ophioblennius trinitatis, que vive mais próxima à costa brasileira, no arquipélago de Trindade e Martim Vaz, a 1.100 quilômetros da costa capixaba. Pequenas diferenças comportamentais e de hábitat sugerem que sejam de linhagens distintas.

    O bodião Thalassoma sanctahelenae é outra espécie endêmica encontrada em Ascensão e Santa Helena. Foto: Cedida pela pesquisadora

    “Durante muito tempo se acreditou que havia apenas uma espécie em todo o Atlântico. Mas a análise genética mostrou que são grupos muito distintos”, diz Araújo. As linhagens, ainda que de mesma aparência, são distintas e muitas vezes resultam de um evento recente de especiação, quando o isolamento transforma parentes em espécies diferentes.

    Conhecimento científico apoia conservação marinha

    “Essas ilhas, pela dificuldade de acesso, foram negligenciadas em muitos estudos”, afirma Araújo. “Mas são lugares únicos no mundo, fundamentais para entender como acontecem os processos de especiação e dispersão no ambiente marinho.”

    A identificação de novas espécies e o estudo dos animais que habitam regiões remotas são, para os cientistas, estratégias para a conservação. Para Isadora, mostrar a complexidade dos ecossistemas e destacar que existem mais espécies do que se pensa, algumas ainda não identificadas, é fundamental: “Isso ajuda a convencer a conservar, sabe?”.

    As espécies endêmicas, para Araújo, “são presentes da natureza”. O pesquisador explica que, por serem únicas e viverem em lugares remotos, têm populações pequenas e vulneráveis. Segundo ele, ainda que os peixes endêmicos estejam estabelecidos enquanto espécie há milhões de anos, eles ainda estão no limiar da extinção. “Se por acaso acontecer algum evento que possa ser um distúrbio para o ambiente e para as espécies, é muito provável que elas entrem em extinção, porque a população é muito pequena.”

    Com informações do Jornal da USP

  • Embrapa e ICMBio lançam projeto pioneiro para rastrear atum brasileiro

    Embrapa e ICMBio lançam projeto pioneiro para rastrear atum brasileiro

    A Embrapa e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) firmaram um acordo inédito para implementar um sistema de rastreabilidade eletrônica do atum brasileiro, desde a captura até a exportação. O projeto, desenvolvido em parceria com a Paiche Consultoria, integra o Sistema Brasileiro de Agrorrastreabilidade (SIBRAAR). E promete revolucionar o setor pesqueiro, alinhando qualidade, sustentabilidade e acesso a mercados globais exigentes.

    Tecnologia SIBRAAR: transparência desde o oceano até a mesa

    O SIBRAAR, plataforma digital liderada pela Embrapa, permitirá o monitoramento em tempo real de todas as etapas da cadeia produtiva do atum – da pesca em unidades oceânicas gerenciadas pelo ICMBio, passando pelo processamento e transporte, até chegar ao consumidor final. A ferramenta garante auditoria completa, com dados sobre origem, métodos de captura e práticas ambientais, atendendo a regulamentações internacionais como o combate à pesca ilegal.

    O projeto piloto abrange quatro Unidades de Conservação Federais, que representam 25% da Zona Econômica Exclusiva do Brasil. Segundo Mônica Peres, analista ambiental do ICMBio e coordenadora da iniciativa, a rastreabilidade é “um passo ousado para proteger a biodiversidade marinha. E incentivar práticas responsáveis”. Já Alexandre de Castro, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, destaca que a iniciativa “agrega valor ao setor pesqueiro e empodera o consumidor, que terá acesso a informações cruciais sobre o produto”.

    A rastreabilidade não só fortalece a segurança alimentar, mas também abre portas para mercados premium, como Europa e EUA, onde consumidores priorizam origem ética e sustentável. Cintia Miyaji, consultora da Paiche, reforça: “É uma demanda global. Compradores responsáveis exigem garantias de que o pescado não ameaça os ecossistemas marinhos”.

    Impacto econômico e ambiental

    Além de reduzir riscos de descumprimento de normas internacionais, o projeto promete:

    • Aumentar a competitividade do atum brasileiro no exterior;
    • Fomentar a economia azul, integrando pescadores a cadeias de valor sustentáveis;
    • Combater a pesca predatória, com dados precisos sobre capturas.

    Unidades da Embrapa dedicadas ao projeto, como Agricultura Digital e Pesca e Aquicultura, já trabalham na customização do SIBRAAR para o atum – primeiro pescado marinho rastreado digitalmente no país.

    A expectativa é que, após a fase piloto, o sistema seja expandido para outras espécies, consolidando o Brasil como referência em pesca sustentável. Com transparência e inovação, a iniciativa prova que proteger os oceanos e impulsionar a economia podem – e devem – caminhar juntos.

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  • 866 novas espécies marinhas são descobertas em projeto de pesquisa

    866 novas espécies marinhas são descobertas em projeto de pesquisa

    Uma colaboração internacional liderada pelo Ocean Census (Censo do Oceano) anunciou a descoberta de 866 novas espécies marinhas em expedições recentes, incluindo um tubarão híbrido, caramujos predadores com “arpões” tóxicos e estrelas-do-mar em fontes hidrotermais do Ártico. O projeto, fundado em 2023 pela Nippon Foundation e pela Nekton, mobilizou 400 instituições e 93 cientistas para acelerar o mapeamento da vida marinha — hoje estimada em 90% ainda desconhecida.

    Expedições em águas profundas revelam espécies raras

    Com mergulhadores, robôs submarinos e submersíveis capazes de atingir 5.000 metros de profundidade, as missões exploraram regiões como a costa da África, o Pacífico Sul e o Ártico. Entre os achados mais impressionantes estão:

    • Tubarão-guitarra (Rhinobatos): Encontrado a 200m de profundidade na África, combina traços de tubarões e raias. Duas em cada três espécies da família estão ameaçadas de extinção.
    • Reprodução: the Nippon Foundation /Nekton Ocean Census
    • Caracol assassino (Turridrupa sp): Descoberto no Pacífico Sul, usa “arpões” venenosos para caçar presas em águas profundas.
    • Reprodução: the Nippon Foundation /Nekton Ocean Census
    • Estrela-do-mar do Ártico (Tylaster sp.): Vive a quase 3.500m de profundidade em fontes hidrotermais próximas à Groenlândia.
    • Reprodução: the Nippon Foundation /Nekton Ocean Census

    Por que a descoberta de espécies importa?

    Segundo a Dra. Michelle Taylor, líder do Ocean Census, “o oceano cobre 71% do planeta, mas conhecemos apenas 10% de sua biodiversidade”. A lentidão na catalogação — que pode levar 13,5 anos — preocupa: muitas espécies podem desaparecer antes de serem registradas.

    Em 2023, a ONU aprovou um tratado para proteger a vida marinha em alto-mar, enquanto mais de 100 países, incluindo os EUA, prometeram preservar 30% dos oceanos até 2030. Para Dave Ebert, do Pacific Shark Research Institute, cada nova espécie descoberta é “uma chance de criar estratégias de conservação antes que seja tarde”.

    O diretor do Ocean Census, Oliver Steeds, destacou que o projeto já realizou 10 expedições globais e oito workshops para treinar cientistas. A meta é usar dados coletados para pressionar por políticas de preservação, especialmente em áreas ainda inexploradas, como o fundo do mar.

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