Tag: aquicultura sustentável

  • Tanques-rede de grande volume avançam na criação de tilápias

    Tanques-rede de grande volume avançam na criação de tilápias

    O Instituto de Pesca (IP-Apta), ligado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, amplia as pesquisas sobre o uso de tanques-rede de grande volume na piscicultura continental, com foco na sustentabilidade e na eficiência produtiva da criação de tilápias.

    Desde 2017, a Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento do Pescado Continental, em São José do Rio Preto (SP), conduz os estudos em parceria com a Fisher Piscicultura Água Vermelha. Os testes ocorrem no reservatório de Água Vermelha, onde os tanques-rede funcionam em estrutura comercial, enquanto as análises de qualidade da água e desempenho dos peixes são realizadas nos laboratórios do Instituto.

    Estruturas flutuantes sustentáveis

    Os tanques-rede de grande volume consistem em estruturas flutuantes de materiais duráveis, como duralumínio e telas de aço inox, ideais para o cultivo intensivo de peixes. Podem ser instalados em reservatórios de hidrelétricas, lagos e outros ambientes com grande circulação de água.

    Entre as vantagens estão a alta produtividade, o melhor aproveitamento do fluxo natural, a facilidade de manejo e despesca e a redução de impactos ambientais. O sistema ainda permite cultivo escalonado e flexibilidade operacional, o que favorece a produção contínua ao longo do ano.

    Monitoramento de qualidade e desempenho

    O Instituto de Pesca monitora mais de 70 tanques-rede, cada um com 450 m³, que abrigam cerca de 2,1 milhões de tilápias. As coletas de dados ocorrem mensalmente em três pontos do reservatório: a montante, no centro e a jusante da área de cultivo.

    Os pesquisadores medem variáveis como temperatura da água, oxigênio dissolvido, pH, turbidez, condutividade elétrica e transparência. Além de nutrientes e compostos nitrogenados (fósforo total, nitrito, nitrato e amônia). As análises laboratoriais confirmaram que os índices se mantêm dentro dos padrões adequados à piscicultura, conforme as resoluções CONAMA nº 375/2005 e 413/2009.

    De acordo com os resultados, a qualidade da água apresenta variações naturais ligadas ao clima e ao nível do reservatório, mas sem diferenças significativas entre os pontos monitorados. As correntes naturais do local ajudam na dispersão e renovação da água, favorecendo a estabilidade ambiental.

    Expansão da pesquisa

    Para a pesquisadora Daniela Castellani, responsável pelo estudo, as pesquisas do Instituto de Pesca demonstram o potencial da ciência aplicada em fortalecer a aquicultura nacional. “O trabalho promove inovação, sustentabilidade e competitividade no setor”, afirma.

    Em 2026, o Instituto iniciará um novo projeto com tanques-rede de grande volume no reservatório de Itaipu. Portanto, ampliando a pesquisa e impulsionando o uso de tecnologias sustentáveis na piscicultura brasileira.

  • Embrapa e USP desenvolvem embalagem biodegradável usando pele de peixe

    Embrapa e USP desenvolvem embalagem biodegradável usando pele de peixe

    Pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste e da Universidade de São Paulo (USP) criaram um biofilme biodegradável que pode revolucionar o setor de embalagens alimentícias. O material utiliza como matéria-prima a pele do tambatinga, peixe amazônico rico em colágeno.

    A espécie, resultado do cruzamento entre tambaqui (Colossoma macropomum) e pirapitinga (Piaractus brachypomus), destaca-se pelo rápido crescimento e pela composição proteica de alta qualidade. Sua origem tropical garante níveis elevados de aminoácidos, o que melhora as propriedades funcionais e estruturais da gelatina extraída.

    Colágeno extraído de pele de tambatinga gera material transparente e resistente

    O projeto, que conta com apoio da FAPESP através do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), busca substituir parcialmente os filmes plásticos derivados de petróleo. Os cientistas publicaram os resultados na revista científica Foods.

    “Trabalhamos há mais de 25 anos no desenvolvimento de filmes à base de biopolímeros, como proteínas e polissacarídeos, com o objetivo de aplicar esse material em embalagens de alimentos e diminuir o impacto ambiental”, explica Paulo José do Amaral Sobral, professor do Departamento de Engenharia de Alimentos da USP em Pirassununga.

    O zootecnista Manuel Antonio Chagas Jacintho e a engenheira de alimentos Fernanda Ramalho Procopio, ambos da Embrapa, lideraram a pesquisa experimental.

    Processo de produção combina água quente e ácido acético

    Os pesquisadores iniciaram o processo com a limpeza das peles e a extração da gelatina. A equipe utilizou água quente e ácido acético para remover impurezas. Na etapa seguinte, os cientistas prepararam os filmes com uma proporção de 2 gramas de gelatina para cada 100 gramas de solução formadora.

    O resultado surpreendeu: um material transparente, flexível e com superfícies uniformes. O biofilme demonstrou excelente resistência mecânica e capacidade superior de bloquear raios ultravioleta. Além disso, apresentou menor permeabilidade ao vapor de água em comparação com outros materiais à base de gelatina já estudados.

    Tecnologia transforma resíduo industrial em produto de alto valor agregado

    As descobertas destacam o potencial da pele de peixe, geralmente descartada como resíduo industrial, para se tornar matéria-prima renovável e sustentável. A pesquisa agrega valor econômico ao setor da aquicultura e promove uma cadeia produtiva mais responsável ambientalmente.

    Entretanto, o material apresenta uma limitação: sensibilidade à umidade. “Por esse motivo, por enquanto, eles só têm aplicação em produtos desidratados, como nozes e castanhas”, afirma Sobral.

    A equipe já planeja novos estudos para expandir as aplicações do biopolímero. Os cientistas pretendem testar o material em embalagens de diversos alimentos, produtos farmacêuticos e biomédicos. O objetivo é consolidar uma alternativa viável aos plásticos convencionais e fortalecer a sustentabilidade na indústria de embalagens brasileira.

    Thais Szegö | Agência FAPESP

  • Robalo: peixe brasileiro conquista 3º lugar em ranking de alimentos mais nutritivos

    Robalo: peixe brasileiro conquista 3º lugar em ranking de alimentos mais nutritivos

    O robalo, peixe nobre encontrado em abundância no litoral brasileiro, acaba de ganhar reconhecimento internacional ao alcançar o terceiro lugar em um ranking que avaliou mais de mil alimentos quanto ao valor nutricional. A pesquisa, divulgada pelo portal britânico Surrey Live e amplamente citada em publicações internacionais, atribuiu 89 pontos ao robalo em uma escala de até 100, colocando-o atrás apenas das amêndoas e da fruta-do-conde.

    Segundo o Dr. Xiao Jianjian, do Hospital Cathay em Taiwan, o robalo possui perfil nutricional superior ao do salmão, especialmente por apresentar menor teor de gordura. Enquanto 100 gramas de robalo contêm entre 2 e 5 gramas de gordura, a mesma porção de salmão pode chegar a 13 gramas, tornando o peixe brasileiro uma opção mais leve para quem busca controle de peso sem abrir mão da qualidade nutricional.

    Além de proteínas de alta qualidade, o robalo é fonte de magnésio, cálcio, ferro e zinco, nutrientes que desempenham papel importante no funcionamento do organismo e contribuem para processos como cicatrização, fortalecimento muscular e manutenção da energia diária. O consumo do peixe é frequentemente recomendado em contextos de recuperação pós-operatória, pós-parto e tratamentos que exigem reforço nutricional.

    Brasil tem potencial gigantesco para liderar produção de proteína marinha

    Apesar do destaque nutricional, o Brasil ainda subutiliza seu enorme potencial para a aquicultura marinha. A aquicultura brasileira encerrou 2024 com resultados históricos, atingindo R$ 11,7 bilhões em valor de produção, um crescimento de 15,4% em relação a 2023. No entanto, a produção nacional ainda está concentrada em espécies de água doce, como a tilápia, que representa cerca de 70% do total.

    O robalo-flecha (Centropomus undecimalis) e o robalo-peva (Centropomus parallelus), espécies nativas brasileiras, apresentam características ideais para a aquicultura: resistência ao manejo, adaptação a diferentes salinidades (água doce, salobra e salgada) e alto valor comercial. De acordo com pesquisas realizadas durante estudos de doutorado, é possível produzir um peixe de 1 quilo em dois anos, a partir de juvenis de 2 ou 3 gramas, mesmo sem melhoramento genético e com rações nacionais inadequadas para a espécie.

    Giovanni, pesquisador especializado em aquicultura marinha, destaca que com reprodutores domesticados e algumas gerações de melhoramento genético, o robalo pode passar facilmente de 1 kg nos primeiros 18 a 24 meses. “Há muitos e muitos anos escuto muita gente falando algumas besteiras por aí. Dizendo que os nossos centropomídeos não crescem nada, que sua criação comercial é inviável economicamente. Quanta bobagem!”, afirmou em artigo publicado na Aquaculture Brasil.

    Atualmente, regiões de Santa Catarina e São Paulo já desenvolvem cultivos experimentais de robalo, além de outras espécies marinhas como o beijupirá e a tainha. As pesquisas são conduzidas pela CEDAP, em São Paulo, e pela EPAGRI, em Santa Catarina, mas ainda em escala limitada.

    Grécia e Portugal já produzem milhares de toneladas , em um modelo que pode transformar economia brasileira

    Enquanto o Brasil engatinha na produção de robalo, países europeus já consolidaram uma indústria bilionária. A Grécia produziu principalmente robalo e dourada, sendo um dos principais produtores aquícolas da União Europeia em 2020, representando 11% do total da produção. A União Europeia é o maior produtor mundial de robalo, respondendo por 80% da produção. Sendo a Grécia o principal produtor no bloco, seguida da Espanha.

    Cerca de 90% do robalo e da dourada consumidos em Portugal são importados, maioritariamente de criação em jaulas offshore na Grécia, Espanha e Turquia. O que demonstra a demanda europeia pelo peixe e o potencial de mercado para exportações brasileiras.

    A tecnologia europeia de cultivo em tanques-rede offshore (em mar aberto) poderia ser perfeitamente replicada no extenso litoral brasileiro. O país possui mais de 7.400 quilômetros de costa, com condições climáticas favoráveis durante todo o ano, ao contrário dos países europeus que enfrentam invernos rigorosos.

    FAO prevê crescimento de 104% na aquicultura brasileira

    A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) projeta que a aquicultura no Brasil poderá crescer 104% até 2025, acima da média de outras nações emergentes, devido aos investimentos significativos feitos no setor.

    Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o Brasil produziu 1,35 milhão de toneladas de pescado em 2024. Um crescimento de 11,5% em relação ao ano anterior, movimentando R$ 10,7 bilhões. Desse total, a aquicultura respondeu por 881 mil toneladas, somando cultivos em água doce e salgada.

    No entanto, a piscicultura marinha, que inclui espécies como robalo, linguado e beijupirá, ainda representa uma fração mínima desse volume. A imensa maioria da produção concentra-se em espécies de água doce, com destaque para tilápia e tambaqui.

    Desafios e oportunidades para o setor

    Apesar do potencial gigantesco, a aquicultura marinha brasileira enfrenta desafios significativos. A ausência de rações comerciais específicas para o robalo é um dos principais gargalos. “Como não há produção, não há ração”, explica o pesquisador Giovanni em sua coluna.

    Outro obstáculo é o crescimento relativamente lento da espécie em comparação com a tilápia (5-6 meses) ou o camarão marinho (90 dias). O robalo leva de 18 a 24 meses para atingir o peso comercial, o que exige paciência e planejamento de longo prazo dos produtores.

    A falta de investimentos estruturantes também limita a expansão do setor. Enquanto países como a China transformaram sua aquicultura em commodities de exportação, aumentando suas riquezas nacionais, o Brasil carece de políticas públicas consistentes e financiamento para pesquisa e desenvolvimento.

    Um futuro promissor ao alcance

    Com sua extensa faixa litorânea, biodiversidade marinha e condições climáticas favoráveis, o Brasil tem todos os elementos necessários para se tornar um líder global na produção de proteína aquática de alta qualidade. O robalo, com seu reconhecido valor nutricional e alto valor de mercado, representa uma oportunidade estratégica.

    A experiência europeia demonstra que a produção em larga escala é viável e lucrativa. Portugal, por exemplo, estabeleceu a meta de aumentar sua produção aquícola para 25 mil toneladas até 2030, segundo a Estratégia Nacional para o Mar.

    Para que o Brasil alcance seu pleno potencial, são necessários investimentos em três frentes principais. Desenvolvimento de rações específicas e tecnologias de cultivo, melhoramento genético das espécies nativas e criação de políticas públicas que incentivem a aquicultura marinha sustentável.

    O robalo brasileiro não é apenas um superalimento que supera o salmão em leveza e densidade nutricional. É também uma oportunidade econômica capaz de gerar milhares de empregos, aumentar o PIB nacional e posicionar o país como protagonista na produção mundial de pescado de qualidade.

  • Tambaqui com curimba aumenta produção em 25% na Amazônia

    Tambaqui com curimba aumenta produção em 25% na Amazônia

    A criação integrada de tambaqui com curimba representa uma revolução sustentável para a piscicultura amazônica. Levantamento inédito da Embrapa Pesca e Aquicultura demonstra que esse modelo de produção é 25% mais produtivo do que o cultivo isolado de tambaqui, além de reduzir significativamente os impactos ambientais da atividade.

    Foto: Embrapa

    Publicado na revista científica Aquaculture, o estudo avaliou os benefícios da aquicultura multitrófica integrada (AMTI) – sistema que cultiva diferentes espécies aquáticas no mesmo ambiente, imitando ecossistemas naturais para otimizar o aproveitamento de nutrientes.

    Vantagens ambientais superam outras atividades agropecuárias

    Os números impressionam quando comparados a outras formas de produção de proteína animal. Para gerar 1 kg de proteína, a pecuária bovina demanda 434,88% mais terra do que a piscicultura de tambaqui. A avicultura requer 48,84% a mais de espaço, enquanto a suinocultura necessita de 72,09% além do utilizado pela aquicultura.

    “A aquicultura pode ser uma alternativa para a diminuição da pressão de abertura de novos espaços para a produção agropecuária no bioma amazônico”, afirma a pesquisadora Adriana Ferreira Lima, da Embrapa Pesca e Aquicultura.

    Os dados corroboram pesquisa publicada pela revista Nature Sustainability em janeiro de 2025, conduzida por cientistas brasileiros e americanos, que identificou vantagens da criação de peixes na região amazônica em comparação ao gado.

    Por que curimba e tambaqui formam a dupla ideal

    A escolha da curimba como espécie complementar ao tambaqui não foi aleatória. De formato alongado e comercializada entre 500g e 1kg em mercados do Pará e regiões ribeirinhas, a curimba é atualmente a segunda espécie de peixe mais exportada pelo Brasil.

    “A curimba possui um perfil ecológico que complementa a função do tambaqui. É um peixe de fundo, responsável por consumir as sobras de ração e alimentos presentes no sedimento do viveiro”, explica Lima.

    O diferencial está na sinergia entre as espécies: enquanto o tambaqui se alimenta na coluna d’água, a curimba aproveita recursos do fundo do viveiro, transformando em proteína animal aquilo que seria descartado no monocultivo. Essa complementaridade não afeta o crescimento do tambaqui – pelo contrário, potencializa a produção total.

    Mesma ração, mais proteína

    Um dos achados mais relevantes da pesquisa foi constatar que a curimba se desenvolve com a mesma quantidade de ração destinada ao monocultivo do tambaqui. Com proporção de aproximadamente 50% de alevinos de cada espécie, o viveiro produziu 25% a mais de proteína por hectare, sem necessidade de aumentar insumos.

    No experimento realizado em viveiros de 600 metros quadrados, o tambaqui atingiu 1,8kg (peso de comercialização no Tocantins e outros estados do Norte), enquanto a curimba chegou a 200g. Para pequenos produtores, essa diferença não representa problema, já que as espécies têm mercados distintos e é possível realizar despescas em momentos diferentes.

    Impacto ambiental reduzido em diversos indicadores

    A análise de ciclo de vida (ACV) revelou que o cultivo integrado supera o monocultivo em múltiplos aspectos ambientais:

    • Emissões de carbono: redução de 4,27kg para 3,9kg de CO2 por quilo de peixe produzido
    • Uso da terra: diminuição de 17%
    • Acidificação: redução de 12%
    • Dependência de água: queda de 38,57%
    • Demanda de energia: redução de 13,30%
    • Eutrofização de água doce: diminuição de 21%
    • Impacto nas mudanças climáticas: redução de 9%

    “Esses resultados destacam o sistema AMTI como uma alternativa mais sustentável à monocultura convencional de tambaqui”, ressalta a pesquisadora.

    Metodologia científica robusta

    A pesquisa considerou todos os custos ambientais da produção, incluindo recursos necessários para fabricação de insumos como ração (plantio de soja e milho), construção de viveiros e outros fatores. A avaliação abrangeu desde a alevinagem até a comercialização, em condições próximas às do setor produtivo comercial.

    Mesmo computando todos esses custos, o impacto da piscicultura mostrou-se substancialmente menor do que outras atividades agropecuárias.

    Futuro promissor para sistemas integrados

    Lima destaca que o Brasil ainda possui poucas iniciativas de cultivo integrado na aquicultura, diferentemente de países como China e Índia, onde a prática é comum. A falta de dados científicos tem sido o principal obstáculo para a adoção do modelo.

    Pesquisadora Adriana Lima. Foto: Embrapa

    “Nós acreditamos que demos um passo importante para o estudo do cultivo integrado, o que abre portas para a combinação de outras espécies, como tambaqui, curimba e camarão”, afirma a cientista.

    Atualmente, a produção de tambaqui aproveita apenas 30% a 40% do nitrogênio e fósforo disponíveis – o restante é perdido para a atmosfera ou água. Com o sistema integrado, a eficiência de recuperação de biomassa animal aumenta significativamente, transformando resíduos em proteína de qualidade.

    Perspectivas para o setor

    A pesquisa responde dúvidas comuns dos produtores sobre o cultivo integrado: se a curimba prejudica o crescimento do tambaqui, se é necessário aumentar a quantidade de ração e qual proporção ideal de cada espécie no viveiro.

    Experiências de integração já existem em outras regiões do Brasil, como o cultivo de tilápia com camarão-gigante-da-Malásia no Paraná e Sudeste, além de sistemas que integram pecuária com fruticultura utilizando água da aquicultura para irrigação.

    “Há um longo caminho pela frente”, conclui Lima, apontando a necessidade de estudos que avaliem todos os impactos dos sistemas integrados, incluindo o aproveitamento da água para irrigação agrícola.

    Para o bioma amazônico, a mensagem é clara. A piscicultura integrada representa solução viável, produtiva e sustentável para a produção de proteína animal. Com potencial para reduzir pressões sobre novas áreas de floresta.

  • Inteligência artificial revoluciona reprodução de pirarucu

    Inteligência artificial revoluciona reprodução de pirarucu

    Uma tecnologia que até pouco tempo era exclusiva de laboratórios de neurociência está transformando a criação de pirarucu no Brasil. A Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas (TO), desenvolveu um sistema inédito de inteligência artificial capaz de prever com precisão o momento reprodutivo do Arapaima gigas, o gigante das águas amazônicas que pode ultrapassar 100 quilos.

    O projeto, realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), adapta técnicas de rastreamento comportamental originalmente desenvolvidas para estudos com roedores. A iniciativa coloca o Brasil na vanguarda da aquicultura inteligente, área ainda pouco explorada no país.

    “Aplicações em piscicultura, especialmente com espécies nativas como o pirarucu, representam uma nova fronteira”, afirma o professor Cleiton Aguiar, da UFMG, coordenador do projeto. Segundo ele, enquanto a inteligência artificial já é amplamente utilizada em setores como saúde e agronegócio de grãos, sua aplicação na criação de peixes nativos ainda é praticamente inexistente no país.

    Como funciona o sistema de monitoramento inteligente

    O mecanismo desenvolvido pelos pesquisadores utiliza 12 câmeras instaladas em viveiros escavados, registrando continuamente o comportamento dos peixes das 6h às 18h. Como o pirarucu possui respiração aérea obrigatória, precisa subir regularmente à superfície. Cada aparição é detectada automaticamente pelo sistema de IA, que marca a posição exata no viveiro.

    Os resultados obtidos nessa pesquisa abrem portas para outros tipos de explorações científicas com a espécie – Foto: Arquivo pessoal

    “A máquina conta quantas vezes o pirarucu sobe e gera uma planilha com dia, hora e coordenadas de cada aparição”, explica Lucas Torati, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura. O sistema elimina a necessidade de observação humana contínua, que além de cara, é limitada e subjetiva.

    Aprendizado de máquina: ensinando computadores a reconhecer peixes

    Por trás da aparente simplicidade do monitoramento está um complexo processo de aprendizado de máquina. Os pesquisadores utilizam redes neurais profundas, modelos computacionais inspirados no funcionamento do cérebro humano, compostos por múltiplas camadas de processamento.

    O treinamento começa com a marcação manual de cerca de 200 quadros de vídeo, identificando os quatro cantos do viveiro e as diferentes partes do corpo do peixe (cabeça, tronco e cauda). A partir desses exemplos, a rede neural aprende a reconhecer automaticamente os padrões em novos vídeos.

    A precisão do sistema depende da variedade de condições incluídas no treinamento. “É necessário utilizar imagens com diferentes condições de luminosidade – manhã, meio-dia e entardecer – e em diversas situações climáticas: sol, nuvens e chuva”, detalha Torati. Esse treinamento minucioso garante que o sistema funcione eficientemente em todas as condições ambientais.

    Da neurociência à aquicultura: adaptando ferramentas científicas

    O projeto utiliza o DeepLabCut (DLC), um software de código aberto amplamente empregado em pesquisas de neurociência para rastrear movimentos de animais. No Laboratório de Neurociências Comportamental e Molecular (LANEC) da UFMG, a ferramenta é usada principalmente para analisar o comportamento de ratos em tarefas de aprendizagem.

    A engenheira e doutoranda Natália Martínez, do Programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFMG, colabora na adaptação dessa tecnologia para o contexto da aquicultura. A diferença fundamental está no objetivo: enquanto nos roedores o foco é compreender mecanismos de memória e aprendizagem, no pirarucu a IA monitora padrões que refletem bem-estar, crescimento e comportamento reprodutivo.

    Detecção precoce: o santo graal da piscicultura de pirarucu

    O grande desafio enfrentado pelos produtores está na identificação do momento exato da formação do ninho. Após receberem implantação hormonal, o casal de pirarucus forma um ninho onde a fêmea deposita os ovos para serem fertilizados pelo macho.

    Pesquisador Lucas Torati. Foto: Arquivo pessoal

    Durante o cuidado parental, comportamento característico da espécie, o casal permanece sempre no mesmo local e para de buscar alimento. A identificação precoce desse momento é crucial para o sucesso da produção.

    “Se fosse possível coletar ovos recém-fertilizados, certamente aumentaria a taxa de sobrevivência”, destaca Torati. Atualmente, os produtores perdem milhares de alevinos pela demora em retirá-los dos viveiros. O sistema de IA promete identificar o momento exato da formação do ninho, permitindo intervenção no tempo ideal.

    Além da reprodução

    As aplicações da inteligência artificial na criação de pirarucu vão muito além do monitoramento reprodutivo. Os pesquisadores vislumbram um leque de possibilidades para os próximos anos.

    O sistema poderá avaliar como fatores ambientais – temperatura da água, níveis de oxigênio e amônia – interferem na frequência respiratória dos peixes. Também será possível identificar períodos de maior atividade, medir níveis de estresse pós-manejo durante biometrias e até detectar reflexos comportamentais de diferentes doenças.

    “A IA permite monitorar eficiência alimentar e consumo de comida automaticamente, sem contagem manual”, projeta Torati. Uma perspectiva ainda mais ambiciosa é o cálculo automático de biomassa através de análise fotográfica, eliminando a necessidade de manejos estressantes em peixes que podem superar 100 quilos.

    Financiamento e parcerias estratégicas

    O projeto conta com recursos do consórcio internacional de pesquisa Aquavitae, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (FAPT) e de emenda parlamentar do senador Eduardo Gomes (Tocantins). A colaboração entre Embrapa e UFMG demonstra o potencial da união entre instituições de pesquisa para desenvolver soluções inovadoras para desafios brasileiros.

    A tecnologia desenvolvida representa um salto qualitativo para a aquicultura nacional. Ao transformar dados comportamentais em informações quantitativas, padronizadas e contínuas, o sistema facilita a tomada de decisões no manejo e aumenta a previsibilidade da produção.

    Para um setor que busca expansão sustentável e maior competitividade, ferramentas como essa podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso comercial. O pirarucu, valorizado no mercado nacional e internacional, ganha aliados tecnológicos para consolidar sua posição como uma das principais espécies da piscicultura brasileira.

  • Sistema reduz em 90% o uso de água na produção de tilápias

    Sistema reduz em 90% o uso de água na produção de tilápias

    Uma nova tecnologia promete revolucionar a aquicultura brasileira. O sistema de bioflocos (BFT) desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente em parceria com a Itaipu Binacional demonstrou ser capaz de produzir tilápia com uso mínimo de água e redução significativa do impacto ambiental.

    O estudo, realizado durante 70 dias em tanques experimentais, comprovou que a técnica utiliza apenas 135 litros de água por quilo de peixe produzido — uma economia expressiva em comparação aos métodos tradicionais.

    Durante o período experimental, foram produzidos quase 5 mil alevinos de tilápia em cada tanque circular de 4,2 m³, mantendo alta densidade de 395 peixes por metro cúbico. Os resultados impressionaram os pesquisadores.

    “Alcançamos taxa de sobrevivência de 98%, peso médio final de 20,4 gramas e conversão alimentar aparente de apenas 1,05. Isso significa que apenas 1,05 kg de ração foram necessários para produzir 1 kg de peixe”, explica Tainara Blatt, técnica agrícola da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu.

    Segundo a especialista, a eficiência está relacionada ao consumo do floco microbiano, que funciona como alimento complementar rico em proteínas e bactérias probióticas.

    Redução drástica na liberação de poluentes

    Um dos principais destaques da pesquisa foi a redução na carga de nutrientes lançada no ambiente. O sistema BFT reteve 45,4% do nitrogênio, 46,3% do fósforo e 29,7% do carbono fornecidos pela ração.

    Biometria de alevinos de tilápia – Foto: Tainara Blatt/Embrapa

    “Ao fim do ciclo, a carga residual por tonelada de peixe foi de 10,24 kg de fósforo, 46,63 kg de nitrogênio e 442,47 kg de carbono. Nos sistemas tradicionais, como tanques-rede, esses valores podem chegar a 18,25 kg de fósforo, 77,50 kg de nitrogênio e 700 kg de carbono”, compara Hamilton Hisano, pesquisador da Embrapa.

    Como funciona o sistema de bioflocos

    A eficiência do BFT se deve à reciclagem de nutrientes pela ação de microrganismos que formam os bioflocos. Os técnicos monitoram continuamente a água dos tanques e controlam com rigor a temperatura, o oxigênio dissolvido, os sólidos suspensos e os nutrientes.

    O equilíbrio do sistema é mantido pela adição de açúcar como fonte de carbono, preservando a proporção carbono:nitrogênio em 12:1. Essa estratégia favorece o crescimento bacteriano em detrimento de algas.

    Como sistema fechado, o BFT oferece maior controle sobre a produção e os resíduos gerados, reduzindo o risco de escape de espécies e contaminação ambiental.

    Desafio energético precisa ser superado

    Apesar dos benefícios ambientais, André Watanabe e Celso Buglione, da Itaipu Binacional, identificaram um ponto crítico: o elevado consumo energético, estimado em 114,6 megajoules por quilo de peixe produzido.

    “A necessidade de aeração contínua exige muita energia. Para ampliar a adoção do BFT, é urgente investir em fontes renováveis e aprimorar a eficiência dos equipamentos”, afirmam os especialistas.

    Outro diferencial é o reaproveitamento dos resíduos sólidos removidos do sistema. Com potencial para serem transformados em fertilizantes ou ingredientes para ração, esses subprodutos podem agregar valor e contribuir para a economia circular.

    Solução ideal para regiões com escassez de água

    A baixa necessidade de renovação hídrica posiciona o BFT como alternativa estratégica para o semiárido e áreas periurbanas com uso restrito da água. O sistema também amplia a biossegurança e potencializa a produção em regiões urbanas.

    O pesquisador colaborador do projeto, Alex Cardoso, destaca que o grupo pode futuramente incorporar ferramentas como a análise do ciclo de vida e o cálculo da pegada de carbono para mensurar com mais precisão os impactos ambientais.

    Produtores aprovam tecnologia na prática

    Durante o International Fish Congress & Fish Expo Brasil 2025, mais de 30 participantes entre produtores, técnicos e estudantes conheceram a tecnologia em funcionamento na vitrine tecnológica instalada na usina de Itaipu.

    Valério Angelozi, produtor participante, demonstrou entusiasmo. “As técnicas de manejo de água são fundamentais para o bem-estar dos peixes e evitam perdas. O sistema reutiliza a água e promove sustentabilidade. Já penso em construir uma unidade experimental na minha propriedade”, revela.

    Flávio Cesar Urizzi, da SJ Fish, que já produz tilápia em sistema BFT, confirmou que os pontos críticos da pesquisa coincidem com a vivência dos produtores. “A densidade adequada de peixes por metro cúbico é determinante para viabilizar financeiramente os projetos. O sistema se destaca por manter alimento sempre disponível, resultando em peixes mais fortes e de maior qualidade”, afirma.

    Os pesquisadores concluem que o sistema BFT oferece uma solução tecnicamente viável e ambientalmente mais segura para a intensificação da aquicultura. Seu uso racional de recursos naturais e a capacidade de reter nutrientes o posicionam como alternativa estratégica frente às pressões por segurança alimentar e preservação dos ecossistemas.

    O trabalho com bioflocos na Embrapa Meio Ambiente começou em 2013 e ganhou novo impulso com a parceria da Itaipu Binacional. O estudo atual é uma continuidade de pesquisas iniciadas há três anos que já haviam comprovado vantagens dessa tecnologia.

  • Dia da Aquicultura: produção sustentável de pescado com tecnologia e inovação

    Dia da Aquicultura: produção sustentável de pescado com tecnologia e inovação

    Neste Dia Nacional da Aquicultura, celebrado em 20 de março, o estado de São Paulo se consolida como protagonista na produção sustentável de pescado, unindo ciência, tecnologia e conservação ambiental. Enquanto a pesca extrativista enfrenta riscos de esgotamento de estoques, a aquicultura surge como alternativa estratégica para garantir segurança alimentar, desenvolvimento econômico e preservação de ecossistemas aquáticos.

    A aquicultura não se limita ao cultivo de peixes. Em São Paulo, a prática abrange crustáceos (camarão e lagosta), moluscos (polvo e lula), algas e outros organismos aquáticos. O setor tem investido em inovações que elevam a produtividade, a qualidade dos produtos e a redução de impactos ambientais, posicionando-se como modelo para o país.

    O Instituto de Pesca (IP), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) e à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), é peça-chave nesse avanço. “Desenvolvemos tecnologias para nutrição, genética e sistemas produtivos eficientes, além de capacitar produtores e monitorar a qualidade da água. Tudo para fortalecer a economia azul”, afirma Luiz Ayrosa, pesquisador do IP.

    Algicultura SP: o programa que transforma algas em oportunidades

    Um dos destaques paulistas é o Programa Algicultura SP, coordenado pelo Instituto de Pesca. O programa fomenta o cultivo sustentável de macroalgas – recurso com aplicações que vão de alimentos a biocombustíveis. A estrela do projeto é a Kappaphycus alvarezii, alga usada na produção de carragenana (gelatina natural), biofertilizantes, bioplásticos e cosméticos.

    “Essa macroalga tem alto potencial comercial e estratégico para o Brasil”, ressalta Valéria Gelli, coordenadora do programa. Em parceria com instituições como USP, UNICAMP e UFMG, o IP aprimora técnicas de cultivo e expande aplicações da espécie, que já movimenta 1,5 mil toneladas/ano no país, com possibilidade de chegar a 170 mil toneladas anuais, segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA).

    Biofertilizante de algas: a solução sustentável para a agricultura

    Um dos frutos da pesquisa é o biofertilizante à base de macroalgas, desenvolvido desde 2015 pelo IP. O extrato aquoso, obtido a partir da trituração de algas frescas, mostrou resultados promissores em cultivos como alface e hortelã:

    • Aumento de 20% no peso das plantas;
    • Crescimento acelerado e maior número de nós (essenciais para a ramificação);
    • Redução da dependência de fertilizantes químicos.

    “Esse biofertilizante é uma revolução verde. Ele alia produtividade à sustentabilidade, um passo crucial para a agricultura do futuro”, destaca Gelli.

    Com investimentos em tecnologia e parcerias científicas, São Paulo avança na diversificação da aquicultura. Além das algas, o estado explora sistemas integrados de cultivo, como a aquaponia (que une peixes e plantas). E investe em melhoramento genético de espécies nativas, como o pacu e o tambaqui.

    “A aquicultura paulista não apenas alimenta, mas também preserva. Cada avanço aqui é um legado para as próximas gerações”, conclui Ayrosa.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Brasil receberá reconhecimento como livre de aftosa em maio
    + Agro em Campo: Sucuri-verde de 4 metros mata cachorro em Várzea Grande