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  • Abelha mandaguari eleva em até 67% a produção de café arábica

    Abelha mandaguari eleva em até 67% a produção de café arábica

    Uma pesquisa da Embrapa Meio Ambiente (SP) e de instituições parceiras comprova que o manejo de abelhas nativas sem ferrão pode elevar em até 67% a produção de frutos do café arábica. Publicado na revista científica Frontiers in Bee Science, o estudo posiciona a polinização manejada como estratégia concreta para aumentar a produtividade e fortalecer a sustentabilidade da cafeicultura brasileira.

    A espécie estudada é a Scaptotrigona depilis, popular como abelha mandaguari. Social e pertencente ao grupo dos meliponíneos, ela ocorre em diferentes regiões do Brasil. O ganho de até 67% na produção de frutos, registrado em ramos próximos às colônias, confirma a eficiência da mandaguari como polinizadora do café, inclusive em cultivares autocompatíveis, variedades capazes de se autopolinizar sem depender de outra planta.

    Como os pesquisadores conduziram o estudo

    A equipe instalou colônias em fazendas convencionais na densidade de aproximadamente dez colônias por hectare, antes do início da florada. Para medir o efeito da polinização, os cientistas compararam a produção entre ramos próximos às colônias e ramos mais distantes, metodologia que permitiu isolar o ganho de rendimento atribuível à atividade das abelhas.

    Os resultados se encaixam numa linha de pesquisa mais ampla iniciada em 2021 em lavouras comerciais de São Paulo e Minas Gerais. Trabalhos anteriores já haviam estimado um ganho potencial de R$ 22 bilhões por ano com a polinização do café no Brasil. O novo estudo com a mandaguari acrescenta dados inéditos sobre a interação entre insumos químicos e polinizadores nativos em ambientes controlados.

    Pesticidas afetam as colônias? Pesquisa responde

    Além da produtividade, os pesquisadores investigaram se inseticidas neonicotinoides, especificamente o tiametoxam, aplicado em safras anteriores nas áreas convencionais, poderiam prejudicar a saúde das colônias. O monitoramento acompanhou indicadores como produção de cria, mortalidade de larvas e atividade de coleta de alimento e materiais de construção dos ninhos. As avaliações ocorreram em cinco momentos: uma semana antes da florada, uma semana após, e cerca de 45, 75 e 105 dias depois da retirada do talhão.

    Imagem: Embrapa

    A equipe detectou resíduos do inseticida e de seu metabólito, a clotianidina, em folhas de café, néctar e pólen coletados em campo, confirmando exposição real das abelhas aos neonicotinoides. Ainda assim, os parâmetros avaliados nas colônias não apresentaram impactos estatisticamente significativos. Indicadores de produção e mortalidade de crias não mostraram diferenças relevantes entre colônias em áreas convencionais e aquelas mantidas em propriedades orgânicas. A atividade de coleta registrou variações iniciais entre os sistemas, mas as diferenças diminuíram ao longo do monitoramento.

    Duas conclusões centrais para o setor cafeeiro

    Os autores destacam duas implicações práticas diretas. Primeiro: abelhas sem ferrão funcionam como polinizadoras eficazes do café arábica e elevam a produtividade mesmo em cultivares autocompatíveis, sem exigir outra variedade compatível no campo. Segundo: nas condições avaliadas, o uso de defensivos dentro das recomendações técnicas não gerou danos mensuráveis às colônias — o que indica que produtores podem conciliar proteção fitossanitária e preservação dos polinizadores.

    “O estudo demonstra que o uso de abelhas nativas manejadas pode gerar ganhos expressivos de produtividade, ao mesmo tempo em que contribui para a conservação dos polinizadores e para o fortalecimento de sistemas agrícolas mais sustentáveis”, afirma a bióloga Jenifer Ramos, primeira autora do estudo e ex-bolsista de inovação na Embrapa Meio Ambiente.

    O coordenador da pesquisa, Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, reforça a relevância do achado para o manejo integrado: “A pesquisa traz evidências importantes de que é possível conciliar o manejo fitossanitário com a manutenção da saúde das colônias de abelhas, desde que se sigam as recomendações técnicas.”

    A rede científica por trás do estudo reúne Embrapa Meio Ambiente, Esalq/USP, UFRGS, Natural England e Eurofins Agroscience Services, com apoio da Syngenta.

    Mercado global pressiona por mais produtividade

    O avanço chega num momento crítico para o café no mundo. A Organização Internacional do Café estimou a produção global no ciclo 2023/24 em 178 milhões de sacas de 60 kg. Enquanto o consumo atingiu 177 milhões, margem mínima que torna o setor vulnerável a qualquer oscilação climática ou quebra de safra. Para 2024/25, a estimativa global recuou para 176,2 milhões de sacas, mantendo o cenário de mercado apertado.

    O consumo mundial segue crescendo cerca de 2% ao ano, impulsionado pela abertura de novos mercados e pela consolidação do café em países tradicionalmente importadores. Essa expansão aumenta a pressão por sistemas produtivos mais eficientes e resilientes.

    Imagem: Embrapa

    O clima extremo agrava o quadro. Relatório da FAO aponta que condições adversas em grandes países produtores contribuíram para a alta de 38,8% nos preços internacionais do café em 2024. Tempo seco e quente no Brasil, estiagem prolongada no Vietnã e excesso de chuvas na Indonésia figuram entre os fatores determinantes.

    Nesse contexto, estratégias que elevam a produtividade sem ampliar áreas cultivadas ganham peso econômico e ambiental. O manejo de polinizadores nativos, como sugere o estudo da Embrapa, desponta como alternativa concreta para reforçar a oferta e aumentar a resiliência da cafeicultura brasileira frente às pressões do clima e do mercado.

  • Nem todo mel é igual: cor, sabor e textura denunciam a florada

    Nem todo mel é igual: cor, sabor e textura denunciam a florada

    A ideia de que todo mel é parecido ainda engana muita gente. Na prática, a cor, o sabor, o aroma e até a textura do produto variam conforme a florada visitada pelas abelhas, o que muda completamente o resultado final no pote.

    Mel claro não significa, automaticamente, mel melhor. O que define o perfil do produto é a origem botânica do néctar, além do manejo feito no apiário e das características naturais de cada planta.

    A flor manda no resultado

    As abelhas produzem mel a partir do néctar das flores, e cada espécie vegetal imprime traços próprios ao alimento. Por isso, um mel pode sair mais suave, mais escuro, mais encorpado ou mais aromático, dependendo da florada predominante na região.

    Esse detalhe faz diferença porque quebra uma leitura simplista do produto. A cor, sozinha, não serve como régua de qualidade. Dois méis com aparência diferente podem ser igualmente bons, cada um com características próprias e usos distintos.

    Cor não é sinônimo de qualidade
    (Foto: Aires Mariga/Epagri)

    Sabor, aroma e textura também mudam

    A variação não para na aparência. O sabor do mel acompanha a florada e pode ir de notas mais leves a perfis mais intensos, com aromas mais marcantes.

    Méis mais claros costumam ter gosto suave. Já os mais escuros tendem a apresentar sabor mais forte e personalidade sensorial mais evidente. Isso não representa defeito, mas sim uma assinatura natural da planta de origem.

    Outro ponto que costuma gerar dúvida é a cristalização. Quando o mel cristaliza, muita gente acha que ele estragou. Não é isso que acontece. O processo pode indicar apenas que o produto é puro, já que a formação de cristais depende da composição natural do mel.

    O impacto para o produtor

    Para o apicultor, essa diferença vai além da curiosidade. A florada influencia o perfil comercial do mel, o valor agregado e até o público que vai consumir aquele produto.

    Há méis com sabores mais delicados, que agradam a quem busca suavidade. Outros têm gosto mais forte e podem atrair consumidores que preferem características mais intensas. Ou seja, a florada ajuda a definir mercado, identidade e posicionamento.

    Na prática, isso exige atenção na produção e na comunicação com o consumidor. Explicar a origem do mel e suas particularidades pode valorizar o produto e evitar comparações injustas entre tipos diferentes.

    O que o consumidor precisa observar?

    Na hora da compra, o consumidor precisa olhar além da cor. A aparência pode chamar atenção, mas não entrega sozinha a qualidade do mel.

    O mais importante é entender que cada florada produz um resultado específico. É isso que faz um mel ser mais suave, outro mais forte, um mais claro e outro mais escuro. No fim, a diferença entre os méis começa muito antes da embalagem. Ela nasce nas flores, passa pelas abelhas e chega ao pote com identidade própria.

  • Conheça a abelha que produz mel vermelho

    Conheça a abelha que produz mel vermelho

    A abelha uruçu-nordestina vem chamando atenção por um detalhe que foge do comum: o mel avermelhado. A cor, que circulou nas redes sociais e despertou curiosidade, não aparece por acaso. Ela está ligada a uma combinação de fatores naturais que envolve a espécie, o ambiente e as plantas visitadas pelas abelhas.

    Um grupo essencial para os ecossistemas

    Essa espécie pertence ao grupo das abelhas sem ferrão, tão importantes para o equilíbrio dos ecossistemas. No Brasil, esse conjunto reúne mais de 250 espécies nativas e desempenha um papel essencial na polinização de culturas agrícolas e plantas silvestres. Além disso, também é responsável por produzir méis com características bem diferentes entre si.

    Onde vive a uruçu-nordestina

    A uruçu-nordestina, conhecida cientificamente como Melipona scutellaris, aparece em estados do Nordeste, como Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe e Ceará. Por isso, sua presença fica mais restrita a essas regiões, onde o clima e a vegetação ajudam a explicar parte da identidade da espécie.

    O que muita gente chama de mel vermelho, no entanto, também passa pela forma como a colmeia é construída. Segundo especialistas, as abelhas sem ferrão não usam apenas cera pura, como ocorre com algumas outras espécies. Elas produzem uma mistura chamada cerume, formada por cera e resinas vegetais coletadas no ambiente.

    Como a vegetação influencia a cor?

    Essa combinação muda bastante o aspecto das estruturas internas da colmeia. O cerume é usado para formar potes de armazenamento de mel, além de abrigar áreas de criação das larvas. Como as resinas variam conforme a vegetação disponível, a cor final também pode mudar.

    A tonalidade avermelhada aparece com mais frequência em áreas próximas a manguezais e restingas. Nesses locais, as abelhas visitam plantas específicas e coletam resinas que puxam essa coloração para o material da colmeia. Assim, o tom do mel ou do cerume acaba refletindo, em parte, o ambiente em que a abelha vive.

    Além disso, pesquisadores apontam uma relação direta entre essa coloração e a chamada própolis vermelha, outro produto natural bastante valorizado. Como ambos dependem da resina coletada nas plantas, a cor acaba funcionando quase como uma assinatura do território visitado pelas abelhas.

    Um sinal da biodiversidade local

    No fundo, o caso da uruçu-nordestina ajuda a mostrar como a natureza trabalha com detalhes que nem sempre passam despercebidos por quem observa com atenção. Um mel vermelho não é apenas uma curiosidade visual. Ele também revela a ligação entre biodiversidade, vegetação e os recursos que cada região oferece.

    Por outro lado, o interesse crescente por esse tipo de abelha reforça a importância da meliponicultura e da conservação das espécies nativas. Quando uma abelha sem ferrão ganha visibilidade, também ganha espaço a discussão sobre preservação, manejo adequado e valor ambiental.

    Muito além de uma curiosidade viral

    A uruçu-nordestina, portanto, chama atenção não só pelo mel raro, mas também pelo papel que desempenha na natureza. E é justamente essa mistura de beleza, função ecológica e particularidade local que explica por que ela voltou a viralizar.

  • Dia Nacional das Abelhas: estudos comprovam viabilidade da integração entre apicultura e sojicultura

    Dia Nacional das Abelhas: estudos comprovam viabilidade da integração entre apicultura e sojicultura

    Celebrado em 3 de outubro, o Dia Nacional das Abelhas ganha relevância especial diante de descobertas que comprovam o papel estratégico desses polinizadores na agricultura brasileira. Pesquisas realizadas pela BASF Soluções para Agricultura em parceria com a Embrapa demonstram que a presença de abelhas nas lavouras de soja pode elevar a produtividade em até 13%, resultado que redefine a relação entre apicultura e agricultura no país.

    Reconhecidas como agentes fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas, as abelhas são responsáveis pela polinização de aproximadamente 90% das plantas com flores do planeta, segundo dados da Embrapa. Contudo, sua importância vai muito além da produção de mel, impactando diretamente os resultados das lavouras brasileiras.

    Soja e abelhas: uma parceria produtiva

    Embora a soja não seja tradicionalmente considerada uma planta melífera, o estudo conduzido pela BASF em parceria com a Embrapa e o Senar revelou dados surpreendentes sobre os benefícios da presença de abelhas nessa cultura. A pesquisa demonstra que a integração entre sojicultura e apicultura não apenas é viável, mas altamente vantajosa para ambos os setores.

    Desde 2022, a parceria entre BASF e Embrapa se dedica a investigar essa convivência em diferentes regiões do Brasil. Um dos principais resultados foi a validação de um protocolo de Boas Práticas Agrícolas e Apícolas. Ele  orienta tanto produtores rurais quanto apicultores sobre como maximizar os ganhos dessa integração.

    Cartilha gratuita orienta produtores

    Como resultado prático da pesquisa, foi desenvolvida a cartilha “Boas práticas para integração entre apicultura e sojicultura”, disponível gratuitamente para download. O material reúne orientações essenciais sobre comunicação entre produtores, manejo adequado de colmeias e horários corretos para aplicação de defensivos agrícolas, promovendo uma coexistência harmoniosa entre as atividades.

    O apicultor gaúcho Aldo Machado vivenciou na prática os benefícios dessa integração. Com seus apiários posicionados no meio e no entorno de plantações de soja, ele registrou resultados expressivos. “Tivemos apiários que produziram mais de 50kg apenas na soja, o dobro da média nacional. Além disso, é um mel de excelente qualidade, de difícil cristalização, aromático e claro. Um mel perfeito para consumo”, relata Machado.

    O apicultor destaca que o diálogo entre agricultores e apicultores, aliado ao manejo correto de defensivos, beneficia ambas as partes. “É um negócio perfeito. Este ano estou direcionando mais abelhas para a soja do que para o eucalipto”, revela.

    Projeto amplia impacto no Rio Grande do Sul

    A iniciativa “Agricultura para um futuro positivo com a natureza”, promovida pela BASF, representa outro avanço significativo. O projeto reúne instituições como Fundação Solidaridad, GeoApis, Wheatley Young Partners e TEH&CO para implementar práticas agrícolas que gerem benefícios ambientais e comunitários.

    Iniciado em janeiro de 2024, o projeto conta com a participação de 18 produtores e 19 apicultores nos municípios de Machadinho, Gaurama e Áurea, no Rio Grande do Sul. Os resultados do primeiro ano indicam correlação positiva entre a densidade de abelhas e o aumento da produtividade. Confirmando a contribuição dos polinizadores para a produção de soja.

    Entre os fatores de sucesso estão a comunicação eficaz entre os envolvidos e a adoção de práticas sustentáveis como plantio direto, tecnologias adequadas de aplicação de defensivos, cultivo consorciado, integração de produtos biológicos, manejo integrado de pragas e tratamento de sementes.

    Compromisso com a sustentabilidade

    Camila Leonelli, gerente sênior de Estratégia de Sustentabilidade da BASF Soluções para Agricultura, ressalta que as áreas estudadas apresentaram grande população e diversidade de espécies de abelhas, além de ganhos em produtividade e rentabilidade. “Isso demonstra que a coexistência entre sojicultura e apicultura é viável e positiva quando o manejo correto é realizado. A integração entre agricultura e apicultura gera ganhos concretos para a produção e para o meio ambiente”, afirma.

    Maurício do Carmo Fernandes, gerente de Stewardship e Sustentabilidade da BASF, reforça que produzir mais e com qualidade utilizando menos recursos é um dos pilares da sustentabilidade. “É essencial encontrar maneiras efetivas de conservar os polinizadores. Eles contribuem não apenas para a produtividade agrícola, mas também para o equilíbrio dos nossos ecossistemas naturais”, destaca.

  • Própolis de abelha da Amazônia cicatriza feridas e reduz inflamação

    Própolis de abelha da Amazônia cicatriza feridas e reduz inflamação

    Um estudo recente conduzido por cientistas da Embrapa Amazônia Oriental (PA) e da Universidade Federal do Pará (UFPA) revelou que um creme formulado com própolis produzida por abelhas sem ferrão nativas da Amazônia apresenta fortes propriedades cicatrizantes e anti-inflamatórias. A própolis, extraída da abelha-canudo (Scaptotrigona aff. postica), mostrou resultados em cobaias de laboratório semelhantes aos de pomadas cicatrizantes comerciais.

    O creme à base dessa própolis não apenas acelerou a recuperação das feridas, como também reduziu a inflamação e promoveu uma regeneração tecidual de melhor qualidade em comparação a produtos disponíveis no mercado. Essa pesquisa destaca o potencial farmacêutico de um bioproduto tradicionalmente utilizado pelas populações amazônicas desde a antiguidade.

    Publicado na revista científica Molecules, o artigo “Healing Activity of Propolis of Stingless Bee (Scaptotrigona aff. postica), Reared in Monoculture of Açaí (Euterpe oleracea)” representa um esforço conjunto de instituições da Região Norte para valorizar os recursos naturais da biodiversidade amazônica.

    Influência do açaí na qualidade da própolis

    A abelha-canudo é reconhecida pela eficiência na polinização do açaizeiro. A pesquisa originou-se da observação da frequência dessa abelha nas flores de açaí. O professor Nilton Muto, da UFPA, explica que a grande produção de própolis pelas abelhas-canudo levantou a hipótese de que o ambiente de cultivo do açaí influencia a qualidade do produto.

    A própolis resulta da combinação de resinas vegetais, pólens coletados pelas abelhas e cera produzida por elas. Embora a origem exata das substâncias da própolis estudada não tenha sido determinada, os pesquisadores acreditam que o cultivo de açaí contribuiu para a uniformidade química da própolis. A palmeira do açaí (Euterpe oleracea) contém altos níveis de compostos fenólicos e antocianinas, reconhecidos por sua potente ação antioxidante.

    Análises químicas mostraram que a própolis da abelha-canudo coletada em áreas de açaí apresenta elevada concentração de compostos bioativos, essenciais para a promoção da saúde humana. A quantidade de compostos fenólicos superou em mais de 20 vezes o limite mínimo estabelecido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), enquanto os flavonoides ultrapassaram quase quatro vezes o índice mínimo regulamentar.

    Resultados detalhados da cicatrização

    Na avaliação macroscópica, o creme de própolis e a pomada comercial reduziram igualmente o tamanho das feridas. Porém, a análise microscópica revelou que o tratamento com própolis acelerou a recuperação das fibras colágenas tipo 1 e 3 e diminuiu a inflamação local. Essas fibras oferecem suporte estrutural ao tecido em regeneração, e a menor inflamação facilita a cicatrização. Os pesquisadores atribuem esses benefícios aos compostos bioativos presentes na própolis da abelha-canudo.

    Amostras apresentaram altas concentrações de compostos bioativos, como flavonoides e fenólicos. Fotos: Vinícius Braga/Embrapa

    Até hoje, nenhum creme à base de própolis oriundo de cultivo de açaí havia sido descrito. Esse biofármaco apresenta vantagens como menor risco de efeitos colaterais, baixa presença de resíduos químicos e uso reduzido de conservantes.

    Características e importância da abelha-canudo

    A própolis protege a colmeia contra microrganismos e invasores, cobrindo frestas e isolando o ambiente. Diferente de outras abelhas nativas amazônicas, como a uruçu-amarela e a uruçu-cinzenta, a abelha-canudo não utiliza barro em sua própolis, evitando contaminantes do solo.

    Essa abelha é uma polinizadora eficiente do açaí, visitando flores masculinas e femininas, o que a torna essencial para a produtividade do cultivo. A meliponicultura, criação de abelhas sem ferrão, cresce na região incentivada pela cadeia produtiva do açaí.

    No experimento, os pesquisadores instalaram caixas com abelhas-canudo em um raio de 450 metros no interior das plantações de açaí. O voo das abelhas para coleta de alimento alcançou até 300 metros, indicando forte influência do ambiente de açaí na produção da própolis.

    Perspectivas para produção e novos estudos

    Pesquisas futuras devem identificar os indivíduos mais aptos para produção de própolis e as melhores práticas de manejo para ampliar a escala do produto. Como a produção por colmeia é pequena, muitos produtores seriam necessários para viabilizar comercialmente a própolis.

    Além da própolis, o pólen coletado e processado pela abelha-canudo também apresenta alto valor nutricional, rico em aminoácidos. O mel produzido por essa espécie ainda não alcança quantidade comercial, mas apresenta diferenciais importantes em relação aos méis convencionais.

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  • Abelhas na produção de café aumentam lucro do produtor

    Abelhas na produção de café aumentam lucro do produtor

    A inserção de abelhas manejadas em lavouras de café arábica pode revolucionar a produção brasileira. Um estudo inédito conduzido pela Embrapa Meio Ambiente, em parceria com a Syngenta e outras instituições, revelou que a polinização assistida aumenta a produtividade, melhora a qualidade dos grãos e gera impacto econômico significativo. Os resultados indicam um potencial de acréscimo de R$ 22 bilhões à receita anual da cafeicultura no Brasil, consolidando a técnica como uma ferramenta estratégica para o setor.

    A pesquisa e seus resultados: mais produtividade e qualidade no café

    Entre 2021 e 2023, o estudo foi conduzido em fazendas de São Paulo e Minas Gerais, principais regiões produtoras de café arábica. Colmeias de abelhas africanizadas (Apis mellifera) foram introduzidas estrategicamente nas plantações, com resultados comparados a áreas que dependiam apenas da polinização natural.

    Os dados impressionam: a produtividade aumentou em 16,5%, passando de 32,5 para 37,9 sacas por hectare. Isso representa um acréscimo de 6,5 milhões de sacas na produção nacional.

    Além do volume, a qualidade também subiu de nível. A nota sensorial da bebida — que considera sabor, aroma e outros fatores — aumentou em 2,4 pontos. Em algumas propriedades, os grãos evoluíram da classificação “regular” para “especial”, um mercado que agrega maior valor ao produto. O preço da saca subiu 13,15%, gerando um ganho adicional de US$ 25,40 por unidade.

    Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa e coautor do estudo, destaca os benefícios múltiplos da técnica. “A integração de abelhas manejadas na cafeicultura representa uma oportunidade de ganho econômico substancial, enquanto promove práticas agrícolas mais sustentáveis”, afirmou.

    Sustentabilidade e viabilidade: abelhas e defensivos agrícolas podem coexistir

    Uma das grandes preocupações do setor cafeeiro é o impacto dos defensivos agrícolas na saúde dos polinizadores. O estudo investigou os efeitos do tiametoxam, um inseticida amplamente utilizado, sobre as colmeias de abelhas africanizadas e nativas sem ferrão.

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    Os resultados mostram que, quando aplicados conforme as recomendações técnicas, os defensivos não comprometem a saúde das abelhas. Embora resíduos do inseticida tenham sido detectados em pólen e néctar, não houve alterações nos parâmetros avaliados, como mortalidade de larvas, produção de cria e atividade de forrageamento.

    “Esse resultado reforça que é possível equilibrar o uso de defensivos com a preservação dos polinizadores, garantindo produtividade e sustentabilidade”, explicou Menezes.

    Impacto econômico para a cafeicultura nacional

    Caso a polinização assistida fosse adotada em toda a área de café arábica no Brasil, o impacto econômico seria expressivo. De acordo com o estudo, o aumento de 16,5% na produtividade elevaria a produção nacional para 46,1 milhões de sacas em 2024, enquanto o valor total do mercado saltaria de R$ 70,5 bilhões para R$ 92,9 bilhões.

    Integração entre o manejo de polinizadores e a cafeicultura de larga escala tem impactos positivos também na maior sustentabilidade ambiental das lavouras.

    Os benefícios vão além do aspecto econômico, impactando positivamente toda a cadeia produtiva. Jenifer Ramos, pesquisadora da Embrapa e coautora do estudo, ressalta que “a polinização assistida melhora a qualidade do agroecossistema, aumentando a rentabilidade dos produtores e promovendo uma agricultura mais sustentável.”

    A visão do produtor: tecnologia em prática

    Gustavo Facanali, engenheiro agrônomo e produtor rural, já implementou a técnica de polinização assistida em suas lavouras de café. Cultivando 120 hectares entre São Paulo e Minas Gerais, ele relata um aumento de 17% na produtividade, com a colheita passando de 110 para 128 sacas por hectare.

    “Com o preço atual do café, isso representa um ganho de R$ 27 mil por hectare. Além disso, a qualidade do grão melhorou, atingindo até 82 pontos na classificação sensorial”, relatou Facanali.

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    O produtor também destacou a importância da técnica frente às mudanças climáticas. “Com o clima instável, essa tecnologia ajuda a mitigar perdas e a manter a rentabilidade de forma sustentável”, concluiu.

    Um futuro promissor para a cafeicultura e a apicultura

    A adoção em larga escala da polinização assistida poderia beneficiar não só os cafeicultores, mas também o setor apícola. A cafeicultura de arábica no Brasil demandaria cerca de 6 milhões de colmeias, criando novas oportunidades para a apicultura e fortalecendo a sinergia entre agricultura e conservação ambiental.

    Guilherme Sousa, CEO da AgroBee, enxerga na prática uma oportunidade única. “A polinização assistida representa o maior potencial produtivo sustentável para a agricultura brasileira, unindo inovação e preservação da biodiversidade.”

    Em um mercado cada vez mais competitivo, a polinização assistida se mostra uma solução estratégica para aumentar a produtividade, agregar valor ao produto e promover uma agricultura mais sustentável. Os resultados do estudo comprovam que o manejo de abelhas não é apenas viável, mas essencial para a evolução do setor cafeeiro no Brasil.