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  • Artigo: Logística demanda otimização

    Artigo: Logística demanda otimização

    Um dos mais marcantes fenômenos observados na economia agrícola brasileira nas últimas décadas, e de forma acelerada nos anos mais recentes, é a verdadeira revolução no seu arranjo espacial. Os negócios agropecuários foram ocupando áreas de fronteiras, como o Norte e o Centro-Oeste, além de vastas áreas do Nordeste, em geral através de atividades que incorporam modernas tecnologias de produção. Paralelamente, fornecedores de insumos, armazenadores e indústrias de processamento vão se aglomerando ao redor das zonas de produção, visando principalmente a minimização dos custos de transporte envolvidos, atendendo assim aos princípios de racionalidade econômica.

    Ressalte-se que a motivação fundamental para a busca dessa otimização é a necessidade de se incrementar a competitividade dos produtos nacionais face à concorrência externa resultante, o que implicará não somente a redução de custos referentes às operações de exportação mas também a diminuição de espaços para as tentativas de avanço dos produtos importados.

    Os projetos de infraestrutura de transportes, em particular, têm dito respeito a basicamente quatro vertentes: o modelo intermodal, a descentralização da malha rodoviária federal, a integração continental e a privatização da operação portuária.

    É interessante notar que a maioria dos novos projetos de infraestrutura de transporte se apoiam em projeções de movimentação de grãos e de seus derivados, tanto em regiões tradicionais quanto nas chamadas novas fronteiras agrícolas. Há de certa forma uma relação de dependência da viabilidade/sucesso desse novos empreendimentos para com um negócio tipicamente monocultural. Por outro lado, são claras as preocupações, e ações, das empresas dos complexos de grãos, relacionadas a questões logísticas.

    Potenciais de crescimento

    Se a vantagem logística pode ser um diferencial significativo de competitividade, há também que se considerar os potenciais de crescimento tanto de produção quanto de demanda pelos produtos específicos.

    Note-se também que, em muitas situações, os embarcadores exigem, mas não querem pagar mais pela qualidade. E nem sempre qualidade deverá custar mais. Quando o embarcador começa a exigir qualidade de uma transportadora (ou de um operador logístico), poderá também nascer uma maior parceria, que poderá gerar ganhos tanto no volume de carga quanto em termos de redução de custos, ou seja, um transportador (por exemplo) passa a exigir um maior volume de carga em troca de valores menores de frete.

    Algumas agroindústrias, ao optarem pela terceirização de seus serviços de transportes, cuidam para que seus colaboradores sintam-se protegidos, formando um elenco de agregados que prestam serviços exclusivos à empresa. Uma das maneiras de “conquistar” esses transportadores diz respeito ao esforço da empresa embarcadora para conseguir cargas de retorno, mesmo que isso venha a implicar algum tipo de triangulação.

    Há que se ressaltar que, ainda que a opção pelo transporte exclusivamente rodoviário não deva ser algo desejável economicamente, é de extrema importância que a estrutura física das rodovias esteja em plenas condições de uso, pois essa modalidade de transporte é a única que permite o transporte chamado “ponto-a-ponto”, função esta extremamente importante.

    Redução de custos

    Vale ressaltar que, num provável contexto intermodal, será de fundamental importância a ágil e eficiente manipulação de cargas através de embalagens com características unitizadas, tais como os contêineres e afins.

    Em termos de novos paradigmas a serem observados, chama a atenção a expectativa das medidas referentes à redução dos custos de transporte, no curto prazo, que devem dizer respeito ao aumento da produtividade dos veículos diversos, visando a melhoria dos processos de carga e descarga, incrementando a segurança e gerenciando de forma eficiente as eventuais cargas de retorno.

    Lembre-se também que políticas regulatórias não devem impor custos excessivos. Leis federais, estaduais e municipais pertinentes devem tratar cuidadosamente de: avaliação de custos e benefícios de investimentos em transporte; comparações entre todas as alternativas; efeitos na competição entre modalidades de transportes; efeitos na competição internacional; evitar inconsistências / duplicações.

    A visão sistêmica dos diversos eixos viários de nosso País deve ser clara e também atualizada sistematicamente. Isto favorecerá não só a identificação de investimentos apropriados em infraestrutura (essenciais para a competitividade, desde que  voltados para o incremento da produtividade de serviços que se revelem, efetivamente, viáveis economicamente), assim como a detecção de desinvestimentos em infraestrutura que não mais venha a contribuir para o crescimento econômico (o que poderá envolver inclusive a desativação de ramais ferroviários, ou até mesmo de trechos rodoviários, dentro de um plano bem consubstanciado de manutenção e conservação do sistema viário brasileiro).

    Moral da história?

    Sim, vamos ter que continuar a fazer o uso predominante da modalidade de transporte rodoviário para a movimentação das nossas cargas agrícolas ao longo dos próximos 15, 20 anos… Por quê? Porque mudanças estruturais demandam médio e longo prazos. Porque tudo é muito demorado quando se fala, se pensa e se planeja a reorientação de nossa matriz de transportes. E mesmo com todas as ressalvas e incertezas que estão por trás de qualquer exercício de previsão, essa reorientação – mesmo que no longo prazo –parece clara e inevitável, tanto para embarcadores quanto para transportadores.

    Nesse sentido, o uso de ferramentas (de Inteligência Artificial, inclusive) de modelagem, para cenários diversos, estão se tornando imprescindíveis na referenciação das tomadas de decisões de agentes representativos de mercado.

    José Vicente Caixeta Filho ([email protected]) é ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e consultor na empresa cAIxeta Inteligência Logística

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

  • Artigo: O papel do consultor na rastreabilidade da cadeia de carne

    Artigo: O papel do consultor na rastreabilidade da cadeia de carne

    A rastreabilidade na cadeia frigorífica se tornou um pilar essencial não apenas para a segurança alimentar e a credibilidade do setor, mas também para a sustentabilidade e a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança). Em um mercado cada vez mais regulado, globalizado e atento à origem dos alimentos, garantir o controle do campo ao consumidor final é um desafio estratégico para a competitividade do setor de carnes no Brasil. Nesse cenário, o papel do consultor especializado se torna fundamental.

    A cadeia da carne envolve múltiplos elos, desde a produção animal, passando pelo transporte, abate, processamento, armazenamento e distribuição. Cada etapa exige controle rigoroso de dados, cumprimento de normas sanitárias, ambientais e trabalhistas, além de padrões de qualidade cada vez mais exigentes pelos mercados interno e internacional. A rastreabilidade, portanto, vai muito além da adoção de sistemas tecnológicos. Ela depende de processos bem estruturados, pessoas capacitadas e de uma visão sistêmica orientada à sustentabilidade.

    Sob a ótica ambiental, a rastreabilidade é uma ferramenta estratégica no combate ao desmatamento ilegal, um dos principais desafios do setor pecuário. Por meio do monitoramento da origem dos animais e da qualificação dos fornecedores, é possível cruzar dados produtivos, geográficos e ambientais, garantindo que a produção não esteja associada a áreas irregulares.

    O consultor atua de forma decisiva ao mapear riscos, orientar adequações e assegurar conformidade com a legislação ambiental e com compromissos de desmatamento zero, reduzindo riscos reputacionais e comerciais.

    Monitoramento de emissões

    Outro aspecto cada vez mais relevante é o monitoramento das emissões de carbono ao longo da cadeia produtiva. Com dados confiáveis e bem estruturados, frigoríficos e indústrias conseguem identificar etapas mais intensivas em emissões, apoiar inventários de gases de efeito estufa e desenvolver estratégias de mitigação. Nesse contexto, o consultor contribui para transformar informações operacionais em inteligência estratégica, apoiando decisões alinhadas às metas climáticas e às exigências de investidores e mercados internacionais.

    A rastreabilidade também favorece o uso racional de recursos naturais, como água, energia e insumos produtivos. Ao acompanhar cada etapa do processo, torna-se possível identificar desperdícios, padronizar operações e adotar práticas mais eficientes. A atuação consultiva auxilia na implementação de controles e tecnologias que promovem ganhos ambientais e econômicos, fortalecendo a eficiência operacional da cadeia.

    No eixo social, o tema do bem-estar animal ganha cada vez mais relevância no debate público e no consumo consciente. A rastreabilidade assegura registros sobre manejo, transporte e abate, garantindo conformidade com protocolos técnicos e normas nacionais e internacionais. O consultor especializado orienta a adoção de boas práticas, o treinamento das equipes e a preparação para auditorias. Assim, contribuindo para elevar os padrões do setor e agregar valor ao produto final.

    Agente integrador

    Nesse cenário complexo, o consultor atua como um agente integrador. Ele é responsável por mapear processos, identificar riscos, corrigir falhas e orientar a implementação de práticas que garantam uma rastreabilidade efetiva. Seu trabalho começa no diagnóstico da operação, avaliando desde a origem da matéria-prima até os registros finais de expedição. Assegurando que as informações sejam confiáveis, auditáveis e alinhadas às exigências legais, ambientais e de mercado.

    Além disso, a crescente demanda por tecnologias aplicadas à cadeia da carne, como sistemas de gestão integrados, automação de registros, códigos de identificação e soluções digitais de monitoramento em tempo real, reforçam o papel estratégico do consultor. Mais do que indicar ferramentas, ele garante que essas soluções sejam corretamente implementadas, integradas aos processos existentes e compreendidas pelas equipes envolvidas.

    Por fim, a rastreabilidade se consolida como um pilar de transparência para investidores, clientes e consumidores. Dados claros e auditáveis fortalecem a governança corporativa, ampliam o acesso a mercados e permitem uma comunicação mais consistente sobre compromissos ESG. O consultor especializado atua como elo entre a indústria, os órgãos reguladores e o mercado. Ajudando empresas a se posicionarem de forma responsável, competitiva e preparada para o futuro.

    Quando bem estruturada, a rastreabilidade fortalece a reputação da marca, amplia oportunidades comerciais e contribui para uma cadeia da carne mais segura, sustentável, transparente e eficiente para todos os envolvidos.

    Paulo Duque, é consultor na área frigorífica e CEO do Rei da Linguiça

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

  • Revista científica retira estudo sobre segurança do glifosato após 25 anos

    Revista científica retira estudo sobre segurança do glifosato após 25 anos

    A revista científica norte-americana Regulatory Toxicology and Pharmacology despublicou oficialmente um artigo de 2000 que defendia a segurança do glifosato, agrotóxico mais utilizado no mundo. A decisão expõe problemas éticos, falta de integridade científica e levanta dúvidas sobre os resultados da pesquisa que influenciou políticas regulatórias em diversos países, incluindo o Brasil.

    Gary M. Williams, Robert Kroes e Ian C. Munro assinaram o estudo publicado em abril de 2000, que concluía que o glifosato não representava risco de desenvolvimento de câncer em humanos. No entanto, documentos internos da Monsanto divulgados em 2017 durante processos judiciais nos Estados Unidos, conhecidos como “Monsanto Papers”, revelaram que funcionários da empresa ajudaram a redigir o artigo sem o devido reconhecimento como coautores.

    Em um e-mail de 2015, William Heydens, executivo da Monsanto, sugeriu repetir a estratégia adotada no artigo de 2000. “Uma opção seria manter os custos baixos fazendo nós mesmos a redação e eles apenas editariam e assinariam seus nomes, por assim dizer. Lembre-se que foi assim que lidamos com Williams, Kroes e Munro, 2000”, escreveu Heydens, segundo documentos judiciais.

    O editor-chefe da revista, Martin van den Berg, destacou em comunicado de dezembro de 2025 várias “preocupações” e “problemas críticos” no estudo. Entre eles, a falta de clareza sobre os verdadeiros autores do texto e a ausência de menção ao envolvimento de funcionários da Monsanto, atualmente parte do grupo Bayer, na redação do artigo.

    O artigo também baseou suas conclusões exclusivamente em estudos não revisados por pares e fornecidos pela própria Monsanto. Portanto, ignorando pesquisas já publicadas à época que contradiziam suas conclusões. Além disso, investigações indicam que os autores podem ter recebido compensações financeiras não divulgadas da empresa.

    Estudo influenciou regulamentação do glifosato no Brasil e no mundo

    A pesquisa exerceu influência significativa em debates regulatórios sobre o uso de agrotóxicos globalmente. No Brasil, o artigo foi um dos estudos científicos citados no processo de reavaliação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que manteve a substância autorizada no país. O processo iniciou em 2008 e concluiu em 2019, quando a Anvisa determinou que o agrotóxico não causava prejuízos à saúde.

    Pesquisadores Alexander Kaurov, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, e Naomi Oreskes, historiadora da ciência da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, solicitaram formalmente a retratação do artigo. Em análise publicada em setembro de 2024, eles descobriram que o artigo está entre os 0,1% mais citados na literatura acadêmica sobre glifosato.

    Van den Berg tentou, sem sucesso, obter esclarecimentos do único autor ainda vivo, Gary M. Williams. Robert Kroes faleceu em 2006 e Ian Munro em 2011. A despublicação seguiu uma análise cuidadosa das diretrizes do COPE (Committee on Publication Ethics), que regem o comportamento acadêmico.

    Anvisa utilizou estudo controverso na reavaliação do agrotóxico no Brasil

    O glifosato serve como base para mais de cem produtos disponíveis no mercado brasileiro, com uso em plantações agrícolas e também em jardins. Em 2015, durante o processo de reavaliação no Brasil, a IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), ligada à OMS (Organização Mundial da Saúde), classificou a substância como “provavelmente cancerígena” em humanos.

    Procurada pela imprensa, a Anvisa informou que “qualquer consideração seria necessário a avaliação da área técnica”. E destacou que o artigo em questão “não foi o único dado, pesquisa ou informação utilizada para avaliação da Anvisa”. A agência afirmou que, para o processo de reavaliação, analisa um conjunto extenso de dados e estudos relacionados ao tema.

    Karen Friedrich, toxicologista do Grupo Temático de Saúde e Ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), observa que a prática de “ghostwriting” aparece diversas vezes nos Monsanto Papers. Indicando que funcionários da Monsanto teriam escrito outros artigos assinados posteriormente por cientistas e publicados em revistas científicas.

    Bayer afirma que glifosato é seguro e usado há mais de 40 anos

    A Bayer, em nota enviada à imprensa, afirmou que o glifosato tem sido usado “com segurança e sucesso em todo o mundo há mais de 40 anos”. A empresa declarou ainda acreditar que “o envolvimento da Monsanto foi adequadamente citado nos agradecimentos”. E que “o consenso entre órgãos reguladores em todo o mundo que conduziram suas próprias avaliações independentes baseadas no peso das evidências é que o glifosato pode ser usado com segurança conforme orientado e não é cancerígeno”.

    A Bayer adquiriu a Monsanto em 2018 por US$ 63 bilhões e herdou um passivo de mais de 67 mil processos judiciais nos Estados Unidos. Ações movidas por vítimas de câncer resultaram em bilhões de dólares em indenizações, e a empresa já pagou US$ 11 bilhões para resolver extrajudicialmente mais de 100 mil processos.

    Em janeiro de 2024, um júri da Pensilvânia condenou a Bayer ao pagamento de US$ 2,25 bilhões após concluir que a Monsanto “não alertou sobre os perigos” do Roundup. A empresa aguarda decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a admissibilidade de um novo recurso relacionado aos litígios do glifosato.

    Especialistas pedem nova reavaliação do produto no país

    Alan Tygel, membro da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, afirma que a despublicação do artigo “coloca em xeque o próprio resultado da reavaliação da Anvisa”. Ele defende que a reavaliação de agrotóxicos no Brasil deve ser iniciada quando há informações científicas novas sobre os produtos que estão em uso. E propõe que a venda desses agrotóxicos seja liminarmente suspensa para proteger a saúde das pessoas.

    Karen Friedrich também defende que “a Anvisa deveria colocar o glifosato em reavaliação novamente, porque as pessoas estão adoecendo e morrendo por conta desse agrotóxico”.

    A despublicação reforça as suspeitas sobre os danos da substância à saúde humana. E abre caminho para novos questionamentos à comercialização do produto no Brasil e no mundo. O advogado Brent Wisner, que representou vítimas em processos contra a Monsanto, classificou o estudo como “o exemplo por excelência de como empresas como a Monsanto podem minar fundamentalmente o processo de revisão por pares através de ghostwriting, seleção tendenciosa de estudos não publicados e interpretações enviesadas”.

  • Seguro rural e tecnologia são os alicerces do agro do futuro

    Seguro rural e tecnologia são os alicerces do agro do futuro

    A quantidade de pedidos de recuperação judicial no agro praticamente explodiu em 2024. Foram quase 1.300 solicitações no ano, mais que o dobro do registrado em 2023. O dado expõe uma realidade incômoda: a vulnerabilidade financeira do setor segue alta, e a urgência por proteção estratégica nunca foi tão clara. Entre as principais saídas, o seguro rural se consolida como ferramenta essencial para mitigar riscos e evitar prejuízos que podem comprometer toda uma operação.

    Apesar de o seguro rural ter sido criado, por lei, em 2003, sua adesão ainda é muito baixa. Apenas cerca de 10% da área agrícola brasileira é segurada, em contraste com uma fatia de 80% nos Estados Unidos. A ferramenta é essencial para protegero produtor, o sistema financeiro, a cadeia de insumos e as finanças públicas, especialmente diante das mudanças climáticas e instabilidades de mercado. Além disso, globalmente, movimentos como o “tarifaço”, nos Estados Unidos, também aumentam as oscilações nos preços das commodities, encarecendo insumos essenciais para as operações no campo.

    Mudanças climáticas

    E é claro, não podemos esquecer das mudanças climáticas. Uma das pautas mais importantes em todo o mundo na atualidade, esses eventos extremos promovem várias imprevisibilidades para o agro, não apenas travando entregas, mas também prejudicando a cadeia produtiva como um todo do dia para a noite.

    As enchentes que impactaram o Rio Grande do Sul em 2024 são exemplos disso. Não à toa, o Comitê Gestor Interministerial do Seguro Rural alterou a distribuição do orçamento de mais de R$ 1 bilhão do PSR (Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural), disponibilizando R$ 210 milhões para auxiliar os produtores do estado, segundo o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária).

    O alto custo é um obstáculo, agravado pela falta de subsídios suficientes do governo para o prêmio do seguro.  Por isso, iniciativas como o projeto de lei 2951/2024, que busca estruturar um fundo de catástrofe, são vistas como um avanço importante para o futuro do agronegócio brasileiro.

    Isso reforça que o seguro rural é um mecanismo essencial de proteção para cobrir perdas. Só esse fator já traria mais previsibilidade de receita para as empresas, uma vez que a continuidade das operações estaria garantida. No entanto, a estabilidade na produção e no abastecimento é fortalecida por outras diversas vantagens, que ajudam as empresas a planejar uma jornada de crescimento sem surpresas negativas.

    É o caso da facilidade de obtenção de crédito, por exemplo. Instituições financeiras enxergam com bons olhos os recursos que asseguram a confiabilidade das atividades dos produtores, confiando que os recursos disponibilizados trarão um bom retorno. Ou ainda podemos citar o próprio fortalecimento da cadeia de suprimentos, uma vez que reduz o risco de calote a fornecedores.

    Por que a adesão ao seguro rural ainda é baixa no Brasil?

    Apesar das suas inúmeras vantagens, o seguro rural ainda não foi abraçado como poderia no território brasileiro. O principal motivo disso é a assimetria de informações. Instituições financeiras têm dificuldades em obter dados básicos e atualizados sobre as propriedades rurais, como tipo de cultura, datas de plantio e aderência ao ZARC (Zoneamento Agrícola de Risco Climático).

    Isso sem entrar no mérito de outros agravantes, como as grandes distâncias físicas entre centros financeiros e áreas rurais, que impõe custos elevados e baixa capilaridade. Ou até mesmo a própria ineficiência da regulação de sinistros, que exige presença em campo e processos manuais.

    A tecnologia como resposta

    Hoje, já existem soluções digitais que podem sanar as dores dos seguros rurais tradicionais, conectando todos os elos da cadeia em uma plataforma integrada e com base em informações confiáveis, automatizadas e auditáveis. Basicamente, isso funciona como uma lente permanente sobre o campo, mostrando em poucos cliques os caminhos para trazer mais eficiência à operação.

    A subscrição, por exemplo, passa a ser muito mais segura e personalizada com a tecnologia. Além disso, dados georreferenciados são capazes de avaliar riscos com maior precisão, permitindo a liberação de apólices com base em critérios técnicos. Já o monitoramento remoto e contínuo por satélite ajuda a prever adversidades — como tempestades e secas —, de forma que o produtor possa atuar preventivamente. Nesse sentido, o acesso a imagens e informações históricas de uma determinada região também promove controle automatizado e à distância de sinistros, apoiando e facilitando o trabalho dos peritos.

    Menos burocracia

    A própria contratação do seguro também passa a ser menos burocrática, uma vez que a digitalização acelera o processo e reduz a dependência de visitas in loco, inclusive com facilidades para liberação de subvenções.

    Ou seja, todos os desafios operacionais, logísticos e informacionais que impedem a adoção dessa ferramenta em larga escala são solucionados. A longo prazo, isso não só protege o negócio, mas também alavanca o crescimento sustentável do setor.

    Com o apoio da tecnologia, o seguro rural tem tudo para se tornar uma infraestrutura essencial para o agro brasileiro. O futuro do segmento já chegou, só precisa ser compreendido e colocado em prática por completo.

    Créditos: Agrotools/Divulgação

    *Sergio Rocha é CEO da Agrotools. Com mais de 30 anos de experiência em áreas como commodities agrícolas, serviços financeiros, tecnologia, comércio internacional, dados e geotecnologia.

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

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  • Artigo: Impactos da Lei do Autocontrole na cadeia produtiva de alimentos e bebidas

    Artigo: Impactos da Lei do Autocontrole na cadeia produtiva de alimentos e bebidas

    Nos últimos anos, o Brasil tem promovido significativas transformações no setor agropecuário e na indústria de alimentos e bebidas. A implementação de normativas como a Lei 14.515/2022, que cria o Sistema Nacional de Política Agrícola (SNPA), e a Lei do Autocontrole, recentemente reforçada pelo Decreto 12.126/2024, que estabelece o dever para empresas do setor agropecuário em implementar sistemas próprios para garantir a qualidade e segurança dos seus produtos, são exemplos disso.

    Esse arcabouço legal propõe uma modernização ampla da fiscalização e regulação da cadeia produtiva agroindustrial, reduzindo a necessidade da fiscalização direta do governo e tornando os processos mais ágeis, sem comprometer a segurança alimentar e a conformidade com as normas sanitárias.

    Porém, com essas mudanças também surgem desafios, preocupações e oportunidades que precisam ser analisadas à luz do contexto jurídico e da realidade do setor produtivo brasileiro.

    A Lei de Autocontrole estabelece programas de controle para agentes privados no setor agropecuário, auxiliando com diretrizes para a política agrícola no Brasil, no intuito de integrar as iniciativas públicas e privadas. Entre seus principais pilares estão a segurança alimentar, a competitividade, a sustentabilidade e o fomento à inovação tecnológica.

    Essa Lei pode ser considerada uma espinha dorsal para a organização do setor, criando o contexto necessário para que legislações específicas possam ser implementadas de maneira eficiente e integrada.

    Maior responsabilidade às empresas

    O propósito da Lei do Autocontrole, por sua vez, é transferir maior responsabilidade às empresas da cadeia produtiva, exigindo que desenvolvam sistemas próprios de monitoramento e controle, para garantir qualidade e segurança de seus produtos e desburocratizar a fiscalização estatal. Desse modo, o Decreto 12.126/2024, publicado em agosto de 2024, detalha os requisitos da Lei do Autocontrole e operacionaliza sua aplicação. Ele exige que os agentes econômicos implementem programas de autocontrole com registros auditáveis de todo o processo produtivo, planos de recolhimento (recall) em caso de não conformidades, procedimentos para correção de desvios e prevenção de falhas e adequação a normas higiênico-sanitárias.

    Além disso, o decreto introduz a fiscalização baseada em risco, permitindo ao Estado concentrar seus recursos nas situações de maior vulnerabilidade. Na prática, isso significa que o governo dará maior atenção a empresas ou setores com maior histórico de não-conformidades. Companhias que aderirem ao Programa de Incentivo à Conformidade Agropecuária tendem a se beneficiar com menor frequência de inspeções presenciais.

    Enquanto o arcabouço legal pode gerar custos iniciais de adequação, como implementação de sistemas de autocontrole e treinamentos, a longo prazo, as empresas tendem a obter vantagens em redução de custos operacionais com fiscalizações estatais, maior previsibilidade e segurança jurídica e melhor acesso a mercados internacionais que exigem altos padrões de qualidade. Além disso, também promove práticas mais responsáveis e sustentáveis na produção de alimentos e bebidas.

    A falta de preparo técnico para gestores e trabalhadores na adoção das novas práticas exigidas e fiscalização efetiva, que ainda depende de estrutura adequada do Estado, também são desafios que podem ser superados com o tempo.

    Como superar os obstáculos

    Além disso, a implementação de subsídios ou incentivos fiscais para que pequenos e médios produtores possam aderir aos sistemas de autocontrole sem comprometer sua viabilidade econômica, a expansão de programas de extensão rural e treinamento e o investimento na modernização de sistemas digitais para acompanhamento em tempo real das cadeias produtivas são aspectos que podem acelerar a superação desses obstáculos iniciais.

    A Lei do Autocontrole, aprimorada recentemente pelo Decreto 12.126/2024, marca um passo significativo para modernizar e tornar mais eficiente a regulação do setor agroindustrial brasileiro. No entanto, o sucesso dessas medidas depende de um equilíbrio entre exigências regulatórias e suporte ao setor produtivo. Assim, garantindo que os avanços sejam inclusivos e sustentáveis.

    Além do mais, como o decreto regulamentador introduz a possibilidade de fiscalização privada, já começaram a surgir ruídos políticos sobre o tema a exemplo do Grupo de Trabalho (GT) recentemente criado pelo Governo Federal para avaliar os impactos que essa delegação à iniciativa privada poderá ter no crivo necessário para avaliação do cumprimento das exigências regulatórias.

    Com ajustes pontuais e um diálogo constante entre o governo, o setor privado e a sociedade civil, o Brasil tem a oportunidade de consolidar sua posição como um líder global na produção de alimentos e bebidas com qualidade, segurança e responsabilidade ambiental.

    *João Máximo é advogado cível do Marcos Martins Advogados

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  • Do campo ao mundo: o poder da IA no agronegócio brasileiro

    Do campo ao mundo: o poder da IA no agronegócio brasileiro

    Um dos setores mais estratégicos da economia brasileira, o agronegócio, vem presenciando uma transformação em sua cadeia de produção e exportação. Com cada vez mais demandas por alimentos, eficiência, agilidade e sustentabilidade, empresas do segmento investem em ferramentas tecnológicas para atender as demandas do negócio.

    Segundo a McKinsey, a adoção tecnológica na agricultura brasileira cresceu mais de 10 pontos percentuais entre 2022 e 2023, posicionando o Brasil como o segundo país com maior crescimento entre os pesquisados.

    No centro desse movimento, está a Inteligência Artificial. Soluções que até pouco tempo pareciam futuristas já fazem parte da rotina de muitas operações agrícolas. Essas ferramentas são capazes de identificar, com precisão, a presença de pragas nas plantações, muitas vezes em estágios iniciais. E assim, permitir uma ação rápida e eficaz, assim como pode ser  empregada na análise da qualidade dos alimentos, desde a colheita até o processamento. Portanto, garantindo padrões elevados de segurança e conformidade com as exigências do mercado consumidor.

    No campo, a IA também desempenha um papel essencial na proteção das pessoas, ao monitorar áreas de risco e alertar para situações perigosas, como a aproximação de maquinários pesados, e até  condições ambientais adversas por meio do monitoramento contínuo de temperatura, umidade e outros indicadores, possibilitando a prevenção de incêndios.

    Integradas a plataformas de dados meteorológicos, é possível cruzar informações climáticas com dados históricos de produção para a tomada de  decisão mais precisa. Assim como é possível  saber o melhor momento para adubar, aplicar defensivos ou colher, o que significa aumentar a produtividade e, consequentemente, a rentabilidade da fazenda. Com a IA os produtores conseguem antecipar problemas, agir de forma preditiva e evitar perdas que, muitas vezes, só seriam percebidas tardiamente.

    Comércio exterior

    E a transformação não para nas porteiras. O comércio exterior, que sempre foi estratégico para o agronegócio brasileiro, também entra nessa jornada de automação. Plataformas de gestão de comércio exterior hoje são capazes de automatizar processos burocráticos, como a DUIMP (Declaração Única de Importação) e a DU-E (Declaração Única de Exportação), totalmente integradas ao Portal Único Siscomex.

    Essa automação é relevante no agronegócio, atendendo demandas como importação de commodities e exportação de produtos de origem animal e vegetal. Especialmente em um cenário global instável, com mudanças nas cadeias de fornecimento e medidas como o recente “tarifaço” norte-americano, que vem redesenhando os fluxos de comércio mundial. Quem tiver agilidade e eficiência para se adaptar a essas novas rotas e exigências estará melhor posicionado para ampliar suas exportações. E assim, garantir competitividade no mercado global.

    Inovar os processos de monitoramento das lavouras,  proteção ambiental ou automação do comércio exterior é um diferencial competitivo para posicionar o Brasil como um dos líderes globais diante de um cenário cada vez mais dinâmico e exigente, que requer um agro cada vez mais conectado e inteligente.

    Marcelo Maekawa. Foto: Divulgação

    *Por Marcelo Maekawa, consultor de desenvolvimento de negócios na SONDA do Brasil

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  • Artigo: Agronegócio 4.0: franquias são a próxima Revolução Rural

    Artigo: Agronegócio 4.0: franquias são a próxima Revolução Rural

    O agronegócio brasileiro não é apenas um setor relevante: é a espinha dorsal da economia nacional, representando cerca de um quarto do PIB do país. Em um cenário de crescimento contínuo, com aumento da produtividade acima da expansão de área plantada, o setor tem se mostrado resiliente, eficiente e cada vez mais estratégico. No entanto, há um novo movimento em curso que pode impulsionar ainda mais esse gigante: a entrada definitiva do franchising no campo.

    As franquias, tradicionalmente associadas a áreas urbanas e segmentos como alimentação, beleza e serviços, ganham força no agro. Essa tendência não é fruto do acaso. Com o avanço tecnológico e a crescente especialização da cadeia produtiva, o campo brasileiro se tornou um terreno fértil para modelos de negócios replicáveis, escaláveis e com alto potencial de impacto.

    Franquias voltadas ao agronegócio conseguem atender, com eficiência, as demandas regionais específicas, aproveitando o conhecimento local dos franqueados e oferecendo soluções padronizadas com qualidade garantida pela marca. Essa combinação é poderosa: une a força do agro com a inteligência estratégica do franchising, criando um novo ecossistema de empreendedorismo no interior do país.

    Empreendedorismo

    O modelo é especialmente atrativo para profissionais que já atuam no setor rural e desejam empreender com menor risco. Ao contar com um negócio testado, com suporte técnico e estrutura comercial bem definida, o franqueado ganha vantagem competitiva em um mercado que valoriza tanto a inovação quanto a confiança e a proximidade com o produtor rural.

    Além disso, há uma nova geração de microfranquias surgindo com foco em serviços como concessão de crédito, nutrição vegetal, assistência agronômica e pulverização com drones. Esses formatos mais acessíveis em termos de investimento democratizam o empreendedorismo rural. E permitem a interiorização de soluções tecnológicas que antes estavam concentradas nos grandes polos.

    Luís Schiavo, CEO da Naval Fertilizantes

    Diante do aumento global da demanda por alimentos e das limitações na expansão da área de plantio, é cada vez mais urgente investir em produtividade. Nesse contexto, o papel das franquias torna-se ainda mais relevante. Ao oferecer tecnologia, know-how e presença regional, elas se tornam instrumentos fundamentais para disseminar boas práticas e inovações de forma ágil e eficiente.

    Caminho estratégico

    O franchising no agronegócio não é uma tendência passageira, mas sim um caminho estratégico para o Brasil potencializar ainda mais sua vocação agrícola, descentralizar oportunidades e criar uma nova geração de empreendedores rurais. O campo está pronto para essa transformação e quem souber semear agora, colherá frutos duradouros no futuro.

    *Luis Schiavo é engenheiro agrônomo, formado pela Unic (Universidade de Cuiabá), CEO e fundador da Naval Fertilizantes e acumula 20 anos de experiência no  mercado de fertilizantes especiais

     

    Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.

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  • Artigo: a longa estrada entre o campo e o supermercado

    Artigo: a longa estrada entre o campo e o supermercado

    A conexão entre o agronegócio e o varejo brasileiro é mais do que estratégica — é vital para o funcionamento do mercado de alimentos no país. Essa relação, construída ao longo do tempo, é baseada em uma interdependência sólida: o agronegócio precisa do varejo para chegar ao consumidor final, enquanto o varejo depende da produção agrícola para manter suas gôndolas abastecidas com produtos frescos e de qualidade. Ainda que esse elo esteja cada vez mais fortalecido, ele enfrenta uma série de desafios estruturais, logísticos e culturais que impactam diretamente o dia a dia tanto de produtores quanto de supermercadistas.

    Entre os principais pontos positivos dessa relação, destaca-se o estreitamento de parcerias, sobretudo com pequenos produtores. Mercados menores, como redes regionais, muitas vezes encontram nesses fornecedores locais uma forma de garantir produtos mais frescos, preços mais competitivos e até mais agilidade no abastecimento. O contato direto elimina intermediários, o que pode beneficiar tanto o produtor — que recebe melhor remuneração — quanto o varejista, que reduz custos e fortalece a economia local. Isso é particularmente importante em estados como o Paraná, onde a força do agronegócio regional contribui significativamente para a cadeia de abastecimento dos supermercados. Uma relação de confiança e proximidade é essencial para garantir não só o fluxo contínuo de mercadorias, mas também a manutenção de padrões de qualidade. No entanto, o caminho entre o campo e a gôndola está longe de ser simples.

    Logística

    A logística ainda representa um gargalo significativo. Embora algumas regiões do Brasil contem com infraestrutura de transporte mais adequada, o cenário nacional é desigual. Em muitas áreas do país, a precariedade das estradas, a distância entre centros produtores e consumidores e a falta de alternativas modais encarecem o frete e comprometem o abastecimento.

    Empresário Pedro Della’Nora

     

    Dados da CNT (Confederação Nacional do Transporte) apontam que cerca de 65% das cargas no Brasil ainda são transportadas por rodovias, sendo que muitas delas estão em estado crítico de conservação. Isso faz com que o frete pese no bolso do consumidor e limite a competitividade do pequeno varejista.

    Armazenagem

    A situação se agrava com a falta de capacidade de armazenagem. Segundo levantamento da FAO(Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), o Brasil só tem capacidade para armazenar cerca de 65% da sua produção agrícola, quando o ideal seria 120%. Isso obriga os produtores a escoarem sua produção imediatamente após a colheita. Pressionando ainda mais a logística e gerando perdas de qualidade e aumento de custos. Em produtos perecíveis, como frutas, legumes e verduras, isso pode ser fatal para o varejo, que depende da entrega diária e da qualidade visual dos alimentos para conquistar o consumidor.

    Nesse sentido, a proximidade entre lavoura e ponto de venda torna-se um fator estratégico. Quanto mais local for o produtor, menores os custos com transporte, menores os riscos de perda e maior o frescor dos produtos. Essa lógica tem impulsionado redes regionais a investirem em relações mais próximas com produtores locais, muitas vezes de pequeno porte, capazes de abastecer com regularidade e flexibilidade. Para garantir que os alimentos cheguem em boas condições, também é necessário o uso de caminhões climatizados e investimentos em logística de refrigeração — outro desafio especialmente para redes menores ou mais afastadas dos grandes centros.

    Além dos obstáculos operacionais, o setor também enfrenta um consumidor em transformação. Nos últimos anos, houve um crescimento evidente da demanda por produtos agroecológicos, sustentáveis e saudáveis. Uma pesquisa da Organis (Associação de Promoção dos Orgânicos) apontou que 36% dos brasileiros já consomem produtos orgânicos. E que o setor movimentou ao menos R$ 7 bilhões em 2024. Esse comportamento reflete uma nova consciência alimentar, ligada à saúde e ao bem-estar, e que exige do varejo — e, por consequência, do agronegócio — mais responsabilidade, rastreabilidade e qualidade.

    Desafios

    Essa mudança de mentalidade vem acompanhada do desafio de manter o abastecimento em um cenário de alta demanda. Para o varejo, isso significa ter uma oferta constante de alimentos frescos e saudáveis. Para o produtor, principalmente o pequeno, representa a oportunidade de diversificar sua produção e acessar mercados mais exigentes. O problema é que ainda faltam políticas públicas e incentivos que favoreçam essa integração produtiva e comercial. Incentivar o microdesenvolvimento agrícola pode ser uma alternativa para fortalecer a cadeia de abastecimento, promover a inclusão produtiva e combater os efeitos da inflação de alimentos.

    É inegável que o Brasil tem potencial para tornar essa relação entre o campo e o varejo ainda mais eficiente e equilibrada. Mas para isso, será preciso investir de forma contínua em infraestrutura, reduzir a burocracia nas relações comerciais, criar políticas de fomento à produção local e apoiar iniciativas de inovação tecnológica tanto no campo quanto nas lojas.

    Em um país de dimensões continentais, onde o agronegócio é um dos principais pilares da economia, garantir o bom funcionamento da ponte entre o campo e o varejo é, antes de tudo, uma questão de soberania alimentar. O que está em jogo não é apenas a logística ou o custo do frete. Mas a forma como o alimento chega à mesa do brasileiro.

    *Pedro Della’Nora é empresário do setor supermercadista, fundador do Ideal Supermercado, que conta com duas lojas no estado do Paraná.

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  • Engenheiro mecânico no agro

    Engenheiro mecânico no agro

    O mercado tradicional para engenheiros mecânicos tem se mostrado cada vez mais desafiador, com redução de vagas formais e salários abaixo das expectativas. Muitos profissionais encontram dificuldades para se inserir em grandes empresas e acabam migrando para outras áreas ou enfrentando longos períodos sem trabalho. Nesse cenário, atuar de forma autônoma surge como uma alternativa viável. Permitindo que o engenheiro explore nichos menos saturados e com alta demanda por seus serviços.

    E o agronegócio se apresenta como um desses nichos, oferecendo oportunidades para quem busca independência profissional e deseja aplicar seus conhecimentos em um setor essencial para a economia do país. De acordo com o boletim “Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro”, elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o agronegócio brasileiro empregou, no terceiro trimestre de 2024, 28,4 milhões de pessoas, representando 26% das ocupações no país.

    Mas apesar da força do setor, a conexão entre a engenharia mecânica e o agronegócio ainda é pouco explorada, e existe uma demanda significativa reprimida por esse profissional no campo. Deve haver uma maior conscientização para que mais negócios exijam laudos e Anotações de Responsabilidade Técnica (ART) que somente um profissional técnico especializado pode emitir.

    Daniel Lemos, engenheiro mecânico e fundador da Engenhando Soluções

    Dessa maneira, o mercado agropecuário apresenta oportunidades concretas para engenheiros mecânicos autônomos. Especialmente em relação a máquinas pesadas, maquinários utilizados em operações fabris e também nas atividades de estocagem, tanto de grãos quanto de líquidos, com a inspeção de silos e tanques, por exemplo. Equipamentos como caldeiras, compressores e vasos de pressão, que exigem conformidade com normas como a NR-13, são áreas que também necessitam de acompanhamento especializado.

    Contribuição significativa

    A engenharia mecânica pode contribuir significativamente ainda para a modernização do agronegócio, tornando os processos mais eficientes e automatizados. Com a mecanização crescente, a demanda por profissionais que dominem essas tecnologias só tende a aumentar. Além disso, a busca por energias renováveis no setor abre mais um campo de atuação. A engenharia mecânica entra forte em áreas como energia eólica e solar, cuidando da estrutura e do funcionamento dos equipamentos.

    Outra tendência do setor é a adoção da agricultura de precisão, que envolve o uso de sensores, drones e sistemas integrados para aumentar a produtividade e reduzir desperdícios, e o engenheiro mecânico tem papel fundamental nesses equipamentos e tecnologias.

    Falta de profissionais

    A escassez de engenheiros mecânicos especializados no agronegócio é um fator que precisa ser superado, mas também torna as oportunidades ainda maiores. Para se destacar, é essencial conhecer os equipamentos e as necessidades do setor, além de compreender as dores dos clientes. A maior dificuldade dos engenheiros atualmente é entender a demanda real do cliente. É preciso ir a campo, conversar com profissionais do setor, visitar feiras, se aprofundar no tema e entender o que realmente é necessário

    E devemos somar a tudo isso o fato de que os engenheiros mecânicos precisam despertar para a atuação de forma autônoma. O modelo de emprego tradicional tem desvalorizado a profissão, com salários abaixo do ideal. E os engenheiros mecânicos precisam aprender a enxergar oportunidades para oferecer e desenvolver seus serviços lidando diretamente com o cliente, sem depender de vínculos empregatícios.

    Com a crescente necessidade de eficiência do agronegócio, a engenharia mecânica se posiciona como um setor-chave para a evolução do campo, mas cabe aos profissionais da área se especializarem e buscarem inserção nesse mercado promissor.

    *Daniel Lemos, engenheiro mecânico e fundador da Engenhando Soluções

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  • Artigo: o setor agropecuário na Austrália

    Artigo: o setor agropecuário na Austrália

    Desde dezembro do ano passado, a Austrália acrescentou uma nova lista, a CSOL, com mais de 450 profissões em demanda no país, voltada para quem deseja ser patrocinado por empresas locais. O setor de agropecuária segue em destaque nessa lista de profissões qualificadas para a migração com novas ocupações sendo reconhecidas e incluídas. Essa atualização reflete a crescente demanda por profissões especializadas em diversas áreas do agronegócio, ampliando as oportunidades para quem deseja atuar na Austrália.

    Anteriormente a Austrália dividia as profissões em três listas. A primeira era voltada para áreas rurais e regiões afastadas dos centros urbanos, que necessitavam de algumas profissões específicas. A segunda abrangia as profissões em demanda na Austrália como um todo, mas dentro de cada estado e a curto prazo. Já a terceira reunia as profissões de altíssima demanda, essenciais para o país a médio e longo prazo.

    Com essa estrutura, era possível identificar quais profissionais tinham um caminho mais claro para a residência permanente, ou seja, a possibilidade de morar no país como residente permanente e, depois, tornar-se cidadão australiano. Agora, com a nova atualização na legislação, a Austrália ampliou as oportunidades para quem deseja trabalhar no país. Há uma grande necessidade de profissionais de diversas áreas, tornando este um ótimo momento importante para dar o próximo passo.

    Possibilidades

    Com as mudanças, há um leque ainda maior de possibilidades para aqueles que desejam construir uma carreira sólida e contribuir para o crescimento do agronegócio no país.

    Michelle Helou, advogada e agente de migração referência na Austrália

    Entre as profissões adicionadas no setor de agro na lista de demandas estão pesquisadores e técnicos focados em agricultura, aquicultura e manejo de recursos naturais. Isso incluí também cientistas especializados em pesquisa agropecuária, agrônomos, técnicos em agritech, além de especialistas em irrigação e manejo de árvores.

    Outros cargos que estão com alta demanda são cientista de pesquisa agrícola, agronomista, técnico em zootecnia, técnico de irrigação, entomologista, entre outros. Essa expansão reforça a importância de inovação e sustentabilidade no setor.

    Além das novas inclusões, algumas profissões já estavam previamente em alta demanda, como consultores e cientistas agrícolas, gestores florestais, veterinários, silvicultor, consultor agrícola, cientista agrícola. Isso mostra que a Austrália continua valorizando profissionais com expertise no desenvolvimento e gestão do setor agropecuário.

    *Michele Helou é advogada e agente de migração referência na Austrália.
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