Tag: armazenagem

  • Falta de silos força produtor brasileiro a vender safra mais barato

    Falta de silos força produtor brasileiro a vender safra mais barato

    Empresas e produtores enfrentam um gargalo estrutural que vem redesenhando a comercialização de grãos no Brasil: a falta de silos. O descompasso entre a capacidade estática de armazenagem e o volume total colhido a cada safra consolidou-se como um dos principais fatores de instabilidade do setor.

    O problema ganha contornos mais críticos no segundo semestre, quando milho e algodão escoam simultaneamente e disputam espaço nos armazéns disponíveis.

    Enquanto os Estados Unidos guardam 65% de sua produção dentro das propriedades rurais, o Brasil armazena apenas 15% na origem, afirma a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Essa escassez empurra o produtor para uma venda compulsória logo após a colheita, o que pressiona as cotações internas e reduz o poder de negociação do produtor.

    Franklin Oliveira, diretor comercial da AGI Brasil, fornecedora de soluções em armazenamento e movimentação de grãos, defende que o cenário exige uma análise que vai além do espaço físico disponível.

    “O déficit mensurado é mais agudo em regiões de expansão agrícola no segundo semestre, como o Matopiba e o norte de Mato Grosso. O armazenamento planejado protege o produtor contra a oscilação de preços. Mas demanda superar barreiras regulatórias locais, garantir eficiência energética e manter a estrita conformidade com as exigências técnicas de certificação”, explica o executivo.

    Gargalos regulatórios travam novos investimentos

    Atualmente, os produtores que querem investir em armazenagem própria esbarram em uma série de exigências. Precisam obter licenças ambientais estaduais, atender à Lei nº 9.973 que regulamenta o Sistema de Certificação de Armazéns do país e adequar as plantas às normas de segurança do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), caso da NR-33, voltada ao trabalho em espaços confinados.

    Nesse ambiente restritivo, o acesso a materiais de alta especificação passou a fazer diferença direta na viabilidade dos projetos. Silos construídos com aços de alta resistência estrutural e revestimentos galvanizados superiores suportam melhor a carga dinâmica de carregamentos contínuos, segundo Oliveira.

    “No entanto, para combater o estresse térmico severo no interior do silo, a engenharia de proteção do grão precisa ir além da barreira física do aço”, alerta o diretor.

    Projetos de alta performance, segundo ele, já integram sistemas de termometria digital e ventilação automatizada, capazes de controlar a temperatura e a umidade da massa de grãos.

    Essa combinação preserva as características físicas, sanitárias e comerciais do produto e atende aos padrões exigidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e pelo mercado exportador.

    Diante de safras que testam anualmente a eficiência logística nacional, a expansão tecnológica da armazenagem surge como o elo regulador capaz de proteger as margens do agronegócio.

    “A sustentabilidade financeira da porteira para dentro depende da autonomia de comercialização. E ela só se alcança quando o produtor dispõe de uma estrutura robusta e capaz de preservar a integridade biológica do seu patrimônio por longos períodos”, conclui o diretor comercial.

  • Fusão amplia soluções tecnológicas para o agro brasileiro

    Fusão amplia soluções tecnológicas para o agro brasileiro

    A integração entre o Grupo Limber Software e a Infogen Informática marca a criação de uma das maiores verticais de tecnologia especializada para o agronegócio no Brasil. A nova operação, que passa a atuar sob a marca Infogen by Limber, reúne mais de 400 clientes, 12 mil usuários ativos e empresas que movimentam cerca de R$ 125 bilhões por ano.

    O movimento incorpora a expertise construída pela Infogen ao longo de décadas ao ecossistema tecnológico do Grupo Limber, que amplia sua capacidade de investimento, desenvolvimento e atendimento ao setor agroindustrial.

    Segundo Fernando Fiorentin, CEO do Grupo Limber Software, a estratégia fortalece a entrega de soluções alinhadas às demandas reais do campo. “O agro exige tecnologias conectadas à realidade da produção e da indústria. Com a Infogen, ampliamos nossa capacidade de integrar gestão, operação e tomada de decisão em um cenário cada vez mais complexo”, afirma.

    A estrutura da Infogen permanece ativa, com Ernani Zottis à frente da vertical agro. A continuidade da liderança preserva o relacionamento com clientes e mantém o conhecimento técnico acumulado pela empresa desde sua fundação.

    Tecnologia para gestão, armazenagem e logística no agro

    A nova operação consolida soluções voltadas à cadeia agroindustrial, com foco em eficiência operacional e inteligência de dados. Entre os destaques está o SiloScan, sistema que utiliza sensores, laser e inteligência artificial para monitorar silos e calcular o volume de grãos com precisão.

    Outra solução é o IPIG, plataforma baseada em visão computacional que automatiza a contagem, pesagem e o monitoramento da temperatura de suínos durante o carregamento. As tecnologias aumentam o controle das operações e fornecem dados em tempo real para apoiar decisões estratégicas.

    As ferramentas desenvolvidas pela Infogen já atendem diferentes segmentos do agronegócio, incluindo gestão administrativa e financeira, armazenagem de grãos, logística, relacionamento com produtores, recebimento de safra e controle industrial.

    Expansão e novos investimentos no agronegócio

    Para Ernani Zottis, a integração abre espaço para acelerar a inovação sem perder a proximidade com o mercado. “Ampliamos nossa capacidade de investimento e desenvolvimento, mantendo o compromisso com soluções alinhadas aos desafios diários do produtor e das agroindústrias”, destaca.

    A LimberAgro também prevê novos investimentos em tecnologia e possíveis movimentos estratégicos para expandir sua atuação em diferentes elos da cadeia produtiva.

    Fundado em 2002, o Grupo Limber Software desenvolve soluções tecnológicas para setores como agroindústria, varejo, indústria, turismo e transportes. A empresa conta com mais de 300 colaboradores, 8,6 mil clientes ativos, 43 mil usuários B2B e mais de 20 milhões de usuários B2C.

    Com sede em Chapecó (SC), a Infogen Informática desenvolve softwares para empresas da cadeia agroindustrial, incluindo cerealistas, indústrias de sementes, fabricantes de fertilizantes, fábricas de ração e agroindústrias. A empresa atua no setor desde 1990 sob liderança de Ernani Zottis.

  • Governo mobiliza Conab para enfrentar gargalo histórico de silos

    Governo mobiliza Conab para enfrentar gargalo histórico de silos

    O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, reuniu-se nesta quinta-feira (28) com a diretoria da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para alinhar ações estratégicas nas áreas de armazenagem, estoques públicos e abastecimento alimentar.

    Foto: Percio Campos / Mapa
    CONAB-MAPA-2805 (2).png
    Foto: Percio Campos / Mapa

    A agenda envolveu modernização da infraestrutura de silos, formação de estoques reguladores, acompanhamento da safra de grãos, preços mínimos, seguro rural e cooperação humanitária internacional. Tudo isso num cenário em que o Brasil enfrenta um déficit estrutural de capacidade de armazenagem estimado em 139 milhões de toneladas.

    Um país que colhe mais do que consegue guardar

    O Brasil projeta colheita superior a 356 milhões de toneladas na safra 2025/26, segundo a própria Conab, o maior volume já registrado. O problema: a capacidade estática nacional atingiu 213 milhões de toneladas, crescimento de apenas 0,5% em relação a 2024, ritmo insuficiente frente ao avanço da produção de soja e milho, que cresce cerca de 6% ao ano desde 2010.

    O resultado é uma equação desfavorável: o Brasil só tem capacidade de armazenar 70% da colheita. Nos Estados Unidos, esse percentual varia entre 130% e 140%. Os americanos possuem capacidade de 615 milhões de toneladas, quase três vezes maior, com 65% dos silos dentro das fazendas. No Brasil, apenas 17% das estruturas ficam em propriedades rurais, o que aumenta a dependência de armazéns externos e pressiona a logística.

    Geografia

    O déficit não é apenas de volume, mas também geográfico. O Mato Grosso concentra a maior capacidade individual do país, com 52 milhões de toneladas, mas ainda sofre com um déficit de 51% em relação à produção de soja e milho. Em estados como Rondônia, a carência chega a 75%. No MATOPIBA, uma das principais fronteiras agrícolas, o déficit alcança até 60%, obrigando produtores a escoarem rapidamente a safra por falta de estruturas próximas.

    As consequências vão além da logística. Cerca de 10% da produção nacional de grãos é perdida durante o armazenamento, segundo a Embrapa. Ao preço médio da soja em março de 2026, esse volume representa algo próximo de R$ 14 bilhões que deixam de circular na economia.E só em ICMS, cerca de R$ 1,6 bilhão deixam de entrar nos cofres públicos.

    Fechar esse buraco tem preço. Para eliminar o déficit de 92 milhões de toneladas identificado pelo Itaú BBA, seriam necessários R$ 102 bilhões em investimentos. O custo de construção de silos também encareceu: subiu de R$ 700 por tonelada em 2019 para cerca de R$ 1.100 por tonelada em 2025.

    O que o governo faz para enfrentar o problema

    Na reunião desta quinta, André de Paula destacou o papel central da Conab na formulação de políticas públicas. “A Conab continua sendo a principal responsável pelos levantamentos de safra, custos de produção, estoques públicos e perspectivas para a agropecuária, informações que servem de base para a construção das políticas do Ministério”, afirmou.

    O secretário-executivo do Mapa, Cleber Soares, reforçou o papel operacional da companhia em subvenções econômicas, aquisições públicas e equalização de preços. “Quando o mercado apresenta distorções que prejudicam tanto o produtor quanto o consumidor, é a Conab que atua para garantir maior equilíbrio na cadeia produtiva”, disse.

    Atualmente, os armazéns da Conab têm capacidade estática próxima de 1,7 milhão de toneladas, com cerca de 1,2 milhão de toneladas armazenadas. A companhia trabalha na modernização dessa infraestrutura e na ampliação da capacidade operacional da rede armazenadora federal.

    Medidas

    Entre as medidas concretas discutidas no encontro, está a liberação de R$ 54,3 milhões em crédito suplementar pela Casa Civil. O recurso viabiliza a antecipação da compra de milho e a formação de estoques reguladores preventivos diante dos possíveis impactos do El Niño em 2026. No Plano Safra 2025/26, o governo também destinou R$ 4,5 bilhões para o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), com juros entre 8,5% e 10% ao ano. Embora especialistas do setor avaliem que taxas ideais estariam entre 6% e 6,5% ao ano, próximas às praticadas nos Estados Unidos.

    O diretor-presidente da Conab, Sílvio Isoppo Porto, ressaltou a importância do diálogo entre os dois ministérios. “A construção da política agrícola brasileira se dá de forma conjunta entre o Mapa e o MDA, especialmente na definição dos Planos Safra e nas ações de suporte ao produtor rural”, disse.

    A pauta incluiu ainda a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) para a safra de verão, o Seguro Rural e o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé). A Conab também apresentou sua atuação em operações de ajuda humanitária internacional, com o envio de arroz e leite em pó para a Bolívia e ações de assistência alimentar a Cuba.

  • Caruncho no arroz faz mal? Veja o que acontece se você ingerir esse inseto

    Caruncho no arroz faz mal? Veja o que acontece se você ingerir esse inseto

    Você pega o pacote de arroz para cozinhar e encontra aquela farinha fina acumulada no fundo. Ou, pior ainda, avista pequenos insetos se movimentando entre os grãos. É uma cena familiar para boa parte das famílias brasileiras, e a reação imediata costuma ser jogar tudo fora com repulsa. Mas a situação é mais complexa do que parece, e a resposta para a pergunta que todo mundo já fez, “caruncho faz mal?”, depende de alguns fatores que vale conhecer antes de tomar qualquer decisão.

    De onde vem o caruncho e por que ele aparece nos grãos

    Antes de qualquer coisa, é preciso derrubar um equívoco comum: o caruncho não nasce necessariamente por descuido do consumidor. Segundo a agrônoma e professora Cristina Schetino Bastos, da Universidade de Brasília, o ciclo da infestação pode começar ainda na lavoura, durante a colheita, e seguir por todas as etapas, incluindo transporte, beneficiamento e armazenamento. Ou seja, o inseto pode chegar à despensa de casa dentro do próprio pacote lacrado.

    O nome “caruncho” é, na verdade, um termo genérico. A professora explica que ele designa popularmente mais de uma espécie de besouro que infesta produtos armazenados, com destaque para o Sitophilus zeamais, um besouro pequeno também conhecido como bicudo. Essa espécie é especialmente problemática porque tem alta capacidade de sobrevivência e consegue perfurar grãos intactos, o que dificulta o controle ao longo de toda a cadeia produtiva.

    Os insetos se associam principalmente a arroz, milho e trigo e, por consequência, a derivados como macarrão e farinhas. E as condições do ambiente doméstico podem acelerar a proliferação: umidade moderada e temperaturas favoráveis criam o cenário ideal para o desenvolvimento dos insetos, enquanto ambientes muito secos ou com temperaturas extremas dificultam sua sobrevivência.

    Freezer, recipientes de vidro e atenção à mistura de alimentos novos com antigos estão entre as medidas mais eficazes para manter caruncho longe — (Foto: Tomasz Klejdysz/Getty Imagens)

    Comer alimento com caruncho faz mal?

    Aqui está a resposta que a maioria das pessoas busca, e ela é menos alarmante do que o estômago sugere no momento do susto. De acordo com a nutricionista Fabiana Ximenes, o consumo acidental desses insetos geralmente não representa um risco grave à saúde. No entanto, podem ocorrer sintomas gastrointestinais leves como náuseas, desconforto abdominal e diarreia, especialmente em pessoas mais sensíveis ou com imunidade baixa.

    Um fator importante nessa equação é o preparo do alimento. O risco é maior quando o alimento contaminado é consumido cru, já que o cozimento tende a eliminar os insetos. Ainda assim, especialistas alertam que confiar apenas no cozimento não é a melhor estratégia. Sinais mais graves de deterioração do produto precisam ser observados antes de qualquer decisão de aproveitamento.

    Grãos empelotados, cheiro alterado e presença de teias indicam que o alimento deve ser descartado, independentemente de qualquer outra consideração. Nesses casos, o risco não está apenas nos insetos, mas no estado geral do produto, que pode ter sofrido contaminação por fungos ou bactérias associadas à infestação prolongada.

    Como evitar o caruncho em casa de forma simples e eficaz

    A boa notícia é que prevenir a infestação doméstica não exige grandes investimentos. Medidas simples de armazenamento reduzem drasticamente o risco de proliferação e protegem toda a despensa. Especialistas recomendam armazenar grãos em recipientes bem fechados, de preferência de vidro, evitar ambientes quentes e úmidos, não misturar alimentos novos com antigos e, quando possível, manter grãos no congelador por um período após a compra.

    Esse último ponto merece atenção especial. Colocar o pacote recém-comprado no freezer por alguns dias elimina eventuais ovos ou larvas que possam ter chegado junto com o produto, interrompendo o ciclo de reprodução antes mesmo que ele comece na despensa de casa.

    Além disso, vale inspecionar embalagens antes de comprar, evitar produtos com sinais de dano na embalagem e preferir compras em locais com bom giro de estoque. No campo e nas propriedades rurais, o controle é ainda mais relevante: a indústria utiliza técnicas como expurgo com gás para eliminar insetos, controle de temperatura e uso de atmosferas modificadas, mas isso não garante ausência total do caruncho no produto final.

  • Déficit de armazenagem em Mato Grosso ameaça rentabilidade do agronegócio

    Déficit de armazenagem em Mato Grosso ameaça rentabilidade do agronegócio

    Mato Grosso consolidou sua posição como o maior produtor de grãos do Brasil, mas a infraestrutura de armazenagem não acompanhou o crescimento das lavouras. O estado consegue estocar apenas 50% da própria produção. E esse gargalo cobra um preço alto dos produtores rurais, que acabam vendendo no pior momento, pressionados pelo calendário da colheita e pela falta de alternativas.

    O diagnóstico é da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT). Para a entidade, o déficit de armazenagem representa hoje um dos principais entraves ao desenvolvimento do agronegócio estadual e nacional.

    “Nos últimos anos, o déficit de armazenagem tem se acentuado no estado. Aproximadamente 50% da produção consegue ser armazenada. O restante precisa ser escoado rapidamente durante o período de safra, por falta de estrutura adequada”, afirmou Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja Mato Grosso. “Os mercados importadores conhecem esse gargalo logístico no Brasil, especialmente em Mato Grosso, e acabam se aproveitando dessa situação.”

    O produtor vende na hora errada e perde dinheiro

    Sem capacidade própria de armazenagem, o produtor perde autonomia sobre o momento de vender a produção. Durante a colheita, a oferta elevada pressiona os preços para baixo, e quem não tem onde guardar os grãos precisa negociar sob pressão. Quase sempre aceitando condições desfavoráveis impostas por compradores e tradings.

    Vinicius Baldo, produtor do núcleo de Água Boa, vive esse cenário na prática. Ele tem armazém, mas a capacidade é insuficiente para separar adequadamente os grãos e aproveitar janelas de venda mais vantajosas. “A falta de armazenamento impacta bastante, principalmente com a questão de grão avariado, ardido. A gente já precisou vender antes do momento. Se tivéssemos a capacidade adequada de armazenamento, poderíamos programar melhor as vendas e retirar a soja com mais tempo”, relata Baldo. Para ele, as principais barreiras ao investimento em infraestrutura são o crédito limitado e os juros altos.

    Anos chuvosos ampliam o problema

    Em safras com muita chuva, como a atual, o impacto do déficit de armazenagem se intensifica. Produtores sem armazém próprio precisam colher dentro de parâmetros rígidos de umidade para evitar descontos aplicados pelos compradores. O que reduz a flexibilidade operacional e pode gerar perdas adicionais.

    Josenei Zemolin, produtor do núcleo de Gaúcha do Norte, explica como a falta de estrutura afeta diretamente as decisões durante a colheita. “Em um ano chuvoso como esse, quem tem armazém pode entrar colhendo com umidade bem alta, bem mais cedo. O custo para secar a soja é só lenha e energia. Mas quem entrega nas tradings perde muito, porque elas descontam mais do que o normal”, diz Zemolin. “Se houvesse capacidade de armazenagem suficiente, a gente poderia se programar melhor, fazer a venda futura para pagar os custos e entregar num caminhão próprio.”

    Vale do Araguaia concentra o problema

    O vice-presidente da Aprosoja MT, Luiz Pedro Bier, aponta que o gargalo afeta todo o estado, mas se agrava nas regiões de expansão agrícola mais recente. Especialmente no Vale do Araguaia, onde silos e armazéns não acompanharam o avanço da produção.

    “Todo o Mato Grosso sofre com a falta de armazenagem. O produtor enfrenta filas e dificuldade de entregar o produto. Existem linhas de crédito, como o FCO Armazenagem e o PCA, disponíveis para o produtor, mas constantemente a gente vê falta de recursos nessas linhas”, destaca Bier.

    Além da escassez de crédito, ele aponta outro obstáculo pouco discutido: a qualidade da energia elétrica no interior do estado.

    “Um armazém precisa funcionar com gerador de energia, e aí vem o problema do custo com o óleo diesel. A energia elétrica de Mato Grosso é precária. Vários municípios têm energia de má qualidade, e outros sequer têm fornecimento suficiente para ampliar novos armazéns”, afirma Bier.

    Crédito existe, mas não chega

    Linhas de financiamento voltadas à construção de silos e armazéns existem no Brasil, mas os recursos disponíveis ficam aquém da demanda. Além da escassez, os juros pouco atrativos e as exigências de garantias restringem o acesso. Especialmente para produtores de médio porte, que mais precisariam da estrutura.

    Para a Aprosoja MT, o caminho passa pela ampliação de políticas públicas e instrumentos financeiros que estimulem o investimento em infraestrutura nas propriedades. A entidade argumenta que armazenar a própria produção fortalece a posição do produtor no mercado, melhora a eficiência logística e contribui para a estabilidade do abastecimento nacional.

    O que está em jogo vai além da fazenda

    O déficit de armazenagem em Mato Grosso não é apenas um problema do produtor rural. Ele afeta a cadeia inteira, do transporte à comercialização, e enfraquece a posição do Brasil frente a mercados importadores que conhecem e exploram esse gargalo.

    Em um estado que lidera a produção nacional de grãos, guardar a própria safra tornou-se, cada vez mais, uma condição para preservar renda, reduzir perdas e sustentar o avanço do agronegócio brasileiro.

  • Déficit de armazenagem desafia o agronegócio em meio a safra recorde

    Déficit de armazenagem desafia o agronegócio em meio a safra recorde

    A safra brasileira de grãos caminha para novo recorde em 2025/26, ultrapassando 320 milhões de toneladas, segundo estimativas da Conab. O avanço da produção, no entanto, não encontra o mesmo ritmo na infraestrutura de armazenagem. A capacidade estática do Brasil, calculada entre 200 e 230 milhões de toneladas, cobre apenas cerca de dois terços do volume colhido. E o descompasso já redefine o comportamento do mercado físico e dos preços internos.

    Para Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o gargalo vai além da estrutura física. “A armazenagem representa tempo de decisão, e tempo é o ativo mais valioso do mercado de grãos. Quando toda a oferta chega ao sistema simultaneamente, quem não consegue esperar vende sob pressão”, explica.

    Gargalos regionais e sazonais expõem produtores

    Apesar de a capacidade agregada parecer suficiente, a operação no campo revela um cenário diferente. Entre março e junho, o pico da colheita da soja coincide com o início da colheita do milho, saturando armazéns e rotas logísticas. Nessa janela, o déficit se manifesta de forma funcional: há espaço disponível no total, mas não no momento e nos locais certos.

    “O problema surge na incapacidade de absorver os volumes no período crítico. É quando o mercado físico ajusta os preços de forma mais agressiva”, afirma Monteiro.

    Em regiões altamente produtivas, a relação entre produção e capacidade de armazenagem cai para menos de 60% no auge da safra. Como cerca de 83% dos armazéns do país pertencem a cooperativas, tradings e grandes operadores, o produtor rural enfrenta desvantagem estrutural de negociação.

    Basis torna-se termômetro real do mercado

    Enquanto a Bolsa de Chicago reflete fatores macroeconômicos e financeiros, o diferencial de base, ou basis, traduz a realidade do mercado brasileiro. Logística, fluxo de produto e disponibilidade de armazéns influenciam diretamente a diferença entre os preços locais e internacionais.

    “No Brasil, o basis revela onde o mercado realmente acontece. Quando há excesso de oferta, a base se deteriora e força a saída de volumes”, diz a analista.

    Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro. Foto:
    Divulgação

    Durante o pico da safra, a perda no basis pode superar de R$ 15 a R$ 25 por saca, enquanto o custo médio de armazenagem fica entre R$ 2,50 e R$ 4,00 por mês. O resultado é claro: quem não tem estrutura própria vende com deságio, transferindo margem para outros elos da cadeia.

    “Armazenagem não cria preço, mas garante capacidade de espera. Para quem tem estrutura, o custo vira preservação de margem; para quem não tem, o prejuízo se repete ano após ano”, ressalta Monteiro.

    Armazenagem vira ativo estratégico em cenário de crédito caro

    Com juros altos e crédito mais restrito, a armazenagem também é vantagem financeira. O produtor que consegue guardar grãos reduz a necessidade de venda imediata e ganha flexibilidade para definir o momento de comercialização, equilibrando caixa, travas de preço e operações de hedge.

    “A armazenagem dilui decisões no tempo e limita os impactos de choques pontuais no mercado”, avalia Monteiro.

    Portanto, nesse cenário, o armazém deixa de ser apenas infraestrutura e passa a ser ferramenta central de gestão de risco. Com a produção crescendo mais rápido do que a capacidade de estocagem, quem controla o tempo da venda protege margens e extrai melhor valor, mesmo em um ambiente de forte volatilidade.

  • CNA apresenta diagnóstico da armazenagem agrícola no Senado

    CNA apresenta diagnóstico da armazenagem agrícola no Senado

    A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentou, nesta quarta-feira (15), um estudo sobre os desafios da armazenagem agrícola no país. O evento ocorreu durante o “Café com a Frenlogi”, promovido pela Frente Parlamentar Mista de Logística e Infraestrutura (Frenlogi), no Senado Federal.

    O encontro reuniu parlamentares, autoridades do Executivo e representantes do setor produtivo para discutir gargalos e soluções logísticas do agronegócio brasileiro. O assessor técnico da CNA, Tiago Pereira, apresentou os principais resultados do estudo “Diagnóstico da Armazenagem Agrícola no Brasil”, desenvolvido em parceria com a Esalq-Log (USP).

    Diagnóstico inédito

    A pesquisa entrevistou 1.065 produtores rurais de todas as regiões do país e traçou um panorama inédito sobre a capacidade e o uso das estruturas de armazenagem no campo.

    Segundo Tiago, o avanço da produção de grãos nas últimas décadas não foi acompanhado por um crescimento proporcional da capacidade de estocagem. “Enquanto a produção de grãos aumentou mais de 200 milhões de toneladas nos últimos 15 anos, a capacidade estática cresceu apenas 80 milhões no mesmo período”, explicou.

    Ele destacou que apenas 20% da capacidade de armazenagem nacional está localizada nas propriedades rurais. Além disso, o estudo também revelou que 61% dos produtores não possuem infraestrutura própria e que 72,7% investiriam em armazenagem se houvesse acesso a crédito com juros atrativos.

    Para Tiago, fortalecer a armazenagem dentro das fazendas é essencial para reduzir perdas, melhorar a eficiência logística e ampliar o poder de negociação do produtor. Ele reforçou que a CNA defende a expansão da armazenagem rural como prioridade nas políticas públicas do setor agropecuário.

    Os deputados Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) e Edinho Bez (MDB-SC) conduziram os debates. Eles destacaram a importância de políticas estruturais para ampliar a competitividade do agronegócio brasileiro.

  • Juros elevados do Plano Safra comprometem investimentos em infraestrutura no Mato Grosso

    Juros elevados do Plano Safra comprometem investimentos em infraestrutura no Mato Grosso

    Com a colheita da safra 2025/26, produtores de Mato Grosso já sentem os efeitos restritivos do novo Plano Safra, que apesar de recorde em volume anunciado, oferece menos recursos efetivos para o crédito rural. A subvenção diminuída e a alta das taxas de juros têm feito o acesso a financiamentos viáveis ficar distante para muitos agricultores, segundo o diretor administrativo da Aprosoja MT, Diego Bertuol.

    “Os recursos não têm chegado ao produtor rural. Muitos não conseguem fazer operações bancárias nem para custeio, quanto mais para investimentos em armazenagem,” disse Bertuol. Ele alerta que mais de 50% da safra está sem local adequado para estocar, comprometendo a logística do escoamento.

    Os números reforçam essa preocupação. Mato Grosso deve produzir cerca de 47 milhões de toneladas de soja na safra 25/26. Mas sua capacidade estática de armazenagem alcança apenas 53,4 milhões de toneladas, espaço que também serve ao milho, cuja produção ultrapassou 54 milhões de toneladas na última safra. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA) estima um déficit superior a 52 milhões de toneladas para as duas culturas.

    Luiz Pedro Bier, vice-presidente da Aprosoja MT, destaca o impacto especialmente sobre pequenos e médios produtores. “Construir armazéns é caro e burocrático. Com juros atuais, não é viável. Muitos recorrem a silos bolsa e enfrentam falta de caminhões e maiores custos para transporte na colheita.”

    Lentidão atrapalha

    Porém, apesar do Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) incluído no Plano Safra, a lentidão no desembolso do crédito restringe a ampliação da infraestrutura. Bier ressalta que o problema ultrapassa o produtor rural, atingindo a segurança alimentar nacional.

    “Se ocorrer crise no escoamento, seja por portos ou geopolítica, corre-se o risco de perder até metade da produção de Mato Grosso. Um prejuízo bilionário e reflexo direto na economia do país,” alertou.

    O presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, reforça que o déficit não é local, mas nacional. E é agravado pelo aumento dos juros e corte nos recursos. Ele aponta que o aumento da produção em 2025 para 350 milhões de toneladas de grãos no Brasil não acompanha o ritmo da construção de armazéns, agravando o déficit que ultrapassa 120 milhões de toneladas.

    Ele defende políticas públicas para incentivar a construção de armazéns próprios, como benefícios fiscais e financiamento mais acessível, vital para que o país garanta soberania frente a crises e oscilações do mercado.

  • Déficit de armazenagem ameaça produção de grãos no Brasil, aponta estudo

    Déficit de armazenagem ameaça produção de grãos no Brasil, aponta estudo

    O Brasil enfrenta risco de crise na armazenagem de grãos se não ampliar os investimentos. O alerta é do professor Thiago Guilherme Péra, coordenador do Grupo de Pesquisa em Logística Agroindustrial da ESALQ/USP e conselheiro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS).

    Hoje, o país produz 330 milhões de toneladas, mas consegue armazenar apenas 60%, cerca de 198 milhões de toneladas. O Mato Grosso, maior produtor, deve colher 100 milhões de toneladas em 2025, mas tem capacidade para guardar só 60%. Isso gera um déficit de 40 milhões de toneladas.

    Você também pode gostar:

    + Agro em Campo: Centro-Oeste dribla tarifa de 50% dos EUA com força do agro
    + Agro em Campo: Como conseguir crédito rural? BNDES bate recorde de recursos

    Nas últimas safras, as imagens de milho estocado a céu aberto, especificamente em Sinop (MT), evidenciam o problema. Péra destaca que esse tipo de armazenagem aumenta perdas físicas e econômicas.

    Antes de 2012, o Brasil mantinha superávit na armazenagem. A chegada do milho segunda safra, que superou a primeira em volume, mudou o cenário. O pico de colheitas entre março e julho sobrecarrega os armazéns.

    Além disso, a produção crescente de etanol de milho no Centro-Oeste agrava a demanda. Cerca de 16% da capacidade mato-grossense destina-se ao etanol, pressionando ainda o sistema logístico.

    Para o especialista, fortalecer cooperativas e ampliar o acesso a crédito, como pelo programa PCA do BNDES, pode reduzir o déficit. Pequenos e médios produtores sofrem com falta de escala e de armazéns adequados, ressalta.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: “Tâmaras bíblicas” voltam à vida em laboratório

    + Agro em Campo: Novo método detecta pesticidas no pólen de laranjeira

  • Simpósio debate qualidade na armazenagem de grãos em MS

    Simpósio debate qualidade na armazenagem de grãos em MS

    Especialistas discutem soluções sustentáveis para armazenagem e segurança alimentar no VI Simpósio de Pós-colheita de Grãos de Mato Grosso do Sul.

    A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) participa do VI Simpósio de Pós-colheita de Grãos de Mato Grosso do Sul. O evento segue até o dia 30 e reúne especialistas para debater inovação, segurança e sustentabilidade na armazenagem de grãos.

    Armazenamento x qualidade

    O armazenamento adequado dos grãos influencia diretamente a qualidade dos alimentos. Também impacta a rentabilidade dos produtores e a estabilidade do mercado. Durante o simpósio, a Conab destacou que a armazenagem protege o investimento feito ao longo da safra. Além disso, permite ao produtor planejar a venda dos grãos, buscando melhor rentabilidade.

    “O armazenamento seguro mantém a qualidade do produto e permite ao agricultor comercializar na melhor época”, afirmou Stelito dos Reis Neto, superintendente de Armazenagem da Conab.

    Desafios

    No entanto, o país enfrenta desafios importantes. A capacidade estática atual é de 210,1 milhões de toneladas, segundo a Conab. Já a estimativa da safra 2024/25 chega a 332,9 milhões de toneladas. Ou seja, a diferença entre colheita e armazenamento supera 112 milhões de toneladas. Apesar disso, a Conab explica que o número não reflete um déficit real. “No Brasil, temos mais de uma safra ao ano. Precisamos respeitar as características do calendário agrícola e a logística de escoamento”, afirmou Reis Neto.

    Dados do Sicarm mostram que Mato Grosso do Sul tem a sexta maior capacidade estática do país. Portanto, o estado pode armazenar cerca de 14 milhões de toneladas, sendo 40% dessa estrutura operada por prestadores de serviço.

    Esse modelo, segundo a Conab, representa uma vantagem ao produtor independente. “A armazenagem precisa ser vista como ferramenta de gestão. Isso vale tanto para períodos de excesso quanto para retração da demanda”, ressaltou o superintendente. A estocagem, segundo ele, integra toda a cadeia logística do setor. Por isso, o avanço em infraestrutura de transporte também é fundamental para garantir eficiência no escoamento. “Caso o escoamento desacelere ou a exportação cresça, as estruturas de armazenagem terão papel decisivo no controle da produção”, completou.

    O simpósio é promovido pela Associação Brasileira de Pós-colheita (Abrapos) e organizado pela LAR Cooperativa Agroindustrial. A Conab atua como co-promotora, ao lado da Embrapa, da UFGD e de cooperativas como Copagril, Copasul, C.Vale, Coamo, Cooperalfa e Cocamar.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Gripe aviária: MAPA faz atualização sobre situação de exportações

    + Agro em Campo: MG: exportações de produtos agropecuários atingem 46,8% do total do estado