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  • Fungicidas agrícolas ameaçam eficácia de tratamentos contra infecções fúngicas graves

    Fungicidas agrícolas ameaçam eficácia de tratamentos contra infecções fúngicas graves

    O crescente uso de fungicidas agrícolas no Brasil está comprometendo a eficácia dos medicamentos utilizados no tratamento de infecções fúngicas potencialmente fatais em humanos. O alerta foi formalizado em dezembro de 2024 através do Documento de Botucatu, uma moção aprovada por 51 pesquisadores brasileiros e internacionais durante encontro na Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp.

    O fungo Aspergillus fumigatus, causador da aspergilose invasiva, está desenvolvendo resistência aos poucos antifúngicos disponíveis no mercado. Com apenas quatro classes de medicamentos para combatê-lo, o cenário preocupa especialistas em saúde pública global.

    O Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais de fungicidas agrícolas, especialmente os triazóis. Essa é a mesma classe de compostos utilizada no tratamento médico de infecções fúngicas graves. Nas últimas três décadas, o uso agrícola desses produtos saltou de 20 mil para 160 mil toneladas anuais desde o início dos anos 2000.

    A exposição constante do fungo aos triazóis funciona como pressão seletiva darwiniana: elimina os indivíduos suscetíveis e favorece a sobrevivência de linhagens naturalmente resistentes devido a mutações genéticas. Esse processo amplifica populações blindadas contra medicamentos anteriormente eficazes.

    Mortes por aspergilose quadruplicam em dois anos

    Dados apresentados no encontro revelam crescimento alarmante: as mortes por aspergilose no Brasil saltaram de aproximadamente 200 em 2022 para 800 em 2024. Globalmente, a espécie causa cerca de 600 mil óbitos anuais.

    O A. fumigatus aparece como manchas verde-acinzentadas de textura aveludada e adapta-se facilmente a ambientes secos, incluindo dutos de ar-condicionado. Seus esporos microscópicos são facilmente dispersos pelo ar, tornando-o contaminante comum em ambientes fechados.

    Embora inofensivo para a maioria das pessoas que inalam e eliminam esporos diariamente sem problemas, o fungo pode ser letal para pacientes imunossuprimidos, transplantados, pessoas com leucemia e pacientes de COVID-19.

    Documento propõe sistema inédito de monitoramento

    Liderado pelo engenheiro agrônomo Paulo Ceresini, da Unesp de Ilha Solteira, o Documento de Botucatu estabelece recomendações baseadas no conceito One Health (“Uma Só Saúde”), que integra bem-estar humano, preservação ambiental e saúde animal.

    As propostas incluem:

    Criação de sistema nacional de monitoramento de fungos resistentes no ar e solo, inexistente até agora no Brasil e no exterior

    • Coleta auditável de dados com acesso aberto à sociedade
    • Avaliações de risco mais rigorosas antes da aprovação de fungicidas agrícolas
    • Ampliação da capacidade hospitalar para detectar infecções fúngicas e resistência
    • Campanhas educativas para agricultores, profissionais de saúde e público geral

    O texto será apresentado aos Ministérios da Saúde, Meio Ambiente e Agricultura durante a elaboração da nova edição do Plano Nacional de Enfrentamento da Resistência Antimicrobiana (PANBR), que orientará políticas públicas no próximo quinquênio.

    Pesquisa internacional mapeia cepas resistentes em São Paulo

    O documento integra o projeto Failsafe, parceria internacional financiada pela agência britânica UK Research and Innovation (UKRI) com £ 250 mil. Durante um ano, equipes da Unesp coletaram amostras em diversas regiões paulistas, em colaboração com pesquisadores das Universidades de Manchester e Geórgia.

    Os resultados preliminares do sequenciamento genético das linhagens coletadas devem ser publicados após fevereiro de 2025. O trabalho envolveu docentes de cinco campi da Unesp e parceiros do setor agrícola.

    “A correlação entre o aumento do uso de triazóis e o crescimento de mortes não prova causalidade, mas é um sinal de alerta importante”, afirma Ceresini, primeiro autor do artigo científico publicado no periódico One Health que embasa o documento.

    Abordagem One Health une agronomia e saúde pública

    O protagonismo de um agrônomo em pesquisa de saúde pública exemplifica a necessidade da abordagem integrada para enfrentar desafios futuros — incluindo resistência bacteriana a antibióticos e expansão de doenças transmitidas por vetores.

    “Dediquei vinte anos ao estudo da resistência a antifúngicos na agricultura, nunca trabalhei com patógenos humanos”, conta Ceresini. “Mas era exatamente essa intersecção que os parceiros buscavam: conhecimento agronômico para amostragem de campo e compreensão do que está acontecendo.”

    A iniciativa reforça que a saúde humana não pode ser tratada isoladamente, mas como parte de uma complexa rede de interações com outros organismos e o ambiente terrestre.

    Por Jornal da Unesp –