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  • Jambolão: conheça a fruta que lembra tutti-frutti e resiste até à seca

    Jambolão: conheça a fruta que lembra tutti-frutti e resiste até à seca

    Pequenos frutos quase pretos despontam em cachos, atraem pássaros e deixam marcas arroxeadas por onde caem. O fenômeno se repete todos os anos em quintais, chácaras e áreas arborizadas do Brasil, mas ainda intriga muita gente: poucos conhecem a árvore que produz esses frutos até vê-la carregada.

    jambolão no jamboleiro
    Foto: Baraviera/Flickr

    A responsável pela cena é o jamboleiro, árvore que dá origem ao jambolão, também chamado de jamelão, azeitona-preta, ameixa-roxa ou guapê. A casca roxa-escura e a polpa carnosa escondem um sabor que costuma pegar quem prova de surpresa: a mistura de doçura, acidez e leve sensação de boca seca lembra, para muita gente, balas ou chicletes de tutti-frutti.

    De onde vem o jambolão

    O nome científico da espécie é Syzygium cumini, e a árvore pertence à mesma família da pitanga e da goiaba, já que a planta se originou no sul da Ásia e em regiões da Oceania. Os portugueses trouxeram a espécie para o Brasil ainda no período colonial, e hoje o fruto figura entre as opções que os brasileiros consomem in natura, em sobremesas e até em chás.

    Adaptado ao clima tropical, o jamboleiro hoje ocupa as cinco regiões do país, com desenvolvimento melhor em áreas quentes ou de temperaturas amenas. A safra costuma se concentrar entre dezembro e maio, variando conforme a região, e no litoral nordestino, onde a fruta aparece com frequência.

    Como comer o jambolão

    O jeito mais simples de consumir o fruto é in natura: basta escolher unidades maduras, lavar bem, morder a polpa e descartar a semente, que ocupa boa parte do interior. Casca e polpa são comestíveis, mas o pigmento intenso mancha temporariamente a língua, as mãos, roupas, utensílios e pisos.

    Além do consumo fresco, o jambolão rende sucos, geleias, compotas, doces, molhos, vinagres, vinhos e licores. Frutos com mofo, cheiro desagradável ou sinais de apodrecimento não devem ir à mesa. O descarte é a orientação de segurança básica para esse tipo de fruta silvestre.

    O que a ciência já encontrou no jambolão

    A coloração arroxeada do fruto vem principalmente das antocianinas, pigmentos que também aparecem em outras frutas escuras e que ajudam a neutralizar a ação dos radicais livres no organismo. Pesquisadores da Unicamp identificaram, em testes com extrato de jambolão, que essas antocianinas conseguem destruir células leucêmicas em laboratório, resultado que reforça o potencial antioxidante da fruta.

    Outro estudo, conduzido pela Universidade Federal do Maranhão com camundongas obesas, associou o extrato das folhas do jamboleiro, não da fruta em si, a melhoras nas funções metabólicas e reprodutivas dos animais, além de uma possível redução do colesterol, ainda que os pesquisadores tenham testado o efeito apenas em roedores. A fruta também concentra fibras, que favorecem a digestão, e um composto chamado jambolina, apontado por pesquisas como um dos responsáveis pelo baixo índice glicêmico do jambolão.

    Vale reforçar: os estudos disponíveis ainda são majoritariamente pré-clínicos, feitos em animais ou em laboratório. O jambolão não trata doenças nem substitui medicamentos ou acompanhamento médico. Portanto, seus benefícios só fazem sentido dentro de uma alimentação variada e equilibrada, sem excessos.

    Por que a fruta é difícil de achar no mercado

    O jamboleiro aparece em quintais, chácaras, praças e áreas arborizadas, mas o jambolão raramente chega às prateleiras dos grandes supermercados. A oferta comercial segue limitada, e o fruto costuma surgir, na época da frutificação, em feiras locais, propriedades rurais e com pequenos produtores.

    Jambolão na árvore
    Foto: José Wilson Francischinelli/Flickr

    Quem pretende colher frutos em espaços públicos precisa observar as condições da árvore e evitar exemplares que possam ter recebido produtos químicos. A higienização segue obrigatória antes do consumo, como em qualquer fruta colhida fora do circuito comercial tradicional.

    Uma árvore resistente e de fácil manejo

    Agrônomos classificam o jamboleiro como espécie rústica e adaptável. A planta se desenvolve melhor sob sol pleno, em solo fértil, com boa drenagem e espaço suficiente para as raízes e a copa crescerem sem restrições.

    O plantio pode começar por sementes retiradas de frutos maduros, embora mudas de viveiro costumem garantir um desenvolvimento mais uniforme. Nos primeiros meses, a árvore pede regas regulares, sem encharcamento do solo; depois de estabelecida, ela suporta períodos curtos de estiagem e exige poucos cuidados adicionais.

    Cuidados antes de plantar no quintal

    Apesar do crescimento relativamente fácil, o jamboleiro pode atingir grande porte. A espécie chega a dez metros de altura na fase adulta. Por isso, o plantio deve manter distância de muros, calçadas, encanamentos e fiações.

    Outro ponto de atenção envolve a queda dos frutos maduros, que pode manchar pisos, carros e roupas, além de deixar o chão escorregadio. A poda ajuda a controlar o tamanho da copa, mas precisa seguir técnicas adequadas para não prejudicar a árvore. Com espaço e planejamento, o jamboleiro retribui em sombra e em uma produção generosa para consumo fresco ou preparo de receitas.

  • Feijões da Amazônia têm 27% de proteína e superam média mundial

    Feijões da Amazônia têm 27% de proteína e superam média mundial

    Escondidos nas margens dos rios amazônicos, feijões cultivados por comunidades tradicionais do Acre revelam teores nutricionais que surpreendem a ciência. As variedades Costela de Vaca e Manteiguinha Branco, do tipo caupi, apresentam até 27% de proteína em sua composição – 35% acima da média mundial e significativamente superiores aos 20% encontrados em outras regiões do Brasil.

    Pesquisadores desenvolveram no Vale do Juruá uma pesquisa inédita que resultou na descoberta e integra a tese de doutorado “Qualidade nutricional e armazenamento de feijões do Juruá no Acre”, elaborada pela professora Guiomar Almeida Sousa, do Instituto Federal do Acre (Ifac), sob orientação do pesquisador da Embrapa Acre, Amauri Siviero.

    Antioxidantes em níveis recordes

    Além da alta concentração proteica, o estudo identificou teores impressionantes de antocianinas nas variedades Preto de Arranque e Preto de Praia. Essas substâncias antioxidantes naturais atingiram índices entre 420 e 962 microgramas por grama, superando largamente as variedades brancas e coloridas tradicionais.

    A ciência reconhece que as antocianinas combatem o envelhecimento celular e ajudam a prevenir doenças como câncer, problemas cardíacos e Alzheimer. Pesquisadores da Embrapa Acre realizaram as análises nutricionais no laboratório de Bromatologia, avaliando 14 variedades cultivadas ao longo dos rios Juruá, Breu, Tejo e Amônia.

    Agricultores familiares guardam patrimônio genético

    Agricultores familiares cultivam as variedades de maior valor nutricional em sistemas agrícolas tradicionais e realizam grande parte dos plantios durante o período seco, nas praias dos rios da região.

    “Essas variedades possuem pouco ou nenhum estudo, o que deixa claro que ainda temos muito a conhecer sobre elas”, afirma a professora Guiomar Almeida Sousa.

    Costela de Vaca, o segundo na linha superior, e Manteiguinha Branco, o primeiro na inferior. Foto: Amauri Siviero /Embrapa

    Segundo a pesquisadora, o conhecimento sobre a composição nutricional pode contribuir para a valorização do produto no mercado e maior geração de renda. “Esses aspectos favorecem a busca por mercados mais justos para os feijões do Juruá”, reforça.

    Conservação natural surpreende pesquisadores

    O estudo comprovou outra característica notável: após 12 meses de armazenamento em diferentes embalagens, os grãos mantiveram integralmente seus valores nutricionais.

    “Esse é um ponto muito importante, considerando que as sementes são selecionadas e manejadas por agricultores familiares, indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais. Ao longo dos anos, foram sendo adaptadas às formas de manejo dessas populações e às condições específicas de seus locais de cultivo”, explica Siviero.

    Marechal Thaumaturgo: capital dos feijões amazônicos

    Durante três anos, a pesquisa mapeou a diversidade de feijões no Acre e revelou Marechal Thaumaturgo como o município com maior variedade: 23 tipos diferentes de feijões, entre comuns (Phaseolus vulgaris) e caupi (Vigna unguiculata).

    O acesso ao município, possível apenas por via fluvial ou aérea, reforça a importância da produção local para a segurança alimentar regional.

    “Vimos que o feijão-comum é cultivado em terra firme, enquanto o feijão-caupi cresce em várzeas, em pequenos roçados de um hectare, por agricultores familiares. Na região do Baixo Acre, a mais populosa, predomina o cultivo de apenas três variedades”, destaca Siviero.

    Centro mundial de conservação de feijões

    “O Vale do Juruá pode ser considerado um dos principais centros de conservação on farm de feijões caupi e comum do mundo”, afirma Eduardo Pacca, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) que pesquisa agrobiodiversidade regional.

    Foto: Felipe Sá/Embrapa

    A sistematização da ocorrência de variedades crioulas resultou na elaboração do mapa de distribuição de feijões no Acre, confirmando que o cultivo ocorre em todos os municípios, mas a maior diversidade concentra-se no Vale do Juruá.

    Caminho para mercados premium e selos de qualidade

    Siviero aponta que o conhecimento sobre as características nutricionais pode incentivar o desenvolvimento de mercados selecionados, onde consumidores estejam dispostos a pagar por um feijão diferenciado.

    Em setembro de 2024, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) lançou o Selo Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, que visa valorizar produtos de populações tradicionais. Associações e cooperativas podem requerer esse reconhecimento para os feijões crioulos.

    Segundo Pacca, os feijões do Juruá têm potencial para obter certificação orgânica e selo de Indicação Geográfica, a exemplo da farinha de mandioca da região. “Daí a vantagem de embalar a vácuo, como forma de evitar o uso de inseticidas contra insetos-praga de grãos armazenados”, destaca.

    Projeto mapeia sistemas agrícolas ancestrais

    Os feijões do Vale do Juruá estão sendo mapeados pelo projeto “Registro dos Sistemas Agrícolas Tradicionais do Alto Juruá” (RSAT Alto Juruá), que reúne pesquisadores da Embrapa Acre, Embrapa Amazônia Ocidental, Embrapa Amazônia Oriental, Embrapa Solos, Ufac e Ifac.

    Plantio de feijão na praia do Vale do Juruá. Foto: Felipe Sá/Embrapa

    Em agosto de 2025, a equipe percorreu mais de 190 quilômetros de barco pelo rio Juruá, visitando comunidades ribeirinhas em Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Cruzeiro do Sul (AC), Ipixuna e Guajará (AM).

    “Os Sistemas Agrícolas Tradicionais representam mais do que formas de produzir alimentos. Os feijões do Vale do Juruá se perpetuam como herança passada entre gerações e como práticas de conservação da agrobiodiversidade”, explica Siviero, coordenador do projeto.

    Sabedoria ancestral produz e preserva

    A pesquisadora Elisa Wandelli, da Embrapa Amazônia Ocidental, destaca que a agricultura dos ribeirinhos do Juruá exemplifica sustentabilidade. “Vimos uma população sábia que mostra que é possível produzir alimento e cuidar da natureza ao mesmo tempo. Essa sabedoria ancestral guarda conhecimentos transmitidos por avós e bisavós que devem ser protegidos e melhor valorizados”, afirma.

    Pedro Bezerra da Silva, agricultor da Comunidade Novo Horizonte, em Porto Walter, planta macaxeira, banana e feijão todo ano. “Grande parte da alimentação da família vem do que plantamos e o que sobra vendo para aumentar a renda. Se eu não plantar, não tenho como comprar todos os alimentos na cidade”, diz.

    Ele relata mudanças climáticas na região: “Nos últimos anos, o verão tem ficado cada vez mais quente. Já teve ano de secar tudo quanto é broto de água até na mata”.

    Destaque na COP 30

    Os sistemas agrícolas tradicionais, alinhados aos princípios da agricultura sustentável, eixo central da COP 30, compõem a programação da AgriZone, espaço da Embrapa dedicado a iniciativas inovadoras e inclusivas.

    “Nossa participação na COP 30 reforça a necessidade de valorizar os registros dos sistemas agrícolas tradicionais no Brasil e no mundo, ao mesmo tempo em que busca sensibilizar formuladores de políticas públicas sobre a necessidade de criar ações específicas para fortalecer e proteger essas comunidades”, enfatiza Siviero.

  • Embalagem inteligente: ela muda de cor para avisar que o peixe estragou

    Embalagem inteligente: ela muda de cor para avisar que o peixe estragou

    Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma embalagem inteligente que muda de cor para indicar a deterioração de alimentos, como peixes. Cientistas da Embrapa Instrumentação (SP), em parceria com a Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ) e a Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, criaram a tecnologia utilizando pigmentos naturais extraídos do repolho roxo.

    A inovação emprega a técnica de fiação por sopro em solução para produzir mantas de nanofibras inteligentes. Essas mantas, utilizadas como embalagens, são capazes de monitorar a qualidade de alimentos em tempo real pela alteração da cor. A interação química entre os compostos liberados durante a deterioração e o material da embalagem desencadeia a mudança de cor.

    Em testes laboratoriais com filés de merluza, a manta apresentou ótimos resultados. Inicialmente, a cor roxa indicava que o alimento estava apropriado para consumo. Após 24 horas, a cor tornou-se menos intensa; após 48 horas, surgiram tons azul-acinzentados. E passadas 72 horas, a coloração azul sinalizou a deterioração do filé de peixe armazenado, sem a necessidade de abrir a embalagem. ​

    Josemar Gonçalves de Oliveira Filho desenvolveu o processo para embalagem inteligente em seu pós-doutorado. Foto: Matheus Falanga

    Segundo o pesquisador Josemar Gonçalves de Oliveira Filho, “as nanofibras demonstraram capacidade de monitorar a deterioração de filés de peixe em tempo real, revelando potencial como materiais de embalagem inteligentes para alimentos”. ​

    Pesquisa brasileira

    A técnica de fiação por sopro em solução (SBS) foi desenvolvida em 2009 por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), da Embrapa Instrumentação e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Ela é capaz de produzir micro e nanoestruturas poliméricas com diversas vantagens, como rapidez no desenvolvimento das nanofibras, escalabilidade, versatilidade, fácil manejo, baixo custo e menor consumo de energia. ​

    A pesquisa utilizou antocianinas, pigmentos naturais encontrados em plantas, frutas, flores e vegetais, que mudam de cor conforme o pH do meio em que se encontram. Os pesquisadores extraíram as antocianinas de resíduos de repolho roxo, rico nesse pigmento, e combinaram com a policaprolactona, um polímero biodegradável que possui boa flexibilidade e resistência mecânica. Essa combinação resultou em nanofibras capazes de monitorar mudanças de pH, detectar a produção de amônia e aminas voláteis. Além de identificar o crescimento de bactérias, indicadores essenciais para sinalizar a deterioração em produtos como peixe e frutos do mar. ​

    O sistema,utiliza pigmentos naturais extraídos do repolho roxo. Foto: Matheus Falanga

    A produção da manta de nanofibras inicia com uma solução polimérica, obtida pela mistura e agitação da policaprolactona, extrato de repolho e ácido acético. Essa solução é então introduzida no equipamento de SBS, que utiliza gás comprimido e um coletor rotativo para formar as nanofibras em escala nanométrica. Elas são similares a fibras de algodão. ​

    O uso de resíduos do setor varejista para extrair antocianinas e aplicá-las como indicadores colorimétricos pode agregar valor a esses alimentos descartados. Ao mesmo tempo em que reduz o impacto ambiental negativo do descarte. Além disso, pode trazer segurança aos alimentos armazenados ao detectar rapidamente a sua deterioração.

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