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  • O novo negócio do agro regenerativo: fazendas que viraram point de observação de aves

    O novo negócio do agro regenerativo: fazendas que viraram point de observação de aves

    Áreas ambientais recuperadas em fazendas de Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais estão sendo transformadas em destino de turistas e observadores de aves do Brasil e do exterior. A tendência foi discutida em live promovida pela Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (FERA), em parceria com a Avistar e a Associação Nacional de Turismo de Observação de Vida Silvestre (TOVS).

    Quatro produtores foram reunidos no encontro para mostrar, na prática, como a recuperação ambiental de suas propriedades foi transformada em negócio. Segundo eles, o modelo gera renda extra, cria empregos e valoriza a terra sem substituir a atividade produtiva original.

    Fazenda no Mato Grosso une pecuária, energia solar e turismo

    A Fazenda Anacã, em Alta Floresta (MT), é gerida há 12 anos por Fernão Prado, presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur) da cidade, com base no uso múltiplo do território.

    “O turismo é feito pelas áreas de preservação permanente, sem precisar abrir uma porteira além do acesso principal. As trilhas viraram aceiros que ajudam na conservação da área”, explica.

    Uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) também foi criada na propriedade, assim como corredores ecológicos que conectam fragmentos de floresta antes isolados. “Temos pecuária na área aberta, 12 hectares arrendados para energia solar e, nas áreas verdes, o turismo de observação”, detalha Fernão.

    Oito empregos diretos já foram gerados pelo turismo na fazenda, segundo o produtor.

    Lodge no Mato Grosso une pesquisa e observação de vida silvestre

    O Jardim da Amazônia Lodge foi cofundado por Raquel Zanchet, diretora regional da TOVS no Centro-Oeste. A propriedade está situada em uma zona de transição entre Amazônia e Cerrado, o que favorece a diversidade de espécies, segundo ela.

    O empreendimento foi iniciado com o extrativismo de madeira e, depois, direcionado à piscicultura antes de chegar ao turismo. “Os peixes trouxeram mais aves, que atraíram muitos observadores. Foi assim que decidimos abrir um hotel”, conta Raquel.

    Três trilhas de observação do macaco-aranha, do jatobá e da lagoa são oferecidas hoje na propriedade, onde também é mantida uma estação de pesquisas própria.

    Cafeicultura regenerativa em Minas Gerais atrai fauna e visitantes

    O café de montanha é cultivado há 20 anos por Valmor Santos Filho em Bueno Brandão (MG). Desde 2017, a produção é feita em sistema agroflorestal.

    “Com esse trabalho de agricultura regenerativa, começaram a aparecer muitos bichos e pássaros, por causa da diversidade que criamos”, diz.

    A 160 km de São Paulo, produção de café, torrefação, consultoria e turismo sazonal são combinados hoje na propriedade. Colheita e torra são celebradas em turismos específicos, enquanto produtos artesanais locais, como queijo e geleia, também são comercializados.

    Pousada paulista vira destino internacional de observadores de aves
    (Foto: Reprodução/UNB)

    A Pousada da Fazenda, erguida sobre uma antiga fazenda de café do século 19 em Monte Alegre do Sul (SP), foi transformada por Luís Gonzaga Truzzi em point de observação de aves. Beija-flores passaram a ser alimentados na propriedade, e a chegada de espécies diferentes foi notada logo em seguida.

    Fotos foram divulgadas em sites especializados, o que atraiu outros observadores. “Nunca achei que fosse receber gente para fotografar aqui. Hoje vem gente do mundo inteiro: China, Vietnã, Estados Unidos”, conta.

  • Produção de açaí juçara vira fonte de renda pra ex-pescador

    Produção de açaí juçara vira fonte de renda pra ex-pescador

    Um passeio ao parque Beto Carrero, nos anos 1990, mudou a trajetória de Orival Chaves. Na época, sua sogra, dona Dolores, notou frutinhas caídas ao pé de uma palmeira, provou e garantiu: era açaí, e estava delicioso. O casal pediu autorização ao gerente do parque, colheu um cacho e passou o dia comendo, sujando as roupas e gestando, sem saber, um negócio que décadas depois renderia 15 toneladas de fruto por ano.

    Orival, hoje com 73 anos, mora com a esposa Carmem, natural de Tucuruí (PA), em uma chácara na localidade de Rio Novo, em Itajaí. Os dois se conheceram em Brasília em 1973 e se casaram em 1982, quando vieram morar em Santa Catarina. Com saudade dos frutos de sua terra, Carmem trouxe as primeiras sementes de açaí juçara. O casal plantou, a palmeira se adaptou bem ao clima local e hoje os 10 mil pés da propriedade abastecem um público crescente, e exigente.

    “Agora não preciso buscar cliente, eles vêm de longe comprar o fruto. Já cheguei a vender 10 toneladas para um comprador de Garuva”, conta Orival.

    Da pesca à roça: um abandono sem arrependimento

    Durante anos, Orival conciliou a chácara com a pesca. A virada veio com dona Dolores, que trouxe do Pará uma máquina de beneficiar açaí com capacidade para 5 kg. O que começou como produção para consumo próprio virou negócio. Em 2016, Orival deixou definitivamente o mar para viver da terra.

    Hoje, a propriedade vende polpa congelada diretamente ao consumidor. Sem xaropes, sem aditivos, do jeito que os paraenses consomem: com arroz, peixe e farinha.

    Sistema agroflorestal atrai Epagri e vira evento técnico

    A produção sustentável de açaí a partir da juçara (Euterpe edulis), espécie nativa da Mata Atlântica protegida por lei desde 2008, e que chamou a atenção do engenheiro-agrônomo e extensionista rural da Epagri, Antônio Henrique dos Santos. Entusiasta dos sistemas agroflorestais, ele indicou a propriedade de Orival para a nutricionista e extensionista social Mabel Gomes Dias Lago, que organizou, no dia 5 de maio, a 1ª Reunião Técnica “Sistema Agroflorestal na Produção de Açaí Juçara”.

    O objetivo era claro: inspirar outros agricultores a produzir um fruto de alto valor comercial mantendo a palmeira viva. Uma alternativa economicamente mais interessante e legalmente segura em relação à extração de palmito, que exige o corte da planta nativa e é ilegal.

    A programação reuniu o relato de Orival, orientações sobre legislação ambiental com o extensionista Fábio Arenhart, dicas de manejo sustentável de solo com Antônio e uma demonstração prática de colheita. Como a palmeira juçara é alta e os agricultores do Sul não têm o hábito de escalar o tronco como os do Norte, Orival mostrou uma solução simples: um bambu adaptado que derruba o cacho maduro direto no saco, sem desperdício.

    Barbacuá: do sul do estado ao Litoral Norte

    A segunda parte do evento apresentou o projeto “Juçaras por aí” e a agroindústria Barbacuá, criada por Márcio Reis, 34 anos, que trabalha com juçara desde 2016. “Era uma alternativa à extração de palmito, que produz só uma vez e representa risco legal, já que o corte da palmeira nativa é ilegal”, explica Márcio.

    Márcio promove ações nas escolas para estimular a conscientização ambiental e construir uma relação de afeto com a Mata Atlântica. Foto: Divulgação

    A Barbacuá nasceu em 2019 e produziu 40 toneladas de polpa em 2025. A matéria-prima vem de um viveiro com 160 mil palmeiras em Praia Grande e de 80 agricultores parceiros. Em 2024, Márcio expandiu o projeto para o Litoral Norte com oficinas em escolas de Itajaí, Ilhota e Joinville, despertando nas crianças uma relação afetiva com a Mata Atlântica. O IMA (Instituto do Meio Ambiente de SC) reconheceu o projeto como agente de compensação socioambiental.

    A meta é semear dois milhões de mudas de juçara na região, junto a outras nove espécies nativas da Mata Atlântica, e fortalecer a relação de agricultores familiares e comunidades tradicionais com os frutos do bioma. Produtores interessados em participar podem acessar o perfil @somosbarbacua no Instagram.

    Açaí juçara na cozinha: do brownie ao pudim

    Para encerrar o evento, Mabel conduziu uma oficina culinária que surpreendeu os participantes com a versatilidade da polpa: brownie funcional com pasta de amendoim, molho barbecue, pão e pudim de açaí. “Quis mostrar outras formas de usar a polpa, não só como alternativa de consumo, mas também como fonte de renda, com produtos de alto valor de mercado”, afirma a extensionista.

    Foto: Renata Rosa/Epagri

    Em termos nutricionais, o açaí juçara concentra compostos bioativos, potássio, magnésio, ferro, vitaminas A, C e E, além de antioxidantes.

    A seguir, a receita de pudim de açaí que fez sucesso na reunião técnica:

    Pudim de Açaí

    Ingredientes

    • 1 lata de leite condensado
    • Polpa de açaí (mesma medida do leite condensado)
    • 6 ovos
    • 1 xícara de açúcar (para a calda)

    Modo de preparo

    Derreta o açúcar na forma de pudim em fogo baixo, mexendo sem parar até formar um caramelo. Espalhe pela forma e reserve. No liquidificador, bata o leite condensado, a polpa de açaí e os ovos por cinco minutos. Transfira para a forma caramelizada e asse em banho-maria, a 180°C, por cerca de uma hora. Deixe esfriar, leve à geladeira e sirva gelado.

    Serviço:

    Produtores interessados no projeto Barbacuá podem seguir @somosbarbacua no Instagram.

  • Queijo da Canastra é produzido “debaixo de floresta”

    Queijo da Canastra é produzido “debaixo de floresta”

    Na região da Serra da Canastra, em Minas Gerais, uma queijaria familiar está redefinindo a produção do tradicional queijo artesanal mineiro. A Queijaria Faz o Bem, localizada em Piumhi, às margens do Ribeirão Araras, afluente do Rio São Francisco, tornou-se referência nacional ao combinar técnicas sustentáveis de produção com preservação ambiental e qualidade premiada.

    Criada em 2021 pelo engenheiro agrônomo Vinícius Soares, a propriedade de 25 hectares mantém 44% da área preservada com mata nativa. Nos demais espaços, implementa um sistema de manejo regenerativo que integra pastagem, agrofloresta e bem-estar animal, demonstrando que é possível produzir queijo artesanal de forma sustentável.

    Da carreira corporativa ao empreendedorismo sustentável

    Natural de Piumhi, Vinícius construiu carreira sólida em grandes empresas do setor lácteo, como Danone e Itambé, após se formar em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa. Durante a pandemia, tomou a decisão de deixar a estabilidade corporativa para retornar às raízes familiares e investir integralmente no projeto da queijaria.

    “Estar perto dos meus pais e poder almoçar com minha filha tem muito valor. Ver o que construímos até aqui é muito gratificante”, destaca o produtor, que aplica sua experiência profissional na qualidade dos produtos artesanais.

    Produção agroecológica sem agrotóxicos

    A Faz o Bem produz queijos com leite cru e fermento natural, processo que permite a degradação natural da lactose durante a maturação, resultando em produtos zero lactose. A queijaria possui o Selo Queijo Artesanal, que autoriza a comercialização em todo o território nacional.

    O diferencial está no manejo completamente agroecológico: não se utiliza agrotóxico no pasto nem medicamentos químicos nos animais. As práticas regenerativas focam na melhoria do solo, preservação da água, aumento da biodiversidade e equilíbrio do microclima local.

    Vinícius Soares conduz uma propriedade agroecológica que combina produção artesanal, recuperação ambiental e integração de sistemas produtivos. Foto: Arquivo Pessoal

    Um exemplo da sustentabilidade praticada na propriedade é o reaproveitamento do soro do queijo. Em vez de descartá-lo, o subproduto alimenta porcos da raça crioula Piau, criados soltos em quase dois hectares integrados ao sistema produtivo.

    “O soro deixa de ser um passivo ambiental e passa a fazer parte do sistema”, explica Vinícius, ressaltando a economia circular aplicada na fazenda.

    Floresta produtiva: 800 árvores plantadas

    O grande destaque é o sistema silvipastoril intensivo implementado em 3,4 hectares. Essa técnica sustentável integra árvores, pastagem e gado na mesma área, combinando gramíneas, leguminosas, arbustos e cerca de 800 árvores já plantadas.

    “Daqui a cinco ou dez anos, poderemos dizer que produzimos queijo debaixo de uma floresta”, projeta o produtor, visualizando a transformação ambiental em andamento.

    Certificação orgânica e desafios do mercado

    Entre 2023 e 2025, a Faz o Bem produziu o primeiro e único queijo Canastra com certificação orgânica da região, selo concedido pelo Instituto de Biodinâmica (IBD) com apoio do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Agroindústria do Sebrae.

    Apesar do pioneirismo, a certificação orgânica apresentou desafios econômicos. As restrições de insumos, especialmente a proibição de milho e soja transgênicos, impactaram a produção de leite, que aumentou de 8,5 para 14 litros por vaca ao dia após a saída do programa. Mesmo sem o selo, o manejo permanece agroecológico e regenerativo.

    Prêmios nacionais reconhecem qualidade

    A qualidade dos queijos artesanais da Faz o Bem foi reconhecida em competições nacionais. Em 2022, com apenas um ano de produção, a queijaria conquistou medalhas de Prata e Bronze no Mundial do Queijo do Brasil.

    “Foi como passar no vestibular. Tivemos certeza de que estávamos no caminho certo”, relembra Vinícius. Em setembro de 2025, a propriedade ficou em segundo lugar na categoria Queijos de Casca Florida Natural no 18º Concurso de Queijos Artesanais de Minas Gerais.

    O empreendedor destaca o papel fundamental do Sebrae Minas na estruturação da marca da queijaria e no fortalecimento da Indicação de Procedência do queijo da Canastra. A Faz o Bem também integra o projeto de turismo Rotas da Canastra, participando da rota do café, queijo e cachoeiras.

    “É um suporte constante para colocar nossos produtos no mercado e manter viva a tradição do Queijo Minas Artesanal”, afirma.

    Visão de futuro: referência em impacto positivo

    Para os próximos anos, o foco não está no volume de produção, mas em consolidar a queijaria como referência em impacto ambiental positivo e bem-estar animal. O objetivo é inspirar outros produtores e, potencialmente, transformar a propriedade em uma fazenda modelo para visitação de estudantes e interessados em práticas regenerativas.

    A experiência da Faz o Bem demonstra que é possível aliar tradição, qualidade e sustentabilidade na produção do queijo artesanal da Serra da Canastra, preservando o território e valorizando as futuras gerações.

  • Cooperativa de Tomé-Açu impulsiona agrofloresta sustentável

    Cooperativa de Tomé-Açu impulsiona agrofloresta sustentável

    O cooperativismo na Amazônia assume múltiplas faces e mostra que há caminhos possíveis para conciliar produção agrícola, inclusão social e preservação ambiental. Enquanto na comunidade de Anã, em Santarém, o turismo ecológico fortalece famílias ribeirinhas e protege o ecossistema; em Tomé-Açu, no nordeste do Pará, agricultores encontraram na agrofloresta a resposta para frear a degradação causada pela expansão da pecuária e da soja. Neste município, a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (CAMTA) se tornou símbolo de inovação, tradição e desenvolvimento sustentável — um modelo replicável para toda a Amazônia.

    Quase um século de cooperação

    Fundada em 1929 por imigrantes japoneses, a cooperativa nasceu em meio ao desafio de adaptar cultivos tropicais ao clima e ao solo amazônicos. Com o tempo, consolidou-se como protagonista na difusão de técnicas agrícolas e na criação de alternativas sustentáveis para crises enfrentadas pela região. Hoje, reúne mais de 600 famílias cooperadas e alcança um faturamento anual superior a R$ 124 milhões.

    Alberto Oppata, Presidente da CAMTA – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Seu parque agroindustrial permite beneficiamento e exportação de cacau, açaí, pimenta-do-reino, cupuaçu, maracujá e outras frutas tropicais. Os produtos chegam a mercados como da Europa, Ásia e América do Norte. Cada um leva consigo não apenas qualidade e rastreabilidade, mas também a marca de uma agricultura que respeita o meio ambiente e valoriza a diversidade cultural local.

    “Estamos celebrando também os 96 anos da imigração japonesa, que trouxe conhecimento agrícola e visão de comunidade para esta região”, recorda o presidente da cooperativa, Alberto Oppata. Para ele, o segredo da longevidade está na resiliência: depois da praga que dizimou a pimenta-do-reino nos anos 1960, os produtores aprenderam que diversificação e inovação eram o único caminho.

    Agrofloresta como alternativa de futuro

    O grande diferencial da cooperativa está na difusão dos Sistemas Agroflorestais (SAFs), em que culturas agrícolas se misturam com espécies nativas da floresta. Essa integração recupera áreas degradadas, melhora o microclima, protege a biodiversidade e garante renda contínua ao agricultor.

    Ernesto Suzuki, Cooperado CAMTA/ CEO Casa Suzuki – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Um exemplo emblemático é o SAF dendê, conduzido pelo cooperado Ernesto Suzuki. Desde 2008, em parceria com a Natura, a Embrapa e instituições de pesquisa, ele testa técnicas de cultivo sustentável da palmeira, combinada a espécies como cacau, açaí e andiroba. O resultado é produção sem queimadas, com adubação orgânica e baixo custo de manutenção. “Hoje, conseguimos produzir dendê, cacau, açaí e andiroba juntos, mantendo equilíbrio ecológico e garantindo receita desde o primeiro ano”, explica Suzuki.

    Além da produção agrícola, Suzuki criou a Casa Suzuki em 2023, espaço dedicado à valorização da biodiversidade. Lá, cacau é transformado em chocolates finos, pesquisas com cogumelos avançam em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e turistas vivenciam experiências únicas, como o banho de floresta.

    Histórias que preservam a memória e a floresta

    A diversidade também marca a trajetória da família Mineshita, que há mais de três décadas aposta no sistema consorciado como forma de enfrentar pragas e garantir renda estável. Em 20 hectares, sendo 15 cultivados, o engenheiro agrônomo Armando Tamotsu Mineshita produz cacau, açaí, cupuaçu, banana, pitaya, rambutan e mangostão.

    Armando Mineshita, agricultor e cooperado CAMTA – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    O modelo adotado cria um microclima que mantém a umidade, reduz o uso de adubos químicos e proporciona conforto até na hora da colheita. “Trabalhar no sol é difícil, mas aqui, pela manhã ou à tarde, a temperatura é sempre agradável”, comenta o agricultor. A produção atual chega a 10 toneladas de cacau, 7 de açaí e 7 de cupuaçu por ano.

    Para Mineshita, a grande lição é que a diversificação gera riqueza. “Aqui, aprendemos que é possível produzir em grande escala e, ao mesmo tempo, cuidar da floresta. A diversidade protege e fortalece a produção.”

    Inovação, inclusão e bioeconomia

    A Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu não é apenas uma associação de produtores. É também espaço de pesquisa, formação técnica e valorização social. A organização promove cursos de capacitação, mantém parcerias com universidades e empresas privadas e incentiva a participação feminina na gestão, com um comitê voltado para mulheres cooperadas.

    Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    Com esse trabalho, a cooperativa se tornou exemplo da bioeconomia amazônica, em que biodiversidade e conhecimento científico se transformam em geração de renda e oportunidades. Reconhecida nacional e internacionalmente, a experiência de Tomé-Açu é estudada por universidades e organismos multilaterais como modelo de agricultura tropical sustentável.

    Símbolo da Amazônia que dá certo

    As histórias de Oppata, Suzuki e Mineshita mostram que o futuro da Amazônia pode ser construído com base em tradição, ciência e cooperação. Mais que produzir alimentos, a cooperativa e seus associados criam uma narrativa de resistência e esperança: a de que é possível conciliar floresta em pé, qualidade de vida no campo e desenvolvimento econômico.

    Com quase um século de história, a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu permanece como símbolo vivo de que a agricultura amazônica não precisa repetir o modelo predatório. Ao contrário: pode ser inspiração para o Brasil e para o mundo.

  • Cooperativas de crédito reforçam impacto sustentável rumo à COP 30

    Cooperativas de crédito reforçam impacto sustentável rumo à COP 30

    O Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) realizou, em 19 de agosto, na sede do Sicredi em Belém (PA), um encontro preparatório para a COP 30. O evento reuniu as cooperativas de crédito Sicredi Norte, Sicoob Cooesa e Cresol Amazônia, além da participação da Concaves (Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis), que destacou sua atuação em economia circular.

    Sicredi amplia crédito verde e inclusão

    O presidente do Conselho de Administração da Sicredi Norte, Wilson Machado, abriu o evento com as boas-vindas, seguido pela apresentação conduzida por Pedro Lutz Ramos, superintendente de Tesouraria da instituição. Ele destacou que, em 2024, a Sicredi aplicou R$ 7,4 bilhões em projetos de energia limpa e agricultura de baixo carbono. Também destinou R$ 16 bilhões em crédito para mulheres empreendedoras e produtoras rurais.

    Na Amazônia, a cooperativa está presente em 271 municípios e é a única instituição financeira em 19 localidades. Apenas em energia solar, financiou R$ 324,5 milhões em projetos.

    Entre os exemplos, foi apresentada a trajetória de Sarah e Robson, produtores de cacau de Medicilândia (PA). Com apoio da Sicredi, eles investiram em estufas de secagem e expandiram a produção de chocolate. O trabalho rendeu um prêmio nacional e outro internacional, colocando o cacau da região entre os melhores do mundo.

     

    Pedro Lutz Ramos, superintendente de Tesouraria do Sicredi – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro Em Campo

    Na Amazônia, a cooperativa está presente em 271 municípios e é a única instituição financeira em 19 localidades. Apenas em energia solar, financiou R$ 324,5 milhões em projetos.

    Entre os exemplos, foi apresentada a trajetória de Sarah e Robson, produtores de cacau de Medicilândia (PA). Com apoio do Sicredi, eles investiram em estufas de secagem e expandiram a produção de chocolate. O trabalho rendeu um prêmio nacional e outro internacional, colocando o cacau da região entre os melhores do mundo.

    Sicoob alia cidadania, inovação e energia limpa

    A apresentação do Sicoob ficou a cargo de Lidiana Ferreira, do setor de Cooperativismo Financeiro e Investimento Social Privado. Ela apresentou três frentes de impacto:

    • Biblioteca comunitária no Marajó, inaugurada em junho de 2024, espaço de leitura e formação cultural;
    • Cooperativa mirim ribeirinha, criada em Portel (PA), a primeira do gênero no Brasil, com jovens organizados em torno do cultivo do açaí;
    • Usina fotovoltaica em Santa Bárbara do Pará, prevista para 2025, que garantirá energia limpa a toda a estrutura do Sicoob Cooesa.

    Segundo Lidiana, o sistema já concedeu R$ 3,2 milhões em crédito verde e desenvolve inventário de emissões de gases de efeito estufa, reforçando o compromisso socioambiental da cooperativa.

    Lidiana Ferreira, do setor de Cooperativismo Financeiro e Investimento Social Privado do Sicoob – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro Em Campo

    Cresol Amazônia promove inclusão e protagonismo

    O diretor de operações da Cresol nos estados de Rondônia e Amazonas, Douglas Barbosa, apresentou as ações da cooperativa. Ele destacou que a Cresol alcançou 100% dos municípios de Rondônia e avança em localidades do Amazonas, como Codajás e Anori, oferecendo crédito, orientação técnica e apoio ao empreendedorismo local.

    Douglas Barbosa, diretor de operações da Cresol nos estados de Rondônia e Amazonas – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro Em Campo

    A cooperativa mantém uma estratégia ESG baseada em dez eixos, como educação financeira, inovação e sucessão familiar. Já impactou 51 mil pessoas em ações educativas. Na Amazônia, mulheres ocupam 80% dos cargos de liderança e quase 70% do crédito liberado vai para jovens com até 29 anos.

    Concaves transforma resíduos em oportunidade

    A apresentação da Concaves foi feita por sua presidente e catadora de materiais recicláveis, Debora Baia, que destacou a transformação vivida pela categoria em Belém a partir do cooperativismo.

    Hoje, a cooperativa reúne 22 associados, com renda média de R$ 1.600, e já atendeu mais de 20 mil pessoas por meio da coleta seletiva.

    Debora Baia, presidente e catadora de materiais recicláveis da Concaves – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro Em Campo

    Entre as iniciativas, estão o “Reciclômetro Concaves”, que permite rastrear resíduos em tempo real, e a parceria com a Itaipu Binacional para implantação de quatro unidades de valorização de recicláveis na região.

    Cooperativismo como motor de desenvolvimento

    Segundo estudos da Fipe, municípios com presença de cooperativas de crédito registram 10% mais PIB per capita e 15% a mais em empregos formais. Os exemplos mostrados em Belém reforçam a visão de que o cooperativismo é capaz de gerar desenvolvimento econômico aliado à inclusão e sustentabilidade.

  • Celesty Suruí e o protagonismo indígena no café especial

    Celesty Suruí e o protagonismo indígena no café especial

    Ao lado de microlotes premiados e experiências sensoriais únicas no São Paulo Coffee Festival 2025, uma presença se destaca pela força da sua história e pelo significado que carrega: Celesty Suruí, barista e cafeicultora do povo Paiter Suruí, de Rondônia. Representando a identidade indígena no universo dos cafés especiais, ela atua como embaixadora do Projeto Tribos, iniciativa da 3 Corações que conecta sustentabilidade, ancestralidade e qualidade na produção de Robusta Amazônico.

    Moradora da Terra Indígena Sete de Setembro, Celesty é uma das vozes mais potentes do projeto e compartilha aqui sua vivência, trajetória e os valores que carrega — no corpo, na fala e na xícara.

    Como você se apresenta para quem está te conhecendo agora?

    Eu sou Celesty Suruí, moro no território indígena 7 de Setembro, do povo Paiter Suruí, onde produzimos cafés especiais dentro do território.

    Qual foi o seu primeiro contato com o café?A

    minha relação com o café foi desde sempre, porque o café sempre fez parte da nossa história, da história do meu povo. Meu pai sempre trabalhou com café, e até hoje a gente continua trabalhando com a produção no território indígena.

    E como nasceu sua carreira como barista?

    Minha carreira como barista começou em 2019. A partir daí eu me aprofundei mais no café, me apaixonei mais, e nunca mais voltei.

    Além de barista, você também é cafeicultora. Como é viver essas duas frentes?

    Sou barista, cafeicultora, e hoje trabalho com a 3 Corações como representante dos cafeicultores indígenas que trabalham com a cafeicultura dentro do estado de Rondônia. Falo do projeto, dos trabalhos que a gente vem fazendo dentro do território — que inclui café, cacau, castanha, banana.

    A floresta está presente em tudo isso, certo?

    Sim. Trabalhamos como agrofloresta. A gente não derruba, a gente preserva. Usamos o café como uma forma de manter a Amazônia em pé, porque ela tem que fazer parte disso também, né?

    O que significa, para você, estar junto da 3 Corações no Projeto Tribos?

    Eu trabalho com a 3 Corações porque foi uma empresa que valorizou a nossa cultura, o nosso trabalho. E hoje temos esse projeto, que é o Projeto Tribos, que atua em três pilares: protagonismo indígena, proteção da floresta e produzir cafés de qualidade.

    E como era a realidade antes do projeto?

    Antes do Projeto Tribos, como cafeicultora, o nosso café não era valorizado. A gente vendia, mas não era reconhecido. Como barista, é muito emocionante pra mim fazer o nosso café — que é produzido na Amazônia — aqui para o pessoal do mundo. É gratificante, porque eu não tô aqui só como a Celesty, primeira barista indígena do Brasil. Eu tô aqui como a Celesty do povo Paiter Suruí, que é cafeicultora.

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  • Erva-mate em agroflorestas: SC une produção e sustentabilidade

    Erva-mate em agroflorestas: SC une produção e sustentabilidade

    Em meio a araucárias, imbuias e canelas, a erva-mate cresce vigorosa, beneficiando-se da sombra da floresta. Essa é a realidade de Eurico Rocha, agricultor de Ponte Serrada (SC), que mantém 12 hectares de agrofloresta seguindo uma tradição iniciada por seu avô. Sem usar agrotóxicos e apenas com adubação orgânica, ele colhe até 15 toneladas por hectare a cada dois anos e meio – um exemplo de como a produção sustentável pode ser lucrativa.

    A cena se repete em diversas propriedades rurais de Santa Catarina, onde um terço da erva-mate é cultivada em sistemas agroflorestais. O estado, que responde por 20% da produção nacional, colheu 130 mil toneladas em 2023, movimentando R$ 176 milhões. Além de ser a base do tradicional chimarrão, a erva-mate ganha espaço em chás, sucos e até cosméticos, sustentando milhares de famílias.

    Por que a erva-mate em agroflorestas?

    A Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de SC) tem sido peça-chave no fomento a esse sistema, que alia produtividade e conservação ambiental. Segundo Paulo Alfonso Floss, pesquisador da Epagri, a erva-mate é uma planta nativa que se adapta perfeitamente ao clima e solo da região, proporcionando:

    • Melhor qualidade da folha (mais verde, doce e com maior teor de cafeína)
    • Proteção do solo e da água
    • Redução de pragas e doenças (devido ao equilíbrio ecológico)
    • Renda complementar (já que outras espécies, como a araucária, também geram lucro)

    O diferencial do planalto norte

    A região do Planalto Norte Catarinense se destaca na produção de erva-mate em caívas – sistemas agroflorestais que mantêm apenas árvores nativas, sem espécies exóticas ou agrotóxicos. O resultado é um produto mais doce, menos amargo e com folhas mais nutritivas.

    Um terço da erva-mate produzida em Santa Catarina vem de agroflorestas. Foto: Epagri SC/Divulgação

    Essa singularidade rendeu à erva-mate da região o selo de Indicação Geográfica (IG) em 2022, concedido pelo INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial). A certificação abrange 12 municípios e valoriza a produção local, abrindo portas para mercados premium e turismo rural.

    O trabalho da Epagri

    Há mais de 40 anos, a Epagri investe em pesquisas para fortalecer a cadeia produtiva da erva-mate. Entre as principais contribuições estão:

    • Primeiro pacote tecnológico para erva-mate no Brasil
    • Lançamento do cultivar SCSBRS Caa rari (em parceria com a Embrapa)
    • Desenvolvimento de novas variedades, incluindo uma para cultivo a pleno sol (a ser lançada em 2026)
    Nas capacitações, os produtores conhecem tecnologias que aumentam a produtividade. Foto: Epagri SC/Divulgação

    Além disso, a Epagri orienta produtores sobre:

    • Manejo ideal (poda, adubação e controle de pragas)
    • Sombreamento correto (recomendando 50 a 100 araucárias por hectare)
    • Capacitação técnica (em 2024, mais de 1.300 produtores foram atendidos)

    Histórias de sucesso

    Eurico Rocha é um dos exemplos de como a assistência técnica transforma vidas. Com mais de 20 certificados de cursos da Epagri, ele não só melhorou sua produção como se tornou consultor ambiental. “Os cursos vão muito além da técnica – abrem a mente do agricultor. Hoje, sou empreendedor graças a esse conhecimento.”

    Eurico Rocha, produtor. Foto: Epagri SC/Divulgação

    Outros agricultores, como os de Passos Maia e Vargeão, também relatam aumento de produtividade após aplicarem as técnicas aprendidas.

    A tendência é que mais produtores migrem para sistemas agroflorestais, já que a erva-mate sombreada tem maior valor de mercado. Além disso, a Indicação Geográfica e a demanda por produtos sustentáveis impulsionam novos negócios.

    Santa Catarina mostra que é possível produzir com qualidade, gerar renda e preservar a floresta – um modelo que pode inspirar todo o Brasil.

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