Tag: ANAPA

  • Produtores de alho em crise; cidade mineira decreta emergência

    Produtores de alho em crise; cidade mineira decreta emergência

    Um dos principais polos produtores de alho do Brasil, o município de São Gotardo (MG), decretou situação de emergência econômica no setor agropecuário diante do agravamento da crise que atinge os produtores rurais da região. Para a Associação Nacional dos Produtores de Alho (ANAPA), a medida confirma oficialmente um cenário que a entidade vem denunciando ao Governo Federal há meses, e a associação agora exige uma reação imediata das autoridades.

    O Decreto nº 263, publicado em 17 de agosto, reúne números que dimensionam a gravidade da crise na cadeia do alho. O custo de produção da cultura chegou a R$ 220 mil por hectare na safra de 2026, enquanto adversidades climáticas reduziram a produtividade média da safra precoce para 13,5 toneladas por hectare.

    Preço de venda não cobre o custo de produção

    Além dos problemas climáticos, o produtor enfrenta forte deterioração das condições de comercialização. Com base na Nota Técnica nº 01/2026 da ANAPA, o decreto registra que o alho mineiro tem sido vendido, em média, a R$ 11,00 o quilo na propriedade. Ou seja, abaixo do custo de produção, que soma R$ 13,30 o quilo. A conta resulta em um prejuízo líquido estimado em R$ 70 mil por hectare.

    O texto do decreto também aponta a pressão que as importações exercem sobre o mercado nacional. Entre os fatores que o município considerou estão as importações massivas e subcotadas provenientes da Argentina, com margem de dumping de 88,2%, além de questões relacionadas ao compromisso de preços aplicado ao alho chinês e decisões judiciais que permitem a entrada do produto estrangeiro sem o devido recolhimento do direito antidumping.

    ANAPA afirma ter enviado mais de 70 ofícios ao Governo

    O presidente da ANAPA, Rafael Cursino, afirma que a entidade vem apresentando sistematicamente ao Poder Executivo dados e propostas para evitar o agravamento da crise.

    “Somente neste ano, a ANAPA encaminhou mais de 70 ofícios ao Executivo alertando sobre o que estava acontecendo. Mostramos o impacto dos juros elevados, a dificuldade financeira dos produtores e a concorrência predatória que estamos enfrentando com o alho importado. As autoridades foram avisadas de que poderíamos chegar a uma situação como esta”, afirma.

    O próprio decreto municipal reconhece a gravidade das informações que a entidade apresentou. Entre os documentos que fundamentam tecnicamente a declaração de emergência estão o Ofício ANAPA nº 053/2026 e o respectivo Memorando Técnico sobre a cadeia produtiva do alho.

    Para Cursino, o decreto de São Gotardo representa um sinal concreto de que a crise já não atinge apenas as propriedades rurais e começa a produzir consequências sobre toda a economia das regiões produtoras.

    “Quando o produtor perde sua capacidade financeira, o impacto chega ao comércio, às revendas de fertilizantes e defensivos, às máquinas agrícolas, aos prestadores de serviços e aos trabalhadores. Existe todo um ecossistema econômico dependente da produção agrícola. É isso que estamos vendo ser colocado em risco”, alerta.

    O Decreto nº 263 reforça essa relação ao apontar que a economia urbana, o setor de serviços, o comércio varejista e parte das receitas municipais dependem diretamente do fluxo de renda e do poder de compra que a agropecuária regional gera.

    Associação cobra medidas de defesa comercial

    Uma das principais cobranças da ANAPA mira uma resposta mais rápida dos órgãos federais responsáveis pela defesa comercial brasileira. A entidade afirma ter apresentado ao Governo Federal levantamentos sobre a concorrência que o alho brasileiro enfrenta, incluindo as condições de entrada dos produtos vindos da Argentina e da China, e cobra a conclusão das análises e a adoção das medidas cabíveis.

    “Nós apresentamos os problemas e também apontamos caminhos para melhorar as condições do mercado e enfrentar a concorrência desleal. O setor produtivo fez a sua parte. Agora precisamos que os órgãos responsáveis analisem essas demandas e tomem as decisões necessárias com a urgência que a situação exige”, afirma Rafael Cursino.

    Além das medidas de defesa comercial, a associação considera indispensável avançar em instrumentos de renegociação e alongamento das dívidas rurais, além de mecanismos de crédito capazes de preservar a capacidade produtiva dos agricultores.

    O decreto de São Gotardo prevê articulação com a União, o Governo de Minas Gerais, instituições financeiras, cooperativas e entidades representativas. E estabelece como um de seus objetivos ampliar o acesso dos produtores a mecanismos de prorrogação, alongamento, renegociação e reestruturação de suas obrigações.

    Crise ameaça mais de 250 mil empregos no país

    A ANAPA alerta que a crise não deve ser tratada como um problema restrito a São Gotardo. A entidade acompanha dificuldades em outras regiões produtoras e teme que a deterioração econômica se espalhe pelos principais polos de produção de alho do país.

    Levantamentos do setor relacionam a cadeia do alho a mais de 250 mil empregos. Isso somando os postos de trabalho diretos e indiretos vinculados à produção e às atividades que dependem dela.

    “Estamos falando de uma cultura que gera muito emprego e renda e que foi construída ao longo de décadas no Brasil. Se não houver medidas urgentes, teremos produtores deixando a atividade, redução da produção brasileira e perda de empregos. O decreto de São Gotardo precisa ser entendido como um alerta para o país”, ressalta Cursino.

    Segundo a associação, o momento exige uma atuação coordenada dos ministérios e órgãos federais responsáveis pela agricultura, comércio exterior, defesa comercial e política econômica.

    “O produtor brasileiro não pede proteção contra a concorrência legítima. O que queremos é concorrência justa e condições para continuar produzindo no Brasil. Os estudos chegaram, os alertas foram emitidos e agora um município importante decreta emergência econômica. É hora de transformar os diagnósticos em medidas concretas”, conclui o presidente da ANAPA.

  • Alho importado avança e produtores brasileiros reduzem cultivo

    Alho importado avança e produtores brasileiros reduzem cultivo

    A crescente entrada de alho importado no mercado brasileiro tem pressionado os produtores nacionais e levado à redução dos investimentos na cultura. Diante desse cenário, representantes do setor pretendem solicitar ao governo federal a adoção de medidas para restringir as importações oriundas da China e da Argentina, países que, segundo produtores, comercializam o produto no Brasil por valores inferiores aos custos de produção nacionais.

    De acordo com a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa), a situação já afeta diretamente o planejamento da próxima safra. Como consequência, os agricultores projetam uma redução de 21% na área plantada, que deverá cair para aproximadamente 11 mil hectares neste ano.

    Setor pede revisão das regras para importação

    Nesta semana, a Anapa deverá apresentar ao Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex) um pedido para extinguir o compromisso de preço atualmente aplicado ao alho chinês exportado por quatro grandes empresas do país asiático.

    As companhias Shandong Trans-High Imp & Exp Co. Ltd., Jining Foreign Trading Co. Ltd., Jining Freen Agri-Produces Co. Ltd. e Shandong Goodfarmer International Trading Co. Ltd. operam com preço mínimo fixado em US$ 15,80 por caixa de 10 quilos. Para os demais exportadores chineses, permanece em vigor uma tarifa antidumping de US$ 7,80 por caixa.

    Segundo Rafael Corsino, presidente da Anapa, a medida tem prejudicado a competitividade da produção nacional.

    “O nosso custo de produção é de US$ 25 por caixa. Esse compromisso de preço desestimulou o plantio no Brasil”, afirma.

    Além disso, a entidade pretende solicitar que a sobretaxa antidumping seja aplicada a todas as importações de alho provenientes da China.

    Alho argentino também entra na mira

    Paralelamente, a Anapa deve protocolar ainda em junho um pedido para abertura de investigação antidumping sobre o alho argentino.

    Segundo Corsino, os valores praticados pelo país vizinho indicariam concorrência desleal. “A Argentina exporta o alho abaixo do custo de produção. O custo na Argentina é de US$ 18 por caixa e o alho chegou no Brasil a US$ 12,50”, diz.

    Além disso, a associação sustenta que a Argentina teria realizado subfaturamento das exportações destinadas ao Brasil ao longo dos últimos seis anos.

    Produção nacional não atende toda a demanda

    O mercado brasileiro consome cerca de 320 mil toneladas de alho por ano, enquanto a produção nacional alcança aproximadamente 170 mil toneladas, segundo dados da Anapa.

    A maior parte da produção está concentrada em Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Até o ano passado, cerca de 60% do alho importado tinha origem na Argentina, enquanto 36% vinham da China.

    Por outro lado, os números mais recentes mostram mudanças importantes nesse fluxo comercial.

    Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) indicam que as importações de alho somaram 62,4 mil toneladas entre janeiro e abril, volume 5,4% menor que o registrado no mesmo período de 2025.

    Em valor, a retração foi ainda maior. As compras externas totalizaram US$ 77 milhões, queda de 15,9%, o equivalente a uma média de US$ 12,34 por caixa.

    Argentina amplia participação no mercado brasileiro

    Apesar da redução geral nas importações, a participação da Argentina cresceu significativamente.

    Entre janeiro e abril, 92,7% do alho importado veio do país vizinho, enquanto apenas 5,6% teve origem chinesa.

    As importações da China recuaram 82,3%, totalizando 19,9 mil toneladas. Em contrapartida, as compras da Argentina avançaram 26,7%, alcançando 45,7 mil toneladas no período.

    Para os produtores brasileiros, esse aumento tem provocado perdas financeiras expressivas.

    “Esse aumento da importação culminou em prejuízo de R$ 5,50 por quilo vendido. O antidumping é necessário já”, defende Franchielli Motter, presidente da Associação dos Produtores de Alho do Rio Grande do Sul.

    Segundo ela, a área cultivada no estado deverá cair de 850 hectares para 750 hectares em 2026.

    Agricultores reduzem investimentos diante dos prejuízos

    No Sul do Brasil, a colheita do alho plantado entre junho e julho ocorre no final do ano. Posteriormente, a comercialização acontece no primeiro semestre, período em que a concorrência com o alho argentino é mais intensa.

    Já os produtores do Sudeste e do Centro-Oeste abastecem o mercado no segundo semestre, enfrentando principalmente a concorrência do alho chinês.

    Em São Marcos (RS), o produtor Jaime Menegon decidiu reduzir drasticamente sua área cultivada.

    “Tive prejuízo de R$ 5 por quilo. Já vi várias crises, mas nunca como esta”, lamenta.

    Após cultivar 14 hectares em 2025, ele pretende plantar apenas 4 hectares neste ano. Além disso, planeja concentrar a produção em terras próprias e devolver áreas arrendadas.

    Situação semelhante ocorre em Curitibanos (SC). O produtor Everson Tagliari afirma que precisou vender sua última safra abaixo dos custos de produção.

    “Um hectare de alho custa de R$ 120 mil a R$ 130 mil para ser produzido. Tivemos R$ 80 mil de receita por hectare”, conta.

    Diante desse cenário, ele reduzirá sua área de cultivo de 10 hectares para 4 hectares. Nos demais 6 hectares, pretende implantar pastagens e arrendar as áreas para pecuaristas.

    Santa Catarina prevê nova retração

    A Associação Catarinense dos Produtores de Alho estima que a área cultivada no estado recuará de 850 hectares em 2025 para 700 hectares neste ano.

    Segundo Tagliari, medidas de proteção comercial tornaram-se essenciais para garantir a viabilidade econômica da atividade.

    “O antidumping sobre o alho da Argentina é vital para nós. Também é importante que derrubem o compromisso de preço com o alho chinês. Sobra produto no mercado, é uma situação alarmante para o produtor”, afirma.

  • Saiba diferenciar o alho brasileiro do alho chinês

    Saiba diferenciar o alho brasileiro do alho chinês

    O cheiro do alho invade a cozinha. Sobe rápido. Avisa que tem coisa boa vindo do fogão. É quase um alarme — daqueles que chamam a fome e puxam memórias antigas. Mas quem usa alho todo dia já reparou uma coisa. Nem todo alho é igual. E isso muda tudo, sim.

    Você sabe diferenciar o brasileiro do chinês? Parece detalhe. Não é. O Agro em Campo explica.

    Começa pela aparência

    O alho brasileiro costuma ter a casca branca ou com um arroxo leve. Quase tímido. Mas, quando você abre, a pele dos dentes brilha num roxo mais firme. Os dentes são compactos. Apertados mesmo. A cabeça pesa mais na mão. Dá uma sensação de produto forte, inteiro.

    O chinês… bem, é outro papo. Casca sempre clara, bem branca. A pele que envolve os dentes vira um marrom puxado para castanho. E pronto — até o brilho muda.

    Depois vem o cheiro

    O brasileiro, por exemplo, é mais intenso. Bem mais. Tem um aroma que invade o ambiente. O chinês é mais suave, quase discreto demais. Apesar disso, tem gente que gosta. Tem gente que torce o nariz.

    E tem o tal do alho sorriso. Ele é brasileiro. E simpático. Ao descascar, a película some — ou fica tão fina que parece nem estar lá. Os dentes ficam expostos, como se estivessem… sorrindo. Prático. Bonito. Com casca roxa ou amarronzada. E muito querido nas feiras.

    Importações

    De janeiro a setembro, o Brasil trouxe 12,8 milhões de caixas de alho de 10 quilos. É alho pra caramba. Cerca de 128 mil toneladas. E a China ganhou destaque, respondeu por 45% desse volume.
    Foram 5,82 milhões de caixas, contra 3,16 milhões no mesmo período do ano passado, um salto gigante de 84% a mais.

    Mesmo assim, a Argentina ainda lidera com cerca de  52% do total. Mas com preços mais altos, sem chance de competir com os chineses.
    Só em setembro, chegaram 1,07 milhão de caixas. Destas, 1,05 milhão eram da China. Preço médio? US$ 12,09 por caixa. Baixíssimo.

    Rafael Corsino, presidente da ANAPA, não esconde a preocupação. Diz que o alho chinês chega barato demais.  Ou seja, “incompatível com o custo real da produção nacional”.

    Resultado? Produtor brasileiro travado. Difícil negociar safra. Difícil respirar.

    Projeção assusta

    Para 2025, a ANAPA espera 15,5 milhões de caixas importadas. Mesmo com boa safra nacional, o mercado segue pressionado. Sufocado.

    O setor pede firmeza do governo. Ações de defesa comercial. E um apelo simples ao consumidor: olhar a etiqueta. Escolher o que é do país. Valorizar quem planta aqui. Porque, no fim, alho é só alho — até você descobrir que ele conta histórias também.