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  • Alerta: parasita da alface que causa diarreia explosiva afeta milhares de pessoas

    Alerta: parasita da alface que causa diarreia explosiva afeta milhares de pessoas

    O número de infecções por ciclosporíase associadas ao consumo de alface contaminada ultrapassa 27 mil casos nos Estados Unidos, segundo estimativas de autoridades sanitárias americanas. A doença, causada pelo parasita microscópico Cyclospora cayetanensis, provoca sintomas gastrointestinais intensos, mas raramente evolui para óbito.

    “Você mal consegue chegar ao banheiro”, descreve o epidemiologista Alejandro Macías, da Universidade de Guanajuato, ao comentar os episódios de diarreia explosiva e vômitos que caracterizam o quadro clínico.

    O surto também ultrapassou as fronteiras americanas. A UKHSA (Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido) confirmou 67 casos entre viajantes britânicos que visitaram recentemente o território mexicano e retornaram ao país de origem já infectados, em 2026.

    Como o parasita contamina alimentos e provoca a infecção

    A contaminação humana acontece pela ingestão de água ou alimentos crus lavados de forma inadequada. Diferentemente de vírus e bactérias comuns, o Cyclospora cayetanensis precisa permanecer um período no ambiente depois de eliminado nas fezes antes de se tornar infeccioso. Essa característica torna a transmissão direta entre pessoas incomum, segundo especialistas.

    A ciclosporíase provoca diarreia intensa e aquosa, cólicas abdominais, náuseas, cansaço extremo e perda de peso. Em casos sem tratamento adequado, os sintomas podem persistir por semanas, com períodos de melhora seguidos de recaídas.

    A agência britânica orienta viajantes que visitam áreas de risco a consumir apenas água engarrafada e evitar vegetais crus ou frutas com casca. A recomendação vale especialmente para quem passa pelo México e por regiões dos EUA atingidas pelo surto, hoje concentrado sobretudo em Michigan e em estados vizinhos do Centro-Oeste americano.

    O Brasil corre risco de importar o surto?

    Segundo levantamento do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde de São Paulo, o Brasil não importa vegetais frescos de consumo cru dos Estados Unidos nem do México. O que reduz significativamente a chance de o país “importar” diretamente o surto atual. A alface suspeita de originar o surto, fornecida pela empresa Taylor Farms e distribuída, entre outras redes, à Taco Bell, circula apenas no mercado americano.

    Mesmo assim, o país já enfrentou um episódio semelhante: em 2000, um surto de ciclosporíase atingiu cerca de 350 pessoas na cidade de General Salgado, no interior paulista, com o parasita confirmado em análises do Hospital das Clínicas da USP.

    Especialistas também apontam um problema à parte: a subnotificação. Exames de fezes de rotina, usados na maior parte dos postos de saúde brasileiros, frequentemente não detectam o Cyclospora. A identificação exige colorações especiais de laboratório ou testes moleculares (PCR de painel gastrointestinal), pouco disponíveis fora de centros de referência. O que sugere que casos isolados no Brasil podem passar despercebidos mesmo fora de um cenário de surto.

    Grupos de maior risco e cuidados de prevenção

    Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas imunossuprimidas apresentam maior risco de desidratação e complicações. A lavagem cuidadosa de frutas e verduras reduz o risco de contaminação, mas não elimina totalmente o parasita, resistente aos desinfetantes de uso doméstico mais comuns.

    Para viajantes que se dirigem a áreas afetadas, a recomendação médica soma-se à da UKHSA: preferir água engarrafada, evitar saladas prontas ou vegetais crus de origem duvidosa e descartar folhas externas de hortaliças antes do preparo.

  • Alface sobe até 90% e seca muda mercado de alimentos na Europa

    Alface sobe até 90% e seca muda mercado de alimentos na Europa

    A alface virou um dos principais símbolos da crise climática que atinge a agricultura europeia neste verão.

    No Reino Unido, a combinação de seca prolongada e calor intenso derrubou a produção da hortaliça, reduziu a oferta no mercado e fez o preço no atacado subir cerca de 90%. O cenário levou redes de supermercados, distribuidores e restaurantes a recorrerem a fornecedores da Espanha para manter o abastecimento.

    O problema ocorre justamente no período em que o país normalmente concentra sua produção de verão, diminuindo a necessidade de importações.

    Calor interrompe o desenvolvimento das plantas

    A falta de chuva chegou em um dos momentos mais importantes do ciclo das hortaliças.

    Embora muitos produtores utilizem sistemas de irrigação, a escassez de água reduziu a capacidade de manter o solo úmido durante as sucessivas ondas de calor.

    Como consequência, parte das plantações apresentou crescimento irregular, folhas menores e perda de qualidade comercial.

    Em diversas propriedades, agricultores passaram a colher menos unidades por hectare, reduzindo a oferta disponível para o mercado.

    Espanha volta a abastecer o Reino Unido

    Diante da quebra de safra, distribuidores precisaram reorganizar rapidamente a cadeia de abastecimento.

    Em vez de comprar a produção britânica, empresas voltaram a importar alface cultivada na Espanha, país acostumado a produzir em condições de temperaturas mais elevadas.

    A mudança representa uma situação incomum para esta época do ano, quando a maior parte da demanda costuma ser atendida pelos agricultores locais.

    Além da Espanha, fornecedores da Holanda também passaram a complementar o abastecimento de algumas regiões.

    Preços sobem e pressionam toda a cadeia

    A alta da alface não ocorreu de forma isolada.

    O tomate acumulou aumento superior a 60% no mercado atacadista britânico. A batata também ficou mais cara, enquanto outras hortaliças apresentam tendência de valorização caso o tempo seco continue.

    Para supermercados e restaurantes, o aumento dos custos representa um desafio adicional justamente durante o período de maior consumo de saladas e refeições leves no verão europeu.

    Ao mesmo tempo, produtores enfrentam despesas maiores com irrigação e redução na produtividade.

    Agricultura sente os efeitos das mudanças climáticas

    Plantação de Alface
    Foto: Embrapa/Italo Ludke

    Especialistas avaliam que episódios de calor extremo tendem a se tornar mais frequentes nas próximas décadas.

    As hortaliças estão entre as culturas mais sensíveis às variações de temperatura porque dependem de grande disponibilidade de água e apresentam ciclos curtos de desenvolvimento.

    Quando o solo perde umidade rapidamente, as plantas reduzem o crescimento para preservar energia. Como resultado, a produtividade cai e parte da produção perde valor comercial.

    Esse comportamento já preocupa agricultores em diferentes regiões da Europa.

    Supermercados pedem medidas ao governo

    A crise mobilizou produtores, indústrias e grandes redes varejistas.

    Mais de uma centena de empresas do setor alimentício solicitaram ao governo britânico medidas para fortalecer a produção nacional e reduzir a vulnerabilidade provocada pelos eventos climáticos extremos.

    Entre as reivindicações estão investimentos em infraestrutura hídrica, ampliação da capacidade de armazenamento de água e incentivos para tornar a agricultura mais resiliente.

    O objetivo é diminuir a dependência de importações durante períodos de clima severo.

    Brasil acompanha o cenário

    Embora o problema esteja concentrado na Europa, o mercado brasileiro observa a situação com atenção.

    Além disso, oscilações na oferta internacional podem alterar fluxos comerciais, influenciar preços e criar oportunidades para exportadores de alimentos.

    Além disso, a sequência de eventos extremos reforça um alerta que também vale para o Brasil: investir em irrigação, manejo da água e adaptação das lavouras tornou-se uma estratégia cada vez mais importante para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.

  • Hortitec reúne inovações para o futuro da horticultura

    Hortitec reúne inovações para o futuro da horticultura

    A Hortitec 2026 reunirá 520 empresas brasileiras e estrangeiras para apresentar soluções voltadas à horticultura, cultivo protegido e culturas intensivas. O evento ocorrerá entre os dias 17 e 19 de junho, em Holambra (SP).

    A organização espera receber cerca de 32 mil visitantes. Além disso, a feira projeta movimentar R$ 750 milhões em negócios durante e após o evento.

    As empresas levarão ao público tecnologias voltadas à automação, sustentabilidade, produtividade, rastreabilidade e saudabilidade. Essas áreas concentram os principais desafios enfrentados pelos produtores de hortifrúti no Brasil.

    De olho no consumidor

    O setor também acompanha mudanças no comportamento do consumidor. Atualmente, cresce a procura por alimentos saudáveis, nutritivos e práticos para o dia a dia. Por isso, produtos frescos, higienizados e prontos para consumo ampliam participação na cesta de compras dos brasileiros.

    Entre os destaques da feira, a Embrapa e a Isla Sementes apresentarão novas cultivares de Plantas Alimentícias Não Convencionais (Pancs). As variedades Bertalha BRS Tereverde e Caruru Verde BRS Ilekalu combinam valor nutricional, praticidade e apelo visual.

    Nova batata-doce

    A Embrapa Clima Temperado também lançará a batata-doce BRS BC179 Prenda. A cultivar possui alto teor de carotenoides e elevada produtividade.

    Flores

    Na floricultura, a tecnologia ganhará espaço com a Classificadora Inteligente de Flores. A solução utiliza visão artificial e inteligência artificial para classificar, cortar e embalar flores automaticamente. Segundo os expositores, a tecnologia aumenta a eficiência operacional e reduz impactos da escassez de mão de obra no campo.

    O setor também apresentará novas variedades ornamentais. A Bio Plugs exibirá uma Gérbera com flores duplas e gigantes, hastes resistentes e longo ciclo produtivo.

    Outro lançamento será o Girassol sem pólen. O híbrido oferece maior durabilidade, evita sujeira e reduz riscos de alergias respiratórias.

    Hortaliças processadas

    No segmento de hortaliças processadas, empresas apostam em variedades adaptadas ao mercado de produtos frescos e higienizados.

    A Enza Zaden lançará a alface Harumi. A variedade apresenta alta uniformidade e excelente rendimento para processamento.

    Já a Sakata apresentará a alface Bella Folha. A cultivar é a primeira alface crespa desenvolvida especificamente para o mercado de processamento.

    Fertilizantes e defensivos

    No setor de fertilizantes e defensivos, a biotecnologia reforçará a busca por sistemas produtivos mais sustentáveis.

    Entre as novidades, o RadiSanPro se destaca por estimular o desenvolvimento das raízes e fortalecer os mecanismos naturais de defesa das plantas.

    Com lançamentos voltados à eficiência e à sustentabilidade, a Hortitec 2026 reforça seu papel como uma das principais vitrines de inovação para a horticultura brasileira.

     

     

     

     

  • Saiba onde se produz mais alface no Brasil

    Saiba onde se produz mais alface no Brasil

    O Estado de São Paulo domina a produção nacional de alface, hortaliça presente diariamente na mesa de milhões de brasileiros. O Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) registrou o cultivo de mais de 220 mil toneladas da folhosa no ano passado, volume que gerou um faturamento estimado em R$ 947 milhões.

    Foto: Rodarte/Agro em Campo

    O Cinturão Verde paulista reúne as principais regiões produtoras e funciona como polo estratégico de distribuição para a Grande São Paulo. A variedade crespa lidera as preferências dos produtores locais.

    Cultivo exige tecnologia e cuidados constantes

    O engenheiro agrônomo Thiago Costa, da Diretoria de Assistência Técnica Integral (CATI) da SAA, explica que a alface apresenta manejo simples, mas a cultura demanda atenção contínua devido à sua sensibilidade. Água de qualidade, solo rico em nutrientes e condições adequadas de insolação determinam o sucesso da produção.

    “A cultura necessita de água livre de contaminantes físicos, químicos e biológicos. O solo deve apresentar boa disponibilidade de nutrientes e matéria orgânica. Os produtores precisam realizar análise de solo anualmente e aplicar adubação equilibrada conforme recomendações agronômicas. A insolação adequada, sem temperaturas excessivas, também é fundamental”, detalha Costa.

    Manoel Oliveira, diretor executivo do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), observa que a cadeia de folhosas passa por forte profissionalização nos últimos anos. Os investimentos em tecnologia estimulam a produção em maior escala.

    “O avanço tecnológico aumenta a produtividade através do cultivo protegido e reduz perdas e rupturas no fornecimento ao varejo”, afirma Oliveira.

    Agricultura familiar movimenta R$ 800 mil com compras públicas

    São Paulo não apenas lidera a produção nacional, mas também se destaca como comprador de alface da agricultura familiar paulista. O Programa Paulista da Agricultura de Interesse Social (PPAIS) adquiriu mais de 80 toneladas em 2025, movimentando cerca de R$ 800 mil. Escolas, universidades e unidades prisionais recebem os produtos, conectando o campo às políticas públicas e gerando renda direta para famílias produtoras.

    A Cooperativa dos Produtores Familiares de Piedade (COFARP) reúne cerca de 50 cooperados que cultivam pepino, escarola, almeirão, salsa, brócolis e alface. A cooperativa produz aproximadamente 6 mil unidades mensais da folhosa e comercializa principalmente no varejo.

    Presidente da COFARP, José Roberto. Foto: DIvulgação

    José Roberto, presidente da COFARP, destaca a importância do programa estadual. “O PPAIS garante nossa venda. Programamos o plantio com quantidades e datas definidas para entregar o produto conforme o cronograma”, explica.

    Hidroponia coloca São Paulo na vanguarda da produção sustentável

    São Paulo inaugurou e mantém a liderança na produção hidropônica de alface no Brasil. Fazendas verticais e estufas cultivam a hortaliça sem solo, otimizam o uso de água e aproveitam melhor o espaço disponível.

    A SAA disponibiliza crédito através do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (FEAP) para produtores que investem em sistemas hidropônicos, via Projeto Desenvolvimento Rural Sustentável Paulista (DRS).

    Felipe Alves, secretário executivo do FEAP, detalha as possibilidades de financiamento. “Os recursos apoiam a implantação ou modernização de estufas agrícolas, sistemas automatizados de irrigação e fertirrigação, equipamentos de controle ambiental, além de obras de infraestrutura e adequações tecnológicas nas propriedades rurais”, esclarece.

    Os produtores rurais pessoa física podem financiar até R$ 250 mil, pessoas jurídicas até R$ 500 mil, e cooperativas ou associações até R$ 800 mil. As linhas oferecem juros a partir de 3% ao ano, prazo de pagamento de até 84 meses e carência de até 12 meses.

  • Embrapa lança tecnologias sustentáveis durante COP30

    Embrapa lança tecnologias sustentáveis durante COP30

    A Embrapa apresentou três inovações tecnológicas voltadas à produção sustentável de alimentos durante a COP30. As tecnologias foram lançadas na AgriZone, espaço dedicado à agricultura sustentável localizado próximo à Blue Zone.

    Dessa forma, a empresa busca aliar produtividade agrícola com resiliência climática e conservação ambiental. Entre as novidades estão o Protocolo Carne Baixo Carbono, a mandioca BRS Jacundá e mapas de risco climático.

    Protocolo Carne Baixo Carbono certifica produção sustentável

    A Embrapa desenvolveu o Protocolo Carne Baixo Carbono em parceria com a MBRF e a ONG Amigos da Terra. O protocolo reconhece produtores que adotam práticas para reduzir emissões de gases de efeito estufa na pecuária.

    Além disso, o sistema estabelece critérios técnicos para monitorar propriedades rurais que aplicam intensificação sustentável. As práticas incluem integração lavoura-pecuária, pastagens de alto desempenho e recuperação de áreas degradadas.

    Consequentemente, essas técnicas promovem maior captura de carbono no solo e reduzem o impacto climático da pecuária. O protocolo garante ao consumidor que a carne foi produzida segundo rigorosos critérios ambientais e auditáveis.

    Portanto, a iniciativa representa um novo marco de sustentabilidade para a cadeia produtiva da carne bovina brasileira.

    Mapas climáticos alertam para riscos na produção de alface

    Pesquisadores da Embrapa Hortaliças elaboraram mapas de risco climático para orientar o cultivo de alface no Brasil. O estudo utilizou projeções do Inpe e modelos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

    Entretanto, as projeções indicam cenários preocupantes para a hortaliça mais consumida pelos brasileiros até 2100. Mesmo no cenário otimista, cerca de 97% do território nacional apresentará risco climático alto ou muito alto.

    Os mapas consideram dois cenários: um com controle parcial das emissões de gases e outro pessimista. No segundo cenário, as emissões continuariam crescendo sem controle até o fim do século.

    Por outro lado, os mapas representam um avanço importante em inteligência climática aplicada às hortaliças no país. As informações estão disponíveis na plataforma Geoinfo da Embrapa para consulta pública.

    Mandioca BRS Jacundá aumenta produtividade no Amazonas

    A Embrapa recomenda a cultivar de mandioca BRS Jacundá especialmente para produtores do estado do Amazonas. A variedade está adaptada ao ambiente de terra firme e fortalece a cadeia produtiva regional.

    Principalmente na região do Médio Solimões, a mandioca representa a base da economia agrícola local. A BRS Jacundá possui resistência a pragas e doenças, além de polpa amarela valorizada pela população.

    Ademais, a cultivar oferece produtividade superior a 30 mil quilos por hectare em comparação à média estadual. Atualmente, a média do Amazonas é de 10.560 quilos por hectare, representando ganho próximo de 300%.

    Assim, a nova variedade se destaca na produção de farinha de mesa e tucupi, produtos tradicionais da região. A tecnologia promete impulsionar significativamente a agricultura familiar e a economia local no estado.

  • Brasil sem alface? Estudo revela impacto do aquecimento global

    Brasil sem alface? Estudo revela impacto do aquecimento global

    A agricultura brasileira enfrenta uma nova ameaça. Mapas de risco climático desenvolvidos por pesquisadores da Embrapa Hortaliças, baseados em projeções do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e modelos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), revelam um futuro preocupante para a produção de alface no país.

    O estudo analisou dois cenários distintos: um otimista, com controle parcial das emissões de gases de efeito estufa, e outro pessimista, onde as emissões continuam crescendo até 2100. Em ambas as projeções, o cultivo tradicional da hortaliça enfrenta sérios riscos.

    “Compreender como as mudanças climáticas podem afetar a produção de alface, em um país tropical como o Brasil, é essencial para desenhar estratégias de adaptação”, explica Carlos Eduardo Pacheco, engenheiro-ambiental e pesquisador em Mudanças Climáticas Globais da Embrapa.

    Verão brasileiro pode chegar a 45°C em algumas regiões

    As projeções mais alarmantes concentram-se no período de 2071 a 2100, especialmente durante o verão. No cenário otimista (RCP 4.5), cerca de 79,6% do território nacional apresentará risco climático alto para a alface em campo aberto, enquanto 17,4% enfrentará risco muito alto.

    No cenário pessimista (RCP 8.5), os números são ainda mais dramáticos: 87,7% do território brasileiro entrará na categoria de risco muito alto, com apenas 11,8% mantendo risco alto. As temperaturas projetadas variam de 25,4°C a 45°C, bem acima do limite ideal para o desenvolvimento da alface.

    Por que a alface é tão sensível ao calor?

    A sensibilidade da alface às altas temperaturas está diretamente relacionada à sua evolução. “Do ponto de vista evolutivo, a alface depende de temperatura amena e boa umidade para se desenvolver plenamente”, explica Fábio Suinaga, engenheiro-agrônomo e pesquisador em Melhoramento Genético da Embrapa Hortaliças.

    O problema se agrava porque as sementes de alface exigem temperaturas inferiores a 22°C para germinar adequadamente. Além disso, o calor excessivo causa dois problemas principais:

    • Queima de borda (tipburn): deficiência de cálcio nas folhas causada pelo crescimento acelerado em altas temperaturas, resultando em manchas escuras nas bordas.
    • Florescimento precoce: temperaturas acima de 25°C fazem a planta emitir o pendão antecipadamente, comprometendo a qualidade comercial devido ao alongamento do caule e sabor amargo.

    Soluções em desenvolvimento: cultivares resistentes e sistemas adaptativos

    Diante do cenário desafiador, a Embrapa trabalha em duas frentes principais de adaptação. A primeira foca no desenvolvimento de cultivares com maior tolerância ao calor, como a alface BRS Mediterrânea, que já demonstra resultados promissores.

    O produtor rural Rodrigo Baldassim, de São José do Rio Pardo (SP), comprova a eficácia da nova cultivar: “atualmente essa cultivar representa 80% do material de alface crespa que eu planto. Ela é meu carro-chefe por conta de aguentar melhor as altas temperaturas quando se compara com outros materiais comerciais”.

    A segunda frente concentra-se em sistemas de produção sustentáveis, incluindo:

    • Sistemas regenerativos: como o sistema de plantio direto de hortaliças (SPDH) e cultivo orgânico com compostagem
    • Sistemas adaptados ao clima: cultivo em ambientes protegidos ou controlados e zoneamento agroclimático

    Metodologia científica garante precisão das projeções

    Os mapas de risco foram construídos com rigor científico, utilizando a base de dados ‘Projeções Climáticas’ do Inpe, com resolução espacial de 20 km². O modelo dinâmico ETA, já validado para Brasil e América Latina, analisou temperaturas mínimas, médias e máximas em quatro intervalos temporais: até 2040, 2041-2070, 2071-2100, comparados ao período histórico de 1961-1990.

    A pesquisa está em constante evolução. Os próximos passos incluem o uso da base WorldClim, com resolução 20 vezes mais precisa, e modelos do Sexto Relatório de Avaliação (AR6) do IPCC. Os novos mapas considerarão também índices de precipitação e necessidade hídrica da cultura.

    “A expectativa é expandir o mapeamento para outras espécies de hortaliças, como tomate, batata e cenoura, em função da importância socioeconômica e da sensibilidade desses cultivos ao clima”, adianta Pacheco, que também utiliza inteligência artificial para automatizar a geração dos mapas.

    Urgência na adaptação: segurança alimentar em risco

    A pesquisa evidencia uma lacuna importante nos estudos climáticos brasileiros. “Geralmente esse tipo de levantamento considera somente grandes culturas como milho e soja. Contudo, as hortaliças são espécies mais vulneráveis às altas temperaturas que os grãos”, destaca Pacheco.

    O impacto vai além da economia agrícola, tocando questões fundamentais de segurança e soberania alimentar, alinhadas ao conceito de Saúde Única, Essa abordagem reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e dos ecossistemas.

    Os mapas de risco climático estão disponíveis na plataforma Geoinfo da Embrapa. E servem como ferramenta estratégica para orientar futuras pesquisas e políticas de adaptação às mudanças climáticas no setor agrícola brasileiro.

  • Alfaces da Embrapa desafiam o calor

    Alfaces da Embrapa desafiam o calor

    Uma pesquisa da Embrapa Hortaliças revelou resultados promissores no desenvolvimento de alfaces sob temperaturas mais elevadas. As mudanças climáticas preocupam e os impactos no setor agrícola também. Os pesquisadores simularam um cenário de aumento de 5ºC de temperatura, passando da média de 25ºC para 30ºC, durante 45 dias. Diferentemente de outras nove cultivares testadas no mesmo experimento, a BRS Leila e BRS Mediterrânea se desenvolveram bem nas novas condições.

    O estudo, liderado pelo pesquisador Carlos Pacheco, teve como objetivo antecipar os efeitos das mudanças climáticas no cultivo de alfaces. Foi considerado um cenário de aumento de temperatura de 5°C. “Para isso, trabalhamos dois valores de temperatura do ar, conforme a média histórica observada e projetada em um cenário extremo de mudanças climáticas globais para o Brasil: 25ºC/20ºC e 30ºC/25ºC (dia e noite, respectivamente)”, detalha Pacheco.

    Câmara de crescimento vegetal

    Utilizando a avançada Câmara de Crescimento Vegetal da Embrapa, os pesquisadores puderam simular condições atmosféricas precisas. A temperatura, umidade relativa do ar e concentração de gás carbônico foram observadas, por exemplo. Esta ferramenta permitiu uma análise detalhada do impacto do calor nas plantas de alface.

    O pesquisador lembra que as hortaliças folhosas são mais suscetíveis ao calor. Entre elas, a alface que é a mais consumida do país de acordo com a Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (Abcsem). Ou seja, o alto consumo torna o trabalho ainda mais importante no esforço de adaptação às mudanças no clima.

    Diferenciais das variedades

    O destaque das cultivares BRS Leila e BRS Mediterrânea reside em suas características específicas, desenvolvidas para enfrentar o calor crescente. Fábio Suinaga, responsável pelo desenvolvimento desses materiais, explica que a BRS Leila, por exemplo, possui um ciclo de florescimento mais tardio. Com isso ela resiste, em média, dez dias a mais de calor em comparação às demais alfaces testadas.

    Por sua vez, a BRS Mediterrânea apresenta um ciclo produtivo mais curto, permitindo que ela alcance o ponto de colheita sete dias antes das variedades similares do mercado. “Com um ciclo mais curto, ela está menos exposta ao calor e evita o florescimento prematuro”, destaca Suinaga. Esse florescimento precoce pode resultar em efeitos prejudiciais, como alongamento do caule e redução do número de folhas e da qualidade comercial da alface.

    Os testes realizados com cultivares comerciais sob as mesmas condições de temperatura revelaram uma série de desordens, como pendoamento e queima de bordas, inviabilizando sua comercialização. “O fato de nossas cultivares permanecerem resilientes a 30°C é uma prova da adaptabilidade do nosso material genético a condições adversas”, celebra o pesquisador.

    Próximo passo

    Enquanto o estudo atual focou na tolerância ao calor, os pesquisadores planejam expandir as investigações para abordar outros desafios climáticos. “Neste momento estamos trabalhando a tolerância ao calor, e na segunda etapa devemos focar no estresse hídrico (por excesso ou falta de água), envolvendo a tolerância à salinização, seguida pelo comportamento com relação ao uso de bioinsumos”, afirma Pacheco.