Tag: aquecimento global

  • Ventania e tempestades: os últimos eventos extremos do clima têm relação com o El Niño?

    Ventania e tempestades: os últimos eventos extremos do clima têm relação com o El Niño?

    Rajadas de vento acima de 120 km/h, enchentes, temporais e até um tornado chamaram a atenção dos brasileiros nos últimos dias. Diante da sequência de ocorrências, uma dúvida passou a ganhar força: tudo isso tem relação com o El Niño?

    A resposta dos especialistas é mais complexa do que parece.

    Segundo meteorologistas, o El Niño já está ativo no Oceano Pacífico, mas ainda não é o principal responsável pelos eventos registrados nesta semana no Sudeste. No entanto, o fenômeno pode aumentar o risco de extremos climáticos nos próximos meses.

    O que causou a ventania em São Paulo e no Rio de Janeiro?

    As rajadas que atingiram os dois estados foram provocadas principalmente pela chegada de uma frente fria após um período marcado por calor intenso e tempo seco.

    O contraste entre massas de ar com características muito diferentes gerou uma situação conhecida como frente de rajada, capaz de produzir ventos extremamente fortes.

    De acordo com especialistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), esse tipo de ocorrência é raro durante o inverno no Sudeste.

    Embora o El Niño esteja presente no Pacífico, os meteorologistas afirmam que não existe uma ligação direta entre o fenômeno e os ventos registrados recentemente.

    Onde o El Niño já influencia o clima?

    No Sul do Brasil, a situação é diferente.

    Os temporais que atingiram diversas cidades do Rio Grande do Sul ocorreram em um contexto climático mais favorável à atuação do El Niño.

    Historicamente, o fenômeno altera os padrões atmosféricos e aumenta a frequência de episódios de chuva acima da média na região.

    Além das enchentes, as condições mais quentes da atmosfera favorecem a formação de tempestades severas, granizo e até tornados.

    Alterações no clima

    O El Niño acontece quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal.

    Esse aquecimento modifica a circulação da atmosfera e afeta os regimes de chuva e temperatura em várias partes do planeta.

    Imagens do satélite mostram variações no nível do mar em junho de 2026; áreas em vermelho indicando águas mais elevadas no Pacífico equatorial, sinal típico associado ao desenvolvimento do El Niño — Foto: Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA

    No Brasil, os principais impactos costumam incluir:

    Aumento das chuvas no Sul;

    Redução das precipitações em áreas do Norte e Nordeste;

    Maior irregularidade climática no Sudeste e Centro-Oeste.

    O que esperar nos próximos meses?

    A Organização Meteorológica Mundial (OMM) e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontam que o El Niño deve ganhar força ao longo do segundo semestre.

    As projeções indicam que o aquecimento do Pacífico poderá atingir níveis compatíveis com um episódio forte, elevando o risco de secas, ondas de calor, enchentes e outros eventos extremos em diferentes regiões do mundo.

    “O El Niño já está em curso e deve se fortalecer rapidamente, transformando-se em um evento forte”, afirmou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.

    Especialistas ressaltam, porém, que o El Niño não atua sozinho.

    O aquecimento global continua sendo considerado o principal fator por trás do aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos observados nas últimas décadas.

    Histórico

    • 2006–2007: El Niño fraco a moderado.
    • 2009–2010: El Niño moderado.
    • 2014–2016: El Niño muito forte, ligado a recordes de calor e extremos mais frequentes.
    • 2018–2019: El Niño fraco a moderado, mais curto e com impactos mais limitados.
    • 2023–2024: El Niño forte, um dos mais intensos já registrados, associado a novos recordes de calor.
  • Aquecimento global afeta reprodução dos peixes

    Aquecimento global afeta reprodução dos peixes

    Em muitas espécies de peixes, a temperatura da água determina se o filhote nascerá macho ou fêmea. Um mecanismo biológico que, diante do aquecimento global, ameaça extinguir populações inteiras pela escassez de fêmeas.

    No entanto, um estudo internacional realizado na Espanha, na França e no Brasil descobriu que esse conhecido efeito de masculinização pode ser compensado ao longo das gerações. Em um experimento de dez anos com mais de 3 mil indivíduos de robalo-europeu (Dicentrarchus labrax), os cientistas observaram que a maioria de machos nascida nas primeiras gerações sob calor intenso foi surpreendentemente revertida pelo nascimento de mais fêmeas na terceira geração.

    Os resultados foram publicados em março na revista Global Change Biology

    “Observamos que os efeitos do aquecimento não são cumulativos para algumas linhagens dessa espécie. O que nos dá uma esperança sobre o impacto das mudanças climáticas sobre os peixes. Pelo menos no que se refere aos aspectos reprodutivos”, conta Maira da Silva Rodrigues, coautora do estudo. Que foi realizado durante seu doutorado no Instituto de Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (IBB-Unesp), com bolsa da FAPESP.

    O robalo-europeu (Dicentrarchus labrax) é parente distante dos peixes conhecidos como robalo no Brasil. Foto: Nasser Halaweh

    Rodrigues realizou as análises das gônadas, testículos e ovários da terceira geração de robalos-europeus do experimento, sob orientação de Rafael Henrique Nóbrega, professor do Departamento de Biologia Celular e Molecular do IBB-Unesp, apoiado pela FAPESP.

    Masculinização da espécie

    “O maior número de machos é um fenômeno que afeta populações de espécies de peixes que têm o sexo definido, em parte, pela temperatura da água. Há tempos se debate se um planeta mais quente poderia levar essas espécies à extinção, uma vez que, em tese, não haveria mais fêmeas. O que o estudo mostra é que, pelo menos para a espécie analisada, ocorre uma compensação que poderia dar conta desse efeito deletério do aquecimento”, explica Nóbrega.

    No gráfico, três espécies analisadas pelo grupo de Botucatu na perspectiva da resposta hormonal e do desenvolvimento sexual sob temperaturas elevadas. Imagem: Maira Rodrigues/IBB-Unesp

    No entanto, a terceira geração, ou seja, os netos da primeira e filhos da segunda geração estudados, não ficou totalmente imune aos efeitos de terem se desenvolvido em um ambiente mais quente (21 °C, em vez dos 16 °C das populações-controle).

    “Os machos da geração mais recente, que teve mais fêmeas, tiveram um atraso significativo na maturação das gônadas. Não sabemos o que pode acontecer com a geração seguinte por conta disso. As fêmeas, por sua vez, não tiveram o desenvolvimento gonadal afetado”, afirma Rodrigues.

    Mensageiros ambientais

    O trabalho foi realizado com uma espécie do hemisfério Norte, que vive em águas normalmente mais frias do que as dos trópicos. Apesar do nome, é parente distante dos peixes conhecidos como robalo no Brasil, com um desenvolvimento sexual diferente.

    Não se sabe ainda qual seria o efeito do aquecimento ao longo de gerações em espécies tropicais e neotropicais, como as do Brasil. Por isso, os pesquisadores estão ampliando suas pesquisas para espécies brasileiras, a começar pelo lambari (Astyanax lacustris).

    “Um dos focos mais inovadores dessas pesquisas é o papel dos microRNAs presentes no sêmen. Que podem atuar como mensageiros ambientais capazes de transmitir informações do pai para a prole”, diz Nóbrega.

    Segundo o pesquisador, esses pequenos RNAs podem influenciar diretamente o desenvolvimento embrionário, a fertilidade e a capacidade adaptativa das futuras gerações de peixes, abrindo uma nova fronteira para o entendimento da herança paterna em vertebrados.

    Em trabalho anterior apoiado pela FAPESP (projetos 20/15237-0 e 18/10265-5), o grupo de Botucatu, em colaboração com pesquisadores da Argentina e do Canadá, mostrou que o calor não apenas altera diretamente a proporção sexual, como também ativa mecanismos hormonais profundos.

    No gráfico, três espécies analisadas pelo grupo de Botucatu na perspectiva da resposta hormonal e do desenvolvimento sexual sob temperaturas elevadas (imagem: Maira Rodrigues/IBB-Unesp)

    Os experimentos com o peixe medaka (Oryzias latipes), nativo da Ásia, demonstraram que os hormônios da tireoide, especialmente o T3, atuam como peças-chave na masculinização induzida pela temperatura.

    Eixo de estresse

    Assim, a exposição ao calor ativa o eixo de estresse, aumentando os níveis de cortisol, que por sua vez estimula o eixo tireoidiano, elevando os níveis de T3 e promovendo o desenvolvimento testicular. Quando essa resposta ao estresse é bloqueada, a masculinização deixa de ocorrer, evidenciando que o fenômeno depende de uma complexa interação entre diferentes sistemas hormonais.

    “As descobertas estão mudando a forma como se enxergam os efeitos das mudanças climáticas. Em vez de respostas simples e lineares, mostramos que há um cenário complexo. Em que hormônios, genes, histórico ambiental e herança transgeracional interagem para moldar o destino das populações”, ressalta Rodrigues.

    “Ainda não se sabe até que ponto esses mecanismos serão suficientes para compensar os impactos do aquecimento global. Mas está claro que, para prever o futuro da biodiversidade, será essencial olhar além de uma única geração e entender como a vida responde, se adapta e, possivelmente, resiste ao longo do tempo”, encerra Nóbrega.

    André Julião | Agência FAPESP

  • Metade das crianças do mundo enfrenta ao menos três riscos climáticos, alerta Unicef

    Metade das crianças do mundo enfrenta ao menos três riscos climáticos, alerta Unicef

    As mudanças climáticas ampliaram os desafios enfrentados por milhões de crianças ao redor do mundo. Segundo um novo relatório do Unicef, mais de 1 bilhão de crianças já vivem sob a influência de três ou mais riscos climáticos simultâneos, o que impacta diretamente a saúde, a educação e as condições de sobrevivência.

    O levantamento aponta que, com o agravamento da crise climática global, praticamente todas as crianças do planeta estão expostas a pelo menos uma ameaça relacionada ao clima. O fenômeno não afeta apenas países em desenvolvimento, mas também nações de alta renda.

    Riscos climáticos

    O estudo considera oito tipos de riscos climáticos, incluindo calor extremo, ondas de calor prolongadas, incêndios florestais, secas, enchentes costeiras, inundações em rios, tempestades tropicais e tempestades de areia e poeira.

    Para a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell, os efeitos desses eventos já transformam a rotina de milhões de crianças. Além disso, Russell destacou ao jornal The Guardian que a situação se tornou ainda mais preocupante nos últimos anos.

    “Metade das crianças do mundo agora vive com pelo menos três ameaças climáticas sobrepostas moldando sua vida diária”, declarou.

    Crianças enfrentam perigos para estudar

    As consequências da crise climática vão muito além dos danos ambientais. Imagens divulgadas pela agência da ONU mostram crianças da Papua-Nova Guiné atravessando um rio a nado para chegar à escola após uma ponte ter sido destruída por fortes chuvas.

    O cenário se torna ainda mais preocupante porque o rio é habitado por crocodilos. Uma das estudantes afetadas é Lorna, de 15 anos, que relatou as dificuldades enfrentadas diariamente.

    “Meu sonho é ser professora ou piloto. Queremos uma nova ponte para poder ir à escola com segurança todos os dias”, disse.

    Centenas de crianças atravessam diariamente o rio Kemp Welch, em Papua Nova-Guiné, para chegar à escola — Foto: Reprodução/Unicef

    A jovem também explicou que, durante o período menstrual, meninas da comunidade são impedidas pelos mais velhos de atravessar o rio devido à crença local de que isso poderia atrair crocodilos.

    Segundo o diretor da escola local, Charlie Vali David, a ausência da ponte prejudica a frequência escolar e aumenta significativamente os riscos para os estudantes.

    “Na temporada de monções, correntes fortes, árvores mortas e detritos bloqueiam o rio, causando ferimentos e morte”, afirmou.

    De acordo com o Unicef, a comunidade não conseguiu arrecadar recursos suficientes para reconstruir a estrutura, destruída em 2012.

    Eventos extremos afetam educação, saúde e segurança infantil — Foto: Reprodução/Unicef

    África e Ásia concentram áreas mais vulneráveis

    O relatório também identifica regiões onde os impactos climáticos são particularmente severos. No Sahel, faixa localizada na África, mais de 4 milhões de crianças estão expostas simultaneamente a ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia e poeira.

    Da mesma forma, países asiáticos como Bangladesh, Mianmar e Paquistão figuram entre os locais onde crianças enfrentam o maior número de ameaças climáticas combinadas em todo o mundo.

    No entanto, o estudo mostra que os efeitos das mudanças climáticas não se restringem a países de baixa renda. Em nações desenvolvidas, eventos extremos também representam riscos.

    Crianças brincam perto de uma fonte para escapar do calor na Califórnia, EUA — Foto: THX/VNA

    Na Itália, por exemplo, mais de 6 milhões de crianças estariam expostas à combinação de ondas de calor prolongadas e escassez de chuvas, segundo os dados do Unicef.

    A entidade defende que governos e empresas intensifiquem os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e acelerem medidas de adaptação climática. Além disso, o organismo recomenda investimentos em infraestrutura, educação, saúde e serviços essenciais voltados às crianças, consideradas um dos grupos mais vulneráveis.

  • Risco de um super El Niño aumentou? Novas previsões indicam aumento do aquecimento no Pacífico

    Risco de um super El Niño aumentou? Novas previsões indicam aumento do aquecimento no Pacífico

    Novas previsões climáticas divulgadas em maio aumentaram a preocupação de especialistas sobre a formação de um El Niño forte nos próximos meses. Apesar disso, cientistas alertam que ainda é cedo para afirmar que o fenômeno atingirá níveis extremos, conhecidos informalmente como “super El Niño”.

    O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos elevou o status para “alerta de El Niño” e apontou 82% de chance de o fenômeno surgir entre maio e julho de 2026. Além disso, a probabilidade de ele continuar ativo até o início de 2027 chega a 96%.

    Modelos meteorológicos internacionais também passaram a indicar um aquecimento mais intenso das águas do Pacífico tropical. Segundo análise da Climatempo, o fenômeno deve atingir pelo menos intensidade forte.

    Mesmo com os novos alertas, pesquisadores pedem cautela. A cientista atmosférica Kimberley Reid explicou que previsões feitas nesta época do ano ainda apresentam muitas incertezas.

    “O histórico mostra que previsões feitas nesta época do ano ainda carregam incertezas importantes”, afirmou à BBC.

    O que é o El Niño?

    O El Niño é um fenômeno climático natural marcado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Esse processo altera a circulação da atmosfera e influencia o clima em várias partes do planeta.

    Enquanto o El Niño aquece as águas do Pacífico, o La Niña provoca o efeito contrário, com temperaturas mais frias do que a média.

    Anomalia de temperatura no Oceano Pacífico. Valores em graus Celsius — (Dados divulgados pelo CPC/NOOA em 11/05/2026)

    Segundo especialistas, os sinais atuais já mostram um aquecimento consistente no oceano. A NOAA informou que o aquecimento das águas subsuperficiais aumentou pelo sexto mês consecutivo.

    O pesquisador José Marengo afirmou que o fenômeno realmente está se formando, mas destacou que ainda não é possível prever sua intensidade final.

    “Neste momento, o que podemos dizer é que o El Niño está se configurando, sim, e que esperamos talvez uma intensidade moderada a forte. Mas ainda é muito cedo para afirmar que será um super El Niño ou o pior do século”, disse.

    Possibilidade de “super El Niño”

    Meteorologistas monitoram especialmente a região chamada Niño 3.4, no Pacífico Equatorial. Quando as temperaturas permanecem mais de 1,5 °C acima da média durante vários meses, o evento costuma ser considerado muito forte.

    Modelos do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo já indicam possibilidade de aquecimento acima de 2,5 °C até o outono no hemisfério norte. Algumas projeções mais extremas sugerem temperaturas superiores a 3 °C.

    Mesmo assim, os cientistas reforçam que previsões feitas entre março e maio costumam apresentar maior margem de erro, fenômeno conhecido como “barreira de previsibilidade”.

    Quais podem ser os impactos?

    Especialistas alertam que um El Niño forte pode elevar ainda mais a temperatura global e aumentar o risco de recordes de calor em 2027.

    Além disso, o fenôeno costuma provocar secas severas em países como Austrália, Indonésia e Filipinas. Já regiões da América do Sul, especialmente Peru e Equador, podem enfrentar chuvas intensas e enchentes.

    No Brasil, os impactos variam conforme a região. Historicamente, o Sul registra aumento das chuvas, enquanto Norte e Nordeste enfrentam clima mais quente e seco.

    Segundo nota técnica do Cemaden, o fenômeno pode aumentar o risco de enchentes e deslizamentos no Sul do país. Ao mesmo tempo, Norte e Nordeste podem sofrer com seca e incêndios florestais.

    Marengo afirmou que autoridades já deveriam iniciar medidas preventivas: “Independentemente de o El Niño ser moderado, forte ou muito intenso, nós teremos impactos”, destacou. “Ainda não sabemos exatamente a magnitude, mas já conhecemos, com base em eventos anteriores, quais regiões podem ser mais afetadas.”

  • Aquecimento global ameaça produção de café

    Aquecimento global ameaça produção de café

    O aquecimento global está tornando os principais países produtores de café quentes demais para o cultivo do grão. Um estudo da organização Climate Central mostra que os cinco maiores produtores, responsáveis por cerca de 75% da oferta mundial, enfrentaram, em média, 57 dias extras de calor prejudicial ao café a cada ano, entre 2021 e 2025.

    Na Etiópia, berço do café arábica, mais de 4 milhões de famílias dependem da cultura como fonte principal de renda. O setor representa quase um terço das exportações do país. Mas o calor crescente ameaça o negócio. Segundo Dejene Dadi, diretor da União das Cooperativas de Produtores de Café de Oromia (OCFCU), as lavouras estão produzindo menos e se tornando mais vulneráveis a doenças. “O arábica etíope é muito sensível ao sol direto. Sem sombra, as plantas sofrem”, afirmou.

    O levantamento da Climate Central avaliou quantos dias as regiões de café superaram os 30 °C e comparou com um cenário sem poluição por carbono. O resultado mostrou forte impacto em toda a faixa tropical conhecida como o ‘cinturão do café’, onde a estabilidade de temperatura e chuvas é essencial para o cultivo.

    O Brasil, maior produtor mundial, que responde por 37% da produção global, registrou 70 dias a mais com calor extremo. El Salvador lidera a lista, com 99 dias adicionais, enquanto a Etiópia teve 34 dias, o que já afeta diretamente seus pequenos produtores.

    Recorde de preço

    De acordo com o Banco Mundial, os preços do café arábica e robusta quase dobraram entre 2023 e 2025, atingindo recorde histórico em fevereiro de 2025. A Climate Central estima que cerca de 2 bilhões de xícaras de café são consumidas por dia no mundo, o que torna o produto economicamente estratégico. E cada vez mais vulnerável às mudanças climáticas.

    Para reduzir os impactos, a cooperativa de Oromia distribuiu fogões mais eficientes para evitar o desmatamento nas áreas sombreadas onde o café cresce melhor. Mesmo assim, o financiamento climático ainda é insuficiente. Segundo um estudo recente, os pequenos produtores, responsáveis por 60% a 80% da produção global, receberam apenas 0,36% dos recursos necessários para adaptação em 2021.

    Assim, Dadi alerta que, sem apoio, os agricultores não conseguirão enfrentar o ritmo do aquecimento. “Se quisermos proteger o futuro do café, os governos precisam agir contra as mudanças climáticas”, disse.

  • Aquecimento global aumenta toxicidade de microplásticos em peixes

    Aquecimento global aumenta toxicidade de microplásticos em peixes

    Pesquisadores brasileiros comprovam que o aquecimento global transforma microplásticos em ameaças ainda mais severas para a vida aquática. A Embrapa e o Laboratório Nacional de Nanotecnologia do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (LNNano/CNPEM) conduzem estudos que demonstram como a elevação da temperatura da água intensifica a toxicidade dessas partículas microscópicas.

    A pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), também identifica que metais pesados como o cobre agravam os danos em peixes de valor ambiental e econômico.

    Microplásticos e metais pesados: combinação letal nos ecossistemas aquáticos

    Os ecossistemas aquáticos já sofrem pressões crescentes da poluição e degradação ambiental. Fragmentos de plástico , os microplásticos, chegam a rios, lagos e oceanos pelo descarte inadequado de resíduos e desgaste de materiais sintéticos.

    “No meio aquático, essas partículas não estão sozinhas e podem se combinar a poluentes químicos, sofrer alterações pela radiação solar, além de interagir com variações de temperatura. Esses fatores combinados podem gerar efeitos mais severos para a fauna aquática, desde alterações fisiológicas mais sutis até efeitos mais severos para os organismos”, explica Vera Castro, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (SP).

    Experimentos simulam cenários reais de aquecimento global

    A equipe da Embrapa realiza experimentos com zebrafish (Danio rerio) e tilápias (Oreochromis niloticus), simulando condições próximas à realidade ambiental. Os cientistas expõem os peixes a microplásticos envelhecidos pela ação de luz ultravioleta e associados ao cobre, metal comum em rejeitos industriais e agrícolas. Os pesquisadores mantêm a água em temperaturas médias e três graus acima, reproduzindo cenários previstos de aquecimento global.

    “Queremos avaliar não apenas a presença isolada dos microplásticos, mas como eles se comportam e se tornam mais ou menos tóxicos diante de mudanças ambientais concretas, como o aumento da temperatura e a exposição a metais”, explica Castro. A equipe analisa biomarcadores como taxas de sobrevivência, parâmetros hematológicos e respostas bioquímicas, que identificam alterações sutis no metabolismo e na saúde dos peixes antes que mortes ocorram.

    Resultados podem impactar segurança alimentar e piscicultura

    Os resultados ajudarão a compreender como esses poluentes afetam cadeias alimentares aquáticas e a piscicultura, setor estratégico para a segurança alimentar. Segundo Castro, há indícios de que o calor intensifica a ação tóxica dos microplásticos e do cobre, potencializando danos a tecidos, metabolismo e desenvolvimento dos peixes.

    Viviane Bettanin, membro da equipe, durante fase da pesquisa. Foto: Ana Maria Braga/Embrapa

    A pesquisa enfrenta obstáculos práticos para executar experimentos em condições controladas. Alfredo Luiz, também pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, explica que no caso do zebrafish, a equipe testa larvas de pequenas dimensões em microplacas com vários poços pequenos, onde colocam os organismos.

    “No caso da tilápia, são utilizados peixes juvenis, pois algumas análises são feitas no sangue e é preciso que cada indivíduo tenha um tamanho suficiente para permitir a coleta da amostra sanguínea”, afirma Luiz. Como o experimento precisa de dias para identificar possíveis efeitos dos poluentes, a equipe renova regularmente a água dos aquários para evitar acúmulo de excrementos.

    A dificuldade está em manter a concentração de cobre estável, mesmo realizando a troca periódica de parte da água. Além dos cálculos precisos da concentração dos poluentes a cada troca, a amostragem e análise da água monitoram possíveis flutuações.

    Interação entre fatores ambientais intensifica danos

    O estudo reforça que, no mundo real, os cientistas não podem avaliar a toxicidade dos microplásticos apenas de maneira isolada. Fatores ambientais, como o aquecimento global e poluentes adicionais, interagem de forma a intensificar os danos aos ecossistemas aquáticos. Entender essa interação é crucial para antecipar impactos, desenvolver estratégias de mitigação e proteger não apenas a biodiversidade, mas também atividades econômicas dependentes de águas limpas e saudáveis.

    Para Claudio Jonsson, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, a elevação da temperatura pode modificar a biodisponibilidade do poluente e aumentar a probabilidade de organismos aquáticos absorverem essas substâncias. Dessa forma, os organismos enfrentam estresses ambientais climáticos e aqueles proporcionados por agentes químicos, o que leva a alterações bioquímicas como o estresse oxidativo. Nesta situação, o organismo gera radicais livres com efeitos deletérios para o metabolismo celular, que a equipe pode medir pela atividade de enzimas (proteínas) antioxidantes.

    “O conhecimento dessas interações, em nível subcelular, é relevante para a obtenção de dados sobre concentrações seguras do poluente. Portanto, contribuindo para a proteção da fauna aquática”, destaca Jonsson.

    Como o organismo dos peixes responde aos poluentes

    Radicais livres

    • Moléculas instáveis surgem no organismo quando há exposição a estresses, como poluição ou aumento da temperatura. Em excesso, podem danificar células, proteínas e até o DNA.

    Estresse oxidativo

    • O desequilíbrio entre a produção desses radicais livres e a capacidade do organismo de neutralizá-los compromete o metabolismo e pode reduzir a sobrevivência dos peixes.

    Enzimas antioxidantes

    • Funcionam como “defesas internas” contra os radicais livres. Ao medir a atividade dessas enzimas, os cientistas conseguem identificar se os peixes sofrem com o estresse oxidativo antes mesmo de apresentarem sinais visíveis de doença ou morte.

    Entender essas reações em nível celular ajuda a determinar concentrações seguras de poluentes. E com isso, protegendo não apenas os ecossistemas. Mas também atividades econômicas dependentes da piscicultura e da pesca.

  • Estudo prevê clima de deserto em metade do Nordeste até 2100

    Estudo prevê clima de deserto em metade do Nordeste até 2100

    Um estudo apresentado pelo Centro Estratégico de Excelência em Políticas de Águas e Secas (CEPAS), em parceria com a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará, projeta que até o final do século o Nordeste brasileiro poderá ter até 99% de seu território sob condições áridas e semiáridas. O levantamento, divulgado no Boletim CEPAS na COP30, indica que o fenômeno da desertificação tende a se intensificar nas próximas décadas, especialmente no interior cearense, caso as emissões de gases de efeito estufa sigam em alta.

    Projeções alarmantes

    Com base em 19 modelos climáticos globais (CMIP6), o estudo avaliou a evolução das classes climáticas de Thornthwaite — que medem o equilíbrio entre temperatura e umidade — sob dois cenários de emissões: o intermediário (SSP2-4.5) e o de altas emissões (SSP5-8.5).

    Os resultados mostram que, mesmo com ações moderadas de mitigação, a área classificada como árida deve saltar de 3% para 26% do Nordeste até 2100, enquanto o semiárido avançará de 43% para quase 60%. Em um cenário extremo, de altas emissões, o quadro é ainda mais grave: o território árido pode alcançar 56,7% da região, e o semiárido, 42,4% — o que representa 99% da área total.

    “O futuro está sob disputa e a COP30 é uma arena importantíssima desta batalha”, afirma o relatório. “O planeta e o semiárido nordestino podem ser diferentes, com menos estresse hídrico, dependendo das decisões tomadas pelos Estados e coletivos humanos.”

    Impactos no Ceará e no semiárido

    O Ceará deve sentir os efeitos antes do restante da região. O estudo aponta que áreas hoje subúmidas — como os sertões dos Inhamuns, o Cariri e o médio Jaguaribe — tendem a se tornar semiáridas já nas próximas duas décadas. “O Ceará apresenta antecipação e intensificação da aridização em relação ao conjunto do Nordeste”, destaca o documento. “Os refúgios altimétricos e litorâneos resistem por mais tempo, mas encolhem e se fragmentam até 2100.”

    Entre as consequências diretas estão a redução da recarga subterrânea, o aumento da intermitência dos rios, a pressão sobre reservatórios. Por fim, a queda na produtividade agrícola. O avanço do clima seco também ameaça a biodiversidade e amplia a vulnerabilidade de comunidades rurais.

    Voz dos cientistas

    Para o professor Alexandre Araújo Costa, da Universidade Estadual do Ceará, o quadro exige urgência. “Identificar as possibilidades e limites de adaptação dos sistemas humanos e naturais em nosso semiárido é uma tarefa urgente”, afirma.

    Foto: Wilson Dias – Agência Brasil

    O engenheiro José Kerlly Soares de Araújo, pesquisador do grupo de risco climático da Universidade Federal do Ceará, reforça a gravidade das projeções: “O avanço da aridez, mesmo sob cenários moderados, evidencia a necessidade de fortalecer políticas públicas antecipatórias e inovar em tecnologias de uso eficiente da água.”

    Chamado à ação

    Além disso, na avaliação do diretor do CEPAS, Francisco de Assis de Souza Filho, o Nordeste é hoje “a fronteira climática do Brasil”. Ele defende que a gestão hídrica precisa se tornar adaptativa, integrando ciência, políticas públicas e comunidades locais.

    O boletim encerra, portanto, com três recomendações principais para os debates da COP30, que será realizada em Belém:

    1. Reconhecer que o processo de aridização é antecipado e amplamente corroborado por evidências científicas;

    2. Basear as respostas em ciência e gestão integrada dos recursos hídricos;

    3. Planejar a adaptação de forma territorial, com foco especial no semiárido nordestino.

    “Os sistemas de recursos hídricos devem se preparar para maior pressão de escassez”, conclui o estudo. Ou seja, “A adaptação precisa ser rápida, integrada e territorialmente focalizada.”

  • Mudanças climáticas elevam risco de tornados no Brasil

    Mudanças climáticas elevam risco de tornados no Brasil

    O tornado que destruiu 90% da cidade de Rio Bonito do Iguaçu (PR) acendeu um alerta sobre os efeitos das mudanças climáticas. O fenômeno, considerado extremo, deve servir como sinal de urgência para as autoridades que participam da Conferência da ONU sobre o Clima (COP30), em Belém (PA).

    Tornados e condições climáticas

    O secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, afirmou que o episódio revela o agravamento das condições climáticas no país e no mundo. Segundo ele, os últimos dez anos foram os mais quentes da história. “O que aconteceu no Paraná é grave e se repete em várias regiões do Brasil e do mundo”, destacou Astrini. “Esses eventos deveriam entrar no debate da COP, mas muitas vezes as discussões ficam distantes da realidade.”

    O especialista espera que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencione o desastre durante a abertura oficial da conferência, na segunda-feira (10). Para Astrini, a fala de Lula pode ajudar a sensibilizar líderes globais sobre a urgência de ações concretas. “O Brasil é vulnerável. Nossa agricultura e nossa matriz energética dependem da regularidade climática. Esperamos que essa realidade influencie as decisões da COP”, afirmou.

    A oceanógrafa Renata Nagai, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) com apoio do Instituto Serrapilheira, explica que as mudanças climáticas não causam diretamente os tornados, mas podem torná-los mais frequentes e intensos. “O aumento da queima de combustíveis fósseis eleva os gases de efeito estufa e aquece a atmosfera e os oceanos”, explicou Nagai. “Com mais calor e umidade, cresce a energia disponível para eventos meteorológicos extremos.”

    Entenda o fenômeno

    A pesquisadora lembra que os tornados são colunas de ar em rotação, formadas em tempestades intensas. Apesar de atingirem áreas pequenas, causam grandes destruições quando tocam o solo. A combinação de ar quente e alta umidade favorece o fenômeno.

    O professor Michel Mahiques, também da USP, reforça que o aquecimento global intensifica as diferenças de temperatura e pressão atmosférica, o que amplia o risco de fenômenos extremos. “Essas variações se acentuam com o avanço das mudanças climáticas, aumentando a probabilidade de tornados e tempestades severas”, explicou.

    O tornado no Paraná, segundo especialistas, é mais um exemplo do impacto direto das mudanças climáticas no cotidiano. O episódio reforça a necessidade de ações urgentes e coordenadas para conter o aquecimento global e proteger populações vulneráveis.

  • Mudanças devem acabar com produção de café, chocolate e vinho

    Mudanças devem acabar com produção de café, chocolate e vinho

    Três dos produtos mais consumidos no planeta, café, chocolate e vinho, enfrentam um futuro incerto diante das mudanças climáticas. Um estudo recente da Universidade Estadual do Colorado (CSU) traz um alerta preocupante: nem mesmo tecnologias avançadas de resfriamento artificial do planeta seriam suficientes para salvar essas culturas de luxo.

    A pesquisa, liderada pela Dra. Ariel L. Morrison, testou o impacto da injeção de aerossóis na estratosfera (SAI). A técnica espalha partículas reflexivas na atmosfera para reduzir temperaturas. Em 18 das principais regiões produtoras dessas culturas, os resultados foram desanimadores: apenas seis localidades mostraram melhora consistente.

    Definidas como produtos cultivados por seu alto valor de mercado, as culturas de luxo incluem café, cacau, chá, baunilha, açafrão e trufas. Milhões de agricultores dependem dessas plantações em regiões como Gana, Brasil e França, onde condições climáticas específicas sempre foram essenciais para a produção de qualidade.

    O problema é que essas condições estão mudando rapidamente. Temperaturas em elevação, padrões de chuva alterados e umidade irregular comprometem desde pequenas propriedades familiares até grandes vinhedos comerciais.

    Por que o resfriamento artificial falha

    A equipe da CSU analisou dados climáticos projetados para o período entre 2036 e 2045, utilizando modelos climáticos avançados e métricas de adequação agrícola. Embora a técnica SAI consiga reduzir temperaturas superficiais, ela não controla outros fatores críticos.

    “Reduzir a temperatura apenas com SAI não é suficiente”, explica a Dra. Morrison. “As espécies de cacau, por exemplo, embora mais tolerantes ao calor que café e uvas, são altamente suscetíveis a pragas e doenças causadas pela combinação de altas temperaturas, chuva e umidade.”

    O estudo revelou que o resfriamento pode até baixar temperaturas, mas não garante chuvas adequadas nem previne oscilações climáticas extremas. Em vinhedos, por exemplo, o calor excessivo na primavera provoca brotação precoce, aumentando o risco de geadas tardias que destroem as plantas.

    Cacau, café e vinho: cada um com seu desafio

    Cacau: nas regiões produtoras da África Ocidental, o aumento de semanas chuvosas favorece surtos de fungos como a “podridão-parda”, que estraga as vagens antes da colheita.

    Café: uma única noite fria pode comprometer os grãos, enquanto períodos secos prolongados prejudicam floração e desenvolvimento. No leste do Brasil, simulações mostraram ganhos de confiabilidade hídrica em alguns cenários e perdas em outros – volatilidade que dificulta planejamento de longo prazo.

    Vinho: vinhedos precisam de invernos definidos para descanso adequado. Temperaturas inconsistentes causam brotação fora de época, expondo as videiras a geadas destrutivas.

    A variabilidade natural complica o cenário

    Mesmo quando condições médias parecem aceitáveis, a variabilidade climática natural pode arruinar colheitas inteiras. Uma sequência inesperada de semanas chuvosas ou uma geada surpresa anulam os benefícios de temperaturas mais amenas.

    “A intervenção climática por SAI pode oferecer alívio temporário do aumento das temperaturas em algumas regiões, mas não é uma solução garantida”, adverte Morrison.

    Segundo os pesquisadores, a salvação dessas culturas depende de estratégias localizadas de adaptação. Entre as opções estão:

    • Mudança de variedades mais resistentes
    • Alteração no manejo da copa das plantas
    • Melhoria em sistemas de drenagem
    • Ajuste nas épocas de colheita
    • Investimento em sombreamento e proteção contra vento
    • Sistemas de irrigação e armazenamento de água

    “Estratégias de adaptação adaptadas às condições locais, investimento em práticas agrícolas resilientes e cooperação global são essenciais para salvar essas culturas e as comunidades que dependem delas”, conclui a cientista.

    Impacto global

    A crise não afeta apenas produtores rurais. O setor de culturas de luxo movimenta bilhões de dólares anualmente e emprega milhões de pessoas em países em desenvolvimento. A escassez desses produtos pode elevar preços drasticamente, tornando itens do cotidiano – como uma xícara de café ou uma barra de chocolate – verdadeiros luxos inacessíveis.

    O estudo deixa claro: as mudanças climáticas não estão apenas alterando o tempo, mas reescrevendo a geografia da produção agrícola mundial. Sem ações urgentes de adaptação, café, chocolate e vinho podem se tornar cada vez mais raros e caros nas próximas décadas.

  • Estudo revela como mudanças climáticas causaram tragédias no Brasil

    Estudo revela como mudanças climáticas causaram tragédias no Brasil

    O ano de 2023 entrou para a história brasileira pelos piores motivos: registrou a maior chuva em 24 horas já documentada no país, uma seca amazônica sem precedentes e uma sequência devastadora de ciclones no Rio Grande do Sul. O saldo trágico ultrapassou 120 vítimas fatais e alertou a população sobre uma realidade inescapável: as mudanças climáticas chegaram ao Brasil.

    Um estudo publicado nos Anais da Academia de Ciências de Nova York, conduzido por 19 pesquisadores brasileiros, finalmente esclarece os mecanismos atmosféricos por trás dessa onda de desastres. A pesquisa, liderada pela professora Luana Pampuch, da Unesp de São José dos Campos, revela como o El Niño, combinado ao aquecimento global, criou condições perfeitas para uma tempestade catastrófica de eventos extremos.

    Litoral paulista: a maior chuva da história

    Na madrugada de 18 para 19 de fevereiro de 2023, o litoral norte de São Paulo viveu seu pior pesadelo climático. Em apenas 24 horas, Bertioga registrou 682,8 mm de precipitação – um recorde nacional absoluto. O resultado: 65 mortos e 338 pessoas desabrigadas.

    O fenômeno começou quando uma massa de ar frio do Oceano Atlântico colidiu com o ar quente sobre o litoral. Esse encontro, comum na região, tornou-se catastrófico devido a condições anormais: as águas do Atlântico estavam entre 1°C e 2°C mais quentes que o usual, criando mais vapor d’água para alimentar as tempestades.

    “O ar quente, ao ser empurrado para cima pela frente fria, esfria e perde capacidade de reter umidade. Com oceanos mais quentes, há mais vapor disponível, resultando em chuvas extremamente volumosas”, explica o estudo.

    A Serra do Mar intensificou ainda mais o desastre. Seu relevo íngreme força o ar úmido a subir rapidamente, provocando as chamadas chuvas orográficas. Somado ao aquecimento oceânico – 0,9°C acima da média pré-industrial devido aos gases de efeito estufa – o cenário tornou-se explosivo.

    Rios voadores alimentaram a tragédia

    Outro fator crucial foram os “rios voadores”, tecnicamente conhecidos como jatos de baixos níveis sul-americanos. Esses fluxos atmosféricos transportam umidade da Amazônia para o sul do Brasil, mas são bloqueados pela Cordilheira dos Andes e redirecionados, intensificando precipitações em regiões específicas.

    “Não fizemos análises de atribuição específicas neste artigo, mas o aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos é compatível com um planeta em aquecimento”, afirma Camila Carpenedo, líder do Núcleo de Estudos sobre Variabilidade e Mudanças Climáticas da UFPR.

    Amazônia: quando os rios secaram

    Enquanto o Sudeste afogava em chuvas, a Amazônia sufocava na seca. Em 2023, o rio Amazonas despencou de 15,80 metros para apenas 12,70 metros em Manaus – mínima histórica que paralisou o transporte fluvial e devastou comunidades ribeirinhas.

    Foto: Divulgação Portal.Gov

    O culpado principal foi o El Niño, fenômeno climático cíclico registrado desde 1578. Durante episódios de El Niño, os ventos alísios enfraquecem, impedindo que águas quentes do Pacífico se desloquem para oeste. Isso altera drasticamente os padrões de circulação atmosférica global.

    Como funciona a Célula de Walker

    Em condições normais, as águas quentes do Pacífico concentram-se próximo à Ásia, criando uma zona de baixa pressão com muitas nuvens e chuvas sobre a Amazônia. Durante o El Niño, essas águas quentes permanecem próximas à costa das Américas, deslocando a zona chuvosa e deixando a região amazônica sob alta pressão atmosférica – sinônimo de céu limpo e seca prolongada.

    “Atmosfera e oceano estão conectados. Há um acoplamento entre as duas coisas”, destaca Luana Pampuch.

    O aquecimento global amplifica esse processo. Quanto mais quente a Terra, mais intensas são as variações provocadas pelo El Niño, gerando estiagens mais severas onde já se espera seca e chuvas mais violentas onde já chove naturalmente.

    A reversão climática provocada pelo El Niño também gerou uma zona de alta pressão sobre o Centro-Oeste brasileiro, resultando na temperatura mais alta já registrada no país: 44,8°C em Araçuaí (MG), em 19 de novembro de 2023.

    Rio Grande do Sul: quatro ciclones devastadores

    Entre junho e outubro de 2023, o Rio Grande do Sul enfrentou quatro ciclones extratropicais notáveis, deixando um rastro de destruição que prenunciava a megaenchente de 2024.

    O primeiro, em junho, foi o mais letal: despejou 80% da precipitação mensal esperada em poucas horas, matou 16 pessoas e desabrigou 10 mil. Em setembro, outro ciclone atingiu 106 cidades, especialmente o Vale do Taquari, fazendo 54 vítimas fatais e afetando 359 mil pessoas.

    Foto: Divulgação Agência Brasil – Rafa Neddermeyer

    A localização geográfica do Rio Grande do Sul o coloca próximo à frente polar – a fronteira turbulenta entre o ar gelado da Antártida e o ar quente dos trópicos. Essa zona, localizada entre os paralelos 30° e 60°, é berço natural de ciclones extratropicais.

    Diferente dos furacões tropicais, esses ciclones formam-se quando massas de ar frio e quente colidem, criando áreas de baixa pressão que funcionam como um “ralo” atmosférico, sugando ar ao redor e gerando redemoinhos gigantes de nuvens.

    “O espaço de tempo entre um ciclone e outro vai ser maior com o aquecimento global, então a atmosfera acumula mais energia. Além disso, ar mais quente armazena mais vapor de água, resultando em chuvas mais intensas”, explica Luiz Felippe Gozzo, professor de Meteorologia da Unesp Bauru.

    O futuro é preocupante

    As projeções científicas são alarmantes. Caso o planeta atinja 2°C acima dos níveis pré-industriais até 2100, trajetória provável nas políticas atuais, todos os fenômenos de 2023 se intensificarão.

    Os números projetados impressionam:

    • Chuvas fortes: 1,7 vezes mais frequentes e 14% mais intensas
    • Estiagens: 2,4 vezes mais comuns
    • Ciclones: menos frequentes, porém significativamente mais intensos

    “A América do Sul deve enfrentar eventos extremos mais intensos e contrastantes, com chuvas mais fortes em algumas regiões e secas mais longas em outras, impactando agricultura, recursos hídricos, biodiversidade e aumentando a vulnerabilidade social”, alertam Gozzo e Pampuch.

    Vale lembrar: 2024 já ultrapassou pontualmente a marca de 1,5°C de aquecimento (1,55°C), demonstrando que o futuro previsto pelos cientistas está se tornando presente mais rápido do que esperado.

    Entendendo as emissões: de 1850 a hoje

    O ponto de referência para medir o aquecimento global é o período entre 1850 e 1900, quando já havia industrialização, mas em escala insuficiente para afetar o clima perceptivelmente. Nessa época, a humanidade havia emitido apenas 12 gigatoneladas de carbono desde a Revolução Industrial.

    Entre 1901 e 2013, porém, as emissões dispararam para 380 gigatoneladas – mais de 30 vezes o total anterior. O resultado: a maior parte do aquecimento global aconteceu no século 20 e continua acelerando no século 21.

    A complexidade da atribuição climática

    Determinar a parcela exata de responsabilidade do aquecimento global em cada evento extremo é um desafio científico complexo. Fenômenos atmosféricos funcionam como dominós: uma pequena alteração em um parâmetro pode desencadear reações catastróficas em cadeia.

    “Nem todo evento extremo ocorre por causa do aquecimento global”, reconhecem os pesquisadores. Mas o padrão é inegável: os eventos estão ficando mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis.

    Enquanto meteorologistas trabalham para decifrar esse quebra-cabeça climático, a responsabilidade pela prevenção recai sobre governos, empresas e sociedade. Infelizmente, as medidas tomadas até agora ainda estão muito aquém do necessário para evitar tragédias ainda piores nas próximas décadas.

    Com informações do Jornal da Unesp – Bruno Vaiano